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Animações
// 14/08/2008
toy-story

Fazendo uma reflexão sobre a realidade da animação no Brasil – ou a falta dela – , a coluna de hoje aborda os problemas desse setor no país, mas também lembra que os brasileiros não são tão deficientes assim nesse gênero cinematográfico. Leia e comente!

Que imagens nossa memória imediatamente irá resgatar ao som de palavras como Shrek ou Toy Story? Esse efeito é comparável ao de vocábulos como Cassiopéia ou Sinfonia Amazônica? Sem fazer uma pesquisa, duvido que muita gente saiba do que se tratam os dois últimos filmes. O que difere os dois grupos entre si é sua origem. Como você já deve supor pelo título que antecede o texto, as duas últimas animações foram feitos em território nacional, com equipamentos nacionais e, o mais importante, orçamento nacional.

Eu mesma confesso que, apesar de ser fã declarada de animações, desconheço a existência de muitos longas brasileiros de qualidade. Sem citar as produções dos Estúdios Mauricio de Souza, como o recente Uma Aventura no Tempo, tente se lembrar de um longa de animação produzido no Brasil. Muito difícil.

Ironicamente, Cassiopéia, desconhecido do grande público, é considerado por muitos o primeiro longa de animação totalmente digital. A controvérsia existe porque Toy Story, lançado em 1995 pela Disney em parceria com a Pixar, teve seus personagens principais primeiramente moldados em argila, e só então foram totalmente passados para o computador. O entrave é comparável à eterna briga entre Brasil e EUA para saber quem fez o primeiro vôo num avião: Santos Dumont ou os americanos Irmãos Wright. Além disso, na época em que Cassiopéia, do cineasta Clóvis Veira, estava já na metade da produção, a Pixar começou a colocar Toy Story em prática. Munidos de apenas computadores caseiros e um modesto orçamento de US$1 milhão, os produtores da animação brasileira demoraram pra finalizar o projeto, sendo ultrapassados em lançamento pela poderosa Disney e seus gastos de US$50 milhões, mais inúmeros profissionais especializados e equipamentos de última geração. Impossível competir.

cassiopeia

Porém, engana-se quem acha que o Brasil não dispõe de profissionais e de, agora sim, equipamentos bons e equivalentes aos poderosos do cinema. Um exemplo disso é o sucesso do brasileiro Carlos Saldanha. Àqueles que desconhecem o nome, eu o apresento. Saldanha foi co-diretor de A Era do Gelo e assumiu a direção das duas continuações seguintes, sendo muito bem reconhecido no exterior. Sem contar com o já mencionado estúdio do criador da Turma da Mônica, que na década de 80 se aventurou no campo das animações, criando vários clássicos como A Princesa e o Robô. Porém, diante de tantos abalos econômicos no país, como a presença da inflação e a insegurança do mercado financeiro, o estúdio passou por um grande hiato criativo nas animações e somente agora, no final da década de 90 e início dos anos 2000, se atreveu a continuar com seus projetos.

O problema é que aqui os poucos que se aventuram a entrar nesse ramo cinematográfico precisam derrotar muitos obstáculos. Raras são as instituições de ensino que oferecem alguma especialização na área, obrigando os animadores a serem autodidatas. Os bons profissionais teimosos acabam por escolher uma carreira no exterior, onde as condições para desenvolver esse trabalho são inegavelmente melhores. Os poucos que ficam terminam dedicando seu trabalho ao setor publicitário, que volta e meia traz em anúncios de TV personagens feitos em computação gráfica de alta qualidade. Mas fica nisso, pequenas vinhetas que não demandam tanto dinheiro.

O fato é que no Brasil as animações ainda são muito restritas. O país lamenta a saída de profissionais para o exterior e os altos gastos que um longa desse gênero exige. É de conhecimento geral que até mesmo os filmes mais baratos feitos em Hollywood são mais caros do que os nossos com orçamentos mais altos. Com uma animação, a realidade é ainda pior. Os valores que envolvem essas produções são absurdas e totalmente fora da realidade brasileira. Como competir, por exemplo, com Wall-E, em que foi gasta a bagatela de US$120 milhões? Some a tudo o que foi dito o tempo necessário para que um filme de animação saia da fase de esboços e chegue aos cinemas, que é em média de três anos, sem contar o período de roteiro do filme.

Apesar da retomada do cinema nacional, que já produziu longas que caíram no gosto do público, ainda está longe o dia em que poderemos curtir, ao menos uma vez por ano, uma animação brasileira. Não existem investimentos de nenhuma parte, seja na preparação de profissionais, seja incentivo financeiro. Mas ainda há esperança em pessoas que não desistem de se dedicar a esse trabalho, que ganha cada vez mais admiradores entre os cinéfilos. Resta nos conformarmos com o pouco que é feito aqui, torcermos para que outros Clóvis Vieira não desistam, apesar de tudo parecer contra, e nos orgulharmos de brasileiros como Saldanha que fazem sua história longe de nós, mostrando que criatividade, pelo menos, não nos falta.

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