ANIME-SE | Era uma Vez…

Animações
// 01/08/2008
branca-de-neve

Uma garotinha que, num belo e ensolarado dia, foi convidada para escrever uma coluna para um lindo blog de cinema… Tá bem, parou a palhaçada e minha tentativa de parafrasear os clássicos contos de fada. Melhor deixar isso pra quem entende. E quem entende disso? Além dos famosos escritores de histórias infantis, os roteiristas especializados na linguagem da animação. Aqueles seres fantásticos capazes de manter qualquer criancinha hiperativa sossegada numa poltrona de cinema por mais de duas horas.

Esta coluna, que será semanalmente postada às terças-feiras, é destinada a todos aqueles que se interessam por animações e todo o universo que faz parte de tantos “Era uma vez” e “Foram felizes para sempre”. Aliás, o público consumidor deste ramo do cinema cresce – em números e idade – a olhos vistos conforme os anos se passam, obrigando as produtoras de animações a se especializar cada vez mais em agradar crianças e adultos. Bom para nós que na infância adorávamos os clássicos Disney e hoje contamos também com estúdios como a Pixar, que se preocupam em atingir também aqueles que não são mais crianças.

Falando em clássicos, você sabe qual a origem de todas essas histórias e contos? Sabe qual era o real objetivo deles quando foram escritos pela primeira vez nos séculos passados? Muitos já ouviram falar ou já leram as versões de escritores como os Irmãos Grimm ou do dinamarquês Christian Andersen, mas eles não são os pioneiros. A grande contribuição desses nomes foi transformar histórias que já permeavam o folclore literário em contos para crianças.

Para citar um exemplo, a primeira versão de Chapeuzinho Vermelho de que se tem notícia é de Parrault. Mas, diferentemente da versão fofinha de final feliz que já está no inconsciente popular, a Chapeuzinho e sua Vovó não eram resgatadas pelo bravo Caçador e todos viveram felizes. A Chapeuzinho teria sido realmente comida pelo Lobo. Não, leitor, você não se enganou. O duplo sentido desta frase é totalmente válido e faz parte da verdadeira moral que se pretendia tirar na época em que o conto foi criado. A lição era a de que menininhas inocentes não deveriam sair por aí conversando com estranhos, pois elas poderiam ser seduzidas por eles e terminar muito mal. Isso sem mencionar todos os símbolos contidos nessas histórias. Não é à toa que o chapéu da garotinha era vermelho, não verde, por exemplo. Ele representava uma gama de significados, como a presença da sexualidade e da passagem da infância para a puberdade. Então, no início do século XIX, os irmãos Grimm saíram registrando essas narrativas e adaptando-as ao público infantil.

As mensagens contidas nesses clássicos mudaram, os valores já não são os mesmos, mas as animações continuam a ter seu valor, sim, na formação do caráter das crianças. Se hoje as mulheres já não precisam se conformar por serem desposadas por homens mais velhos e muito longe de se parecerem com príncipes encantados, assistindo a um filme como A Bela e a Fera a criança entende facilmente que não se deve julgar alguém apenas se baseando no seu exterior ou no que ela possui de material. Bem, eu pelo menos entendi a mensagem quando assisti ao longa pela primeira vez. Fora que cinema para crianças sem moral não é cinema pra crianças, certo?

E quem não conhece pelo menos uma dessas histórias? Ninguém sabe onde leu ou ouviu pela primeira vez, mas elas estão lá, no nosso inconsciente, internalizadas de alguma forma que não se sabe como. Felizmente os velhos e bons clássicos evoluíram para acompanhar a racionalidade infantil que se desenvolve cada vez mais rápido (incrível como aos 5 anos algumas crianças já entendem tudo de computador!). Bom pra todo mundo que admira animações, mas hoje já não agüentaria um personagem raso que fica cantarolando boa parte do filme e soltando clichês a cada 15 minutos de história.

A era da tecnologia atingiu também os clássicos infantis, deixando o perfil das animações cada vez mais adulto, recriando cenários e personagens cada vez mais complexos, sem subestimar a inteligência dos pequenos ou entediar os adultos que são obrigados a acompanhá-los ao cinema. Tudo isso sem deixar de ter a essência que a animação precisa ou ficar tão perfeito que se confunda com o mundo real.

Não! Que a realidade fique do lado de fora da sala. As animações precisam manter seu caráter lúdico que conquista uma platéia cada vez mais heterogênia e apaixonada por monstrinhos, insetos, robôs, peixes e heróis. Que sejam romanticamente sombrias como “A Noiva Cadáver”, emocionantes como “Wal-E”, debochadas como “Shrek” ou divertidas como “Monstros S.A.”. O mundo real precisa sempre estar em contato com o faz-de-conta para não atrofiar sua imaginação.

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