Animais Fantásticos | Dumbledore não será abertamente gay. Ok. Tudo bem.

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// 01/02/2018

Ontem, David Yates, o diretor de Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald (continuação de “E Onde Habitam“, de 2016) comentou publicamente que Dumbledore, um dos mais célebres personagens do universo Harry Potter, não será abertamente gay no novo filme da série. E o fandom surtou. E, digamos, sem lá tanta necessidade (ainda!).

Nos livros (assim como nos filmes), a sexualidade de Dumbledore nunca fora mencionada e a revelação sobre o fato de ele ter se apaixonado por Grindelwald (antes deste se tornar um dito vilão) na juventude só foi trazida em 2007 pela autora J.K. Rowling durante uma entrevista. Se por um lado uma parcela de fãs achou interessante, outra achou problemático nunca ter mencionado o fato durante a narrativa e apenas ter soltado a informação anos após concluir a história (como numa tentativa de chamar a atenção). Mas será mesmo? Será que isso não revela um peso desnecessário que ainda se é dado à sexualidade das pessoas na hora de traçarmos suas personalidades?


Nem sempre a sexualidade é um traço relevante na hora de se construir um personagem com tantas funções em uma trama, como Dumbledore.


Veja bem: após o final da história, Rowling publicou dezenas de subtramas e informações mais detalhadas sobre diversos outros personagens no site Pottermore; desde sonhos e escolhas da infância, até comportamentos, árvore genealógica, feitos e desfeitos. Dados muito mais modeladores de um personagem do que se o indivíduo gosta de se relacionar com alguém do sexo masculino ou feminino. Mas quantos desses dados foram polemizados porque eles não foram apresentados anteriormente no decorrer dos sete livros? Nenhum. E o motivo é incrivelmente simples: nenhum deles, assim como a sexualidade de Dumbledore, eram relevantes à história de Harry Potter. Nenhum tinha relação com elementos que a trama exigia daqueles personagens. Eles são, portanto, extras. Não importa se Dumbledore era um senhor que sentia atração física por homens ou mulheres, pois Fawkes ainda era sua fênix, a Varinha das Varinhas ainda tava no seu bolso, sua sabedoria ainda guiava Harry, sua administração ainda ordenava Hogwarts e seu poder ainda amedrontava Voldemort (que, garanto, não estava nem aí se Alvo beijava rapazes). Irrelevante.

E aí caímos num impasse curioso. Por que membros do grupo LGBTQ, que tanto clamamos para que nossa sexualidade não seja um fator delineador de nossa personalidade pela sociedade, nos importamos tanto se Dumbledore será (mais uma vez sublinho) abertamente gay em Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald? Vamos analisar a declaração do diretor? Vou marcar em negrito palavrinhas-chave para chamar atenção:

“O filme não mostrará sua sexualidade explicitamente, mas os fãs sabem sobre sua história com Grindelwald. Quando eles eram jovens, eles se conheceram e se apaixonaram pelas ideias um do outro, e também se apaixonaram um pelo outro. No filme, Dumbledore é um professor que inspira os alunos de Hogwarts e também um homem rebelde. Ele ainda não é o mago sábio que conhecemos. Ele tem um lado sombrio.”

Se pergunte: você, homossexual, sempre foi abertamente homossexual? Provavelmente, não. Você em algum momento foi algo diferente de homossexual? Hm, não. Então, se houvesse um filme contando a sua vida com os enquadramentos servindo como voz do narrador, com cenas explorando seus pensamentos, suas angústias, suas necessidades, seus desejos, você acha que quem assistisse saberia que você era homossexual, mesmo que os outros personagens (as pessoas que conviviam com você) não soubessem? Provavelmente, sim. Porque a linguagem e a narrativa do filme permitiriam que o espectador pescasse através de sutilezas esse seu traço – se assim o filme quisesse e se esse fosse o foco da trama.

Em Os Crimes de Grinelwald teremos o ressurgimento do vilão título do filme, ao contrário da rápida aparição no primeiro longa. Agora, Newt Scamander (Eddie Redmayne) precisará contar com a ajuda do jovem Dumbledore (Jude Law) para iniciar um plano de detenção contra Grindelwald (Johnny Embuste Depp). E esse é o plot principal. Em uma história cujo foco seja o embate do bem contra o mal em um universo fantástico, qual a relevância em explicitar a sexualidade de qualquer personagem? Zero. Seria legal? Porra, muito. Termos um dos magos mais importantes da cultura pop dentro do Vale dos Homossexuais numa superprodução para o grande público é uma representatividade que eu tô louco pra ver na tela. Mas, bem, como a própria J.K. Rowling disse hoje, esse é apenas o segundo de cinco filmes; os personagens ainda terão muito tempo para serem aprofundados. Esse, aliás, ainda não é o filme sobre Dumbledore, é apenas o filme em que a sua versão jovem será introduzida. O foco ainda é Newt Scamander.


Não ser abertamente gay não significa não ser gay. Não mostrar a sexualidade de alguém explicitamente não significa não mostrá-la.


O que não quer dizer, de maneira alguma, que isso será a anulação desse traço de Dumbledore. Como a fala de David Yates traz, sua sexualidade não será explícita (podemos entender, então, que será sutil), e o personagem ainda não é o homem sábio que conhecemos, com um lado sombrio; dois pontos importantíssimos para entendermos que ele pode, sim, ainda estar dentro de um armário muito mais enclausurador do que aquele que Harry passou longos 11 anos. A definição de “não ser abertamente gay”.

A confusão é entendível, mas é preciso ter cuidado. A notícia logo correu os sites de entretenimento, que explodiram a ideia de que Dumbledore não seria mais gay ou que a sua sexualidade seria oculta quando nada disso foi dito. Pelo contrário, se foi informado que a sua sexualidade não será explícita, é porque ela estará, sim, ali de alguma forma, porém sutil, que nada mais é do que a maneira mais acertada de desenhar na tela um homossexual que sempre foi bastante fechado para qualquer assunto de sua vida pessoal. Qualquer.

A representatividade é necessária, é desejada e tem enorme valor cultural e social. Mas ela nem sempre caberá na economia de um texto ainda em desenvolvimento. E, a tirar pela reclamação que a própria autora fez hoje no Twitter, parece que ela sabe o que está fazendo e cada coisa terá o seu tempo. Ainda teremos mais 3 filmes. Que tal gastar essa energia minando a presença de Johnny Depp Bate na Esposa na produção? Tava mais legal.

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