ANIME-SE: Adulto vê desenho?

Animações
// 14/10/2008
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Antes exclusividade das crianças, as animações têm virado alvo da expectativa de um número cada vez maior de adultos. Se você passou dos 18 anos e ainda se empolga com animações, saiba que não é o único. E a que se deve isso? Cada um tem seu motivo para preferir ver na telona bichinhos ou robôs. Nesta coluna estão citados alguns.

Nos primórdios do cinema, animação era algo direcionado ao público infantil e, vez ou outra, rendia algum prêmio e conhecimento ao estúdio idealizador da ideia. Mas, entre as corridas por bilheteria ou disputas por boas críticas, o gênero vem se preocupando também em agradar aos mais velhos. Sim, adultos também estão indo ao cinema para assistir aos desenhos. Alguns, inclusive, aguardam muito mais a estréia de filmes cujos elencos sejam formados principalmente por bichinhos e outros seres falantes a obras clássicas, com atores consagrados. Essa flexibilidade do público é possível porque, notando um possível interesse dos adultos, as produtoras têm investido em chamar sua atenção constantemente.

O marco desta mudança, como já citado aqui nesta coluna, é sem dúvida a criação de O Rei Leão. O que faz desse título especial é um conjunto de fatores que foram seguidos e aprimorados de uma animação para as sucessoras. Outro ponto também já discutido aqui é o quanto as trilhas sonoras sofreram uma mudança notável. Uma certa modernização nas músicas foi determinante para que os mais velhos deixassem o preconceito de lado. Saem as mocinhas cantoras e seus lamentos apaixonados, entram em cena personagens mais alegres, que sabem usar sua voz para celebrar sua história. Um grande exemplo disso são os hits “Hakuna Matata” e “Eu quero mais é ser rei”, cantadas por Simba e amigos, sempre com muita cor e coreografias.

Outro elemento que parece ser essencial para explicar a presença desse público é a evolução dos personagens. Quando se pára para analisar os perfis dos protagonistas contemporâneos, é possível perceber mudanças significativas em relação aos mais tradicionais. Era mais comum que a história dos longas de animação se focasse nos dramas de príncipes e princesas, mocinhos e mocinhas. Além disso, havia uma bipolaridade que dividia os personagens em bons e maus. Era uma forma bastante simples e didática de passar uma moral, já que estava bastante claro que a bruxa era má e, portanto, responsável pelas coisas ruins. Não havia outra escolha senão torcer para que os bonzinhos conseguissem se sobrepor às artimanhas de quem adiava o inevitável final feliz.

Felizmente para quem prefere acompanhar aventuras mais complexas, essa fórmula, que por tanto tempo deu certo, se desgastou, obrigando os animadores a ousar um pouco mais na hora de montar seu elenco. Mais uma vez temos a imagem de O Rei Leão para comprovar a teoria de que arriscar em personagens novos seria o caminho para agradar tanto às crianças quanto aos seus pais e acompanhantes. Essa oportunidade foi uma das primeiras em que animais ganhariam vida interpretando papéis principais. A própria Disney já havia feito isso bem antes, em 1942, com Bambi, mas com uma narrativa infinitamente mais inocente e despretensiosa se comparada às atuais. Depois da trama envolvendo o pequeno leão e seu ambicioso tio Scar, abriu-se a possibilidade de inventar sempre mais, e finalmente, em 1995, a Pixar traz a público um produto totalmente novo. O estúdio, usando uma teoria bastante difundida entre as crianças, cria Toy Story, um mundo na visão de brinquedos que ganham vida assim que os humanos viram as costas. Dos mesmos criadores, surgiriam posteriormente Vida de Inseto, com direito a todo tipo de artrópode a que normalmente temos aversão; Monstros S.A., mais uma vez explorando o imaginário infantil, Procurando Nemo, a retratação rica da fauna e flora aquáticas; Carros, que trouxe uma nova versão de carros que falam e constituem uma sociedade própria e independente de humanos. Os ratinhos apareceram pela primeira vez em “Fivel: um conto americano”, um filme tocante, não importa quantos anos você tenha quando o assiste pela primeira vez. A DreamWorks colaborou com a criação de Shrek, um personagem nada ortodoxo, que veio satirizar tudo o que se conhecia em contos de fada até então. Além da imagem inovadora, o filme traz algumas piadas bastante adultas para se supor que o público pretendido pelo estúdio fossem as crianças. A mesma empresa lançou também Madagascar, responsável por uma grande polêmica simplesmente pelo fato de a girafa Nelman ter citado, em determinada altura, uma certa ‘balinha’. Para as crianças o que prevalece é o sentido denotativo, mas a discussão surgiu justamente pela ambigüidade de interpretação que o termo permitiu – é de conhecimento do universo adulto que ‘balinha’ na linguagem coloquial remete à droga ecstasy. Mais um grande exemplo da criatividade dos animadores é a animação em stop-motion A Fuga das Galinhas. O lado inventivo dos roteiristas extrapolou a tal ponto a realidade que eles se permitiram colocar dentes nos galináceos, fornecendo a eles um aspecto cômico.

Sem dúvidas esses fatores não seriam suficientes sem um amadurecimento dos roteiros das animações. As lições de moral continuam nos filmes, mas não daquela forma opositiva entre bem e mal absolutos. O que se observa é um mutualismo entre personagens, de forma a permitir que eles façam descobertas sobre si mesmos e sobre seu próprio caráter na tela, enquanto o público os acompanha. Em Carros, por exemplo, o astro de corridas Relâmpago McQueen aprende a importância de se dar um tempo para viver a vida e saborear pequenas coisas enquanto se pode, lição tirada pelo próprio diretor do filme enquanto fazia uma viagem. À mesma conclusão chega Oscar, o peixe rapper de O Espanta Tubarões, que sempre sonhou com a glória sem se dar conta de que tudo de que precisava estava o tempo todo com ele. Essas e outras mensagens são naturalmente repassadas ao espectador sem forçar uma situação de confrontação entre bons e ruins, expondo a quem está disposto a aprender que todos temos nossas fraquezas, mas que o tempo nos ensina a enxergar os valores que realmente importam. Esses personagens, como nós, não são perfeitos e também precisam passar por um processo de aprendizagem, muitas vezes através de dores, equívocos e sofrimento.

Seja por um motivo ou outro – pode-se dizer até que por todos –, os adultos têm descoberto a magia que ainda existe no cinema e se permitem deixar levar por protagonistas engraçadinhos. Por outro lado, o cinema tem se preocupado cada vez mais em atraí-los às animações sem ser necessariamente para acompanhar um filho, sobrinho ou primo até lá. Essa nova geração de amantes da animação tem aprendido a fantasiar tão bem quanto as crianças já fazem tão naturalmente.

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