Animais Fantásticos | Por que fãs detestaram Gloss e Felipe Neto?

Aventura
// 21/06/2016
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Se voltássemos aos anos 2000 e déssemos uma breve olhada no buzz criado praticamente do zero em torno da série de livros Harry Potter, fomentando um público cativo no Brasil para a estreia nos cinemas de Pedra Filosofal (o primeiro da franquia), veríamos como uma campanha de marketing pode ser certeira. Não é por menos que durante alguns anos esse case serviu de exemplo para muito planejamento na área. Soa no mínimo estranho o aparente contraponto que vemos agora.

Em uma campanha global para divulgar Animais Fantásticos e Onde Habitam, primeira trama derivada do universo Harry Potter nos cinemas, a Warner Bros. selecionou dois “influenciadores culturais” de cada país para servirem como uma espécie de porta-voz promocional do longa. Por aqui, os escolhidos foram o youtuber e tuiteiro Felipe Neto e o blogueiro Hugo Gloss. No instante em que ambos foram anunciados, o público entrou em combustão espontânea.

A escolha, provavelmente feita pela Warner brasileira (ou por uma equipe a seu comando), acabou se revelando um tiro no pé. Pelo menos dentre os fãs. Ainda que tanto Felipe quanto Hugo sejam personalidades com enorme alcance nas redes sociais entre o público geral, nenhum dos dois está sequer perto de representar os seguidores da série Harry Potter (palavra dos próprios fãs). E antes que se diga que essa informação é restrita a quem acompanha o bruxo, devemos frisar que estamos falando de uma ação global executada pelo próprio estúdio, que conhece melhor do que ninguém o público de sua principal marca. Depois, um mero estudo inicial apontaria como Felipe Neto e Hugo Gloss talvez não fossem uma boa escolha para representarem esses papéis e a falha só demonstra uma aparente seleção feita a partir de números e alcance, sem qualquer cruzamento de público-alvo. Um erro bastante primário em uma campanha.

Felipe, apesar de ser fã declarado de Harry Potter, volta e meia se vê envolvido em situações polêmicas e troca de farpas com outras personalidades e, em seu passado não tão remoto, já foi autor de comentários preconceituosos e ofensivos, impactando um bom número de seguidores e leitores orgânicos. Mesmo diante de uma aparente mudança em seu posicionamento na internet, sua imagem ainda traz consigo uma bagagem que o público não irá despachar gratuitamente. O cenário, assim, fica confuso: observado o tipo de comportamento do youtuber no passado e feita uma rápida releitura dos valores de tolerância e diversidade muito abordados (alegoricamente ou não) em Harry Potter, qual teria sido o critério que elencou Felipe Neto para a campanha que não fosse seu apreço pela história? Afinal, o fandom da série é um dos poucos que tem uma relação íntima com o engajamento em prol de minorias, empatia e tolerância, participando de fato da conversa de cunho social proposta pela história.

Poderia até ser um caso de valorização do ponto favorável (o gosto pela série) em detrimento do inconveniente (o posicionamento anterior de Felipe Neto), não fosse Hugo Gloss ocupando o segundo posto, confirmando a falta de tato e pesquisa. O blogueiro não só já publicou um tuíte que demonstra não ter qualquer relação afetiva com a série, como ainda diminuiu os fãs (que nem esqueceram ou perdoaram). Para coroar, Hugo é uma das personalidades mais criticadas por públicos como o da série Harry Potter graças as suas incontáveis publicações em tom de fofoca que alfinetam e criticam os famosos por motivos triviais (o popular “close errado”), bem como ser declaradamente gay e, ainda assim, se isentar da problematização de questões importantes que ferem grupos LGBT. Não é à toa que alguns fãs já o compararam à personagem Rita Skeeter, a repórter sensacionalista e fofoqueira do mundo criado por J.K. Rowling.

 


 

O fandom da série é um dos poucos que tem uma relação íntima com o engajamento em prol de minorias, empatia e tolerância, participando de fato da conversa de cunho social proposta pela história

 


 

O caso poderia ser só uma união confusa de influenciadores digitais X público-alvo sem qualquer validação além do estranhamento em si, não fosse a resposta imediata nas redes sociais. Para se comparar, cada dupla de influenciadores dos demais países divulgada na conta oficial de Animais Fantásticos no Twitter recebeu replies de usuários locais achando as escolhas interessantes, surpreendentes ou pelo menos neutras. No Brasil, a eleição dos representantes feita pelo estúdio deu abertura a um sem-fim de comentários de repúdio e estranhamento, evidenciando o quão errônea é a decisão sem qualquer critério que leve em conta o público do próprio filme (que já evolui há mais de quinze anos). Nas páginas de sites e blogues voltados à série (como o Potterish, no print abaixo) ou a cinema em geral (como a nossa) a repercussão foi a mesma, assim como na página oficial principal (EUA) do filme no Facebook.

Para se ter uma ideia de como a repercussão não deve ter reverberado bem internamente, a página brasileira de Animais Fantásticos e Onde Habitam no Facebook foi a única que não publicou o álbum com os influenciadores culturais.

É admissível, sim, que a estratégia do estúdio seja a de não utilizar potterheads (como são chamados os fãs da série) para dar um enxerto à campanha de marketing do filme. Afinal, esse público já existe e são ingressos certos na estreia. O uso de figuras conhecidas em um contexto mais generalizador é um passo importante e previsto para potencializar a ação. Mas com uma internet tão plural como a brasileira, com tantas personalidades com um argumento próximo daquele que os filmes passam (Jout Jout é só um exemplo fácil e óbvio), teriam sido o Felipe Neto e Hugo Gloss as melhores (ou únicas) escolhas possíveis para conversar com a plateia?

ATUALIZADO: a página nacional de Animais Fantásticos e Onde Habitam já compartilhou a foto do Felipe Neto e as reações seguem bastante negativas.

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