CRÍTICA: Agente 86

Ação
// 20/06/2008

É bem verdade que nos últimos anos, os filmes de ação e espionagem têm seguido um padrão. Apesar de no início de sua formação este contexto ter soado atraente, ele muito rápido se deteriorou. É o caso, mesmo que implícito, de Agente 86. Projetado num roteiro de duas vertentes – a comédia e a ação – o longa não se firma exatamente em uma delas, o que por um lado é bom, pois atinge dois pontos extremistas sem divergir-los, por outro, não aponta qual contexto coadjuva qual, se tornando vago.

Agente 86
por Arthur Melo

Maxwell Smart é um funcionário de uma agência “secreta” (conhecida por todos, só que, ao conhecimento público, está desativada) que, após sua oitava tentativa, é promovido a agente secreto. Ao lado de sua primeira parceira, a Agente 99 (vivida por uma ótima Anne Hathaway em excelente forma – literalmente), Max deve descobrir e aniquilar terroristas que planejam explodir uma bomba nuclear em solo americano.

Cercado de clichês de ambos os gêneros, Smart se esquiva agilmente dos arpões do roteiro. Apesar da alusão ao princípio “salvem o presidente dos Estados Unidos”, a trama se desenvolve naturalmente, com uma certa coerência, sofrendo apenas com uma ou outra má colocação plantada e alguns fatos previsíveis. O maior problema de Agente 86 está em não criar algo novo além das poucas piadas inéditas. Não que estas sejam desnecessárias, pelo contrário. O humor é muito bem colocado em todo o texto, sem se prover de imagens e falas apelativas. A violência é bem medida e programada. A pancadaria ocorre, mas é amaciada para não fugir daquilo que o filme se propõe a fazer, se encaixando perfeitamente em qualquer faixa etária, sem soar pesado e nem fraco; obedece suas medidas. A mixagem das graças descuidadas promovidas por Max em momentos de tensão são enaltecidas, aliás, pelo melhor desempenho de Steve Carell em papéis sem grande carga dramática até hoje.

É nesta interseção que o filme falhou. Com o pensamento focado na interpolação da comédia com a ação, o script se esquece de desenvolver qualquer um dos dois, deixando a história atingir o fim numa progressão lenta, com criatividade mais para os meios do que para os fins. Todo o percurso dos protagonistas parece ter sido construído com o único intuito de dar margem às piadas, uma por uma, colocadas em cima de um roteiro simples de espionagem. E quando este desmérito parece funcionar para alguma coisa, ele peca mais uma vez. A relação entre a Agente 99 e o Agente 86, nos momentos iniciais, recebeu a devida atenção dos realizadores, funcionando muito bem, mas, durante o decorrer da jornada, o texto parece exercer sobre eles o único propósito de levar, no final, a um romance que já está sinalizado a priori.

Se não houve fundo intelectual em sequer uma piada, o que torna a proposta do filme mais assimilável pelo grande público, Steve Carell compensa, generosamente, com sua performance flexível. Max Smart é, como o nome em inglês diz, inteligente. Sua capacidade e autonomia não podem ser, em momento algum, comparadas às de Jacques Clouseau, de A Patenera Cor-de-Rosa, até porque, 86 está muito longe disto. Smart é atrapalhado, sim, um tanto quanto sem jeito e um pouco desnorteado, mas tem boas qualidades que sugerem apenas uma inexperiência no cargo. Demonstra coragem, velocidade, reflexo, esperteza, elasticidade (sim, isso mesmo) e força sem jamais perder a oportunidade de divertir. E Carell captou este sentido com louvor, enriquecendo o conteúdo do personagem. Desde suas expressões faciais impassíveis até sua postura diante de cenas que exigem maior habilidade física, Steve Carell se mantém decente e arranca risadas sem recorrer aos exageros estereotipados como Jim Carrey, nos presenteando com um avanço considerável em relação às comédias pastelão.

Outro grande salto, proporcionado, talvez, pelo caráter frenético que algumas sequências exigem, são os efeitos visuais. Não que a produção inove, mas, ao utilizá-los apenas como instrumento de auxílio, ganha-se em qualidade, capricho e convencimento; algo que não é visto habitualmente em comédias, ausentando a necessidade de criar ondas exorbitantes de animações computadorizadas.

Baseado em estruturas reprisadas, Agente 86 é uma boa evolução na forma como uma história pode derivar de uma boa reciclagem. Aproveitou tudo o que anteriormente foi testado e aprovado pelo cinema e jogou na sua fórmula, sem descer muitos níveis qualitativos. Ainda que saia devendo na originalidade, dá o troco no carisma e na boa organização do pouco que se habilita a exibir. Num contexto onde os louros dos estúdios provêem das continuações, há uma boa forma para, ao adicionar criatividade, moldar uma boa surpresa.


Get Smart (EUA, 2008). Comédia. Ação. Warner Bros.
Direção: Peter Segal
Elenco: Terence Stamp, Dwayne Johnson, Anne Hathaway e Steve Carell (Maxwell Smart)

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Ação, Comédia, Críticas