As Várias Faces do Lanterna Verde

As Várias Faces do Lanterna Verde
por Rafael Rodrigues

Com a produção que adapta as histórias em quadrinhos do Lanterna Verde para as telas próxima de estrear, nada mais justo do que escrever um pouco sobre as complexidades e características de um personagem que figura ao lado de Superman, Batman, Capitão América e Mulher Maravilha entre os mais antigos do gênero de super-herois. Quem não lê quadrinhos pode não saber, mas Lanterna Verde já teve mais de uma versão, foi repaginado, andou de furgão pelos EUA para conhecer os problemas da América, foi substituído, traído, virou vilão, morreu, virou espírito da vingança, ressuscitou e mais recentemente enfrentou até mortos vivos. Conheça um pouco mais dessa longa e alucinante trajetória.

O Original

Lanterna Verde surgiu pela primeira vez em 1940, na aurora da primeira era de super-heróis, na revista All-American Comics, lançada pela All-American Publications (que, junto com a National Periodics e a National Comics, se tornaria mais tarde a hoje conhecida dos fãs DC Comics). Criado pelo roteirista Bill Finger (que também produzia, junto com Bob Kane, as histórias do Batman) e pelo artista Martin Nodell, a história estava centrada em Alan Scott, um engenheiro que trabalhava em uma estação de trem, quando durante um acidente ferroviário causado por sabotagem, sobreviveu por conta de uma lanterna (na verdade, uma espécie de farol) verde achada no trem. Talvez por sugestão subliminar da própria lanterna, Alan confeccionou para si, a partir de uma peça da lanterna, um anel que lhe permitiu fazer coisas incríveis. Diferente de sua futura e mais famosa contraparte, o anel podia fazer coisas inimagináveis, como passar através de objetos sólidos, paralisar ou cegar temporariamente, ler mentes e, em uma história ele pôde inclusive manipular o tempo, além é claro, dos poderes mais “comuns”, como o vôo, a criação de objetos sólidos e de um campo de força protetor para si e para outros. O poder do anel não tinha limites, exceto por duas vulnerabilidades: precisava ser recarregado na bateria (a lanterna) a cada 24 horas e não afetava nada que fosse de madeira ou produzido a partir de plantas.

O personagem fez muito sucesso, participando, além da revista na qual estreou, na Comics Cavalcade (que também contava com a Mulher Maravilha e Flash) e All-Star Comics como membro da primeira equipe de super-heróis que surgiu, a Sociedade da Justiça da América. Mas assim como a grande maioria dos super-heróis da época, Lanterna Verde teve, nos anos 50, sua revista cancelada devido à baixa popularidade dos quadrinhos pós-Segunda Guerra, além da pressão exercida pelo governo americano com a instituição do Comics Code Authority¹, que impôs uma verdadeira ditadura que condenou muitos artistas e personagens, sepultando sua inovação e criatividade e quase pôs fim às histórias em quadrinhos do gênero. No entanto, Alan Scott retornou muito tempo depois às histórias da DC e assim continua até hoje, como membro da reativada Sociedade da Justiça (que hoje conta com alguns membros originais e vários filhos, netos e pupilos de outros membros já falecidos ou aposentados).

O Rosto Mais Conhecido

O fim dos anos 50 e o início dos anos 60 viram um renascimento dos super-heróis. Tudo isso se deve em grande parte ao Flash, que foi repaginado e relançado como outro personagem, com nova origem e nova identidade. Após ele seguiu-se uma série de personagens ressurgindo sob novas roupagens e um deles foi o Lanterna Verde, que surgiu em 1959 na revista Showcase (a mesma que 3 anos antes trouxera a nova versão do Flash) e agora era Hal Jordan, piloto de testes da força aérea que encontrou um alienígena moribundo, Abin Sur, que entregou a ele um anel de poder para que pudesse substituí-lo como membro da Tropa dos Lanternas Verdes, uma organização intergaláctica que promove a segurança e a paz através do cosmos (algo como policiais interplanetários, sendo que o anel é a principal arma de combate). Agora o Lanterna Verde não estava sozinho; era apenas um de milhares de seres pelo universo escolhidos a dedo (trocadilho não intencional) para patrulharem setores estelares a fim de proteger e promover a ordem. Os chefões dos Lanternas Verdes são os Guardiões do Universo, anões anciãos de pele azul e manto vermelho que são, aparentemente, as criaturas inteligentes mais antigas do universo. Como vocês podem ver, muitas mudanças em relação ao Lanterna Verde original ocorreram, principalmente quanto ao foco, mais voltado para a ficção científica (bastante popular na época) e uma maior abrangência do universo do personagem. Mas algumas coisas além do nome se mantiveram, como a recarga dos anéis a cada 24 horas e sua vulnerabilidade (embora a vulnerabilidade à madeira tenha sido substituída pela cor amarela).

Esta se tornou a versão mais lembrada do herói, pois foi também a que durou mais tempo. Ganhou uma revista própria e logo se tornou membro da Liga da Justiça (uma versão repaginada da Sociedade da Justiça). As histórias do Lanterna Verde acabaram eventualmente se cruzando com outros heróis e até com a história do universo DC como um todo. Entre eles é importante citar um dos momentos mais lembrados e inesquecíveis das histórias em quadrinhos: Nos anos 70, alguns autores queriam desafiar o Comics Code (que limitara a forma de fazer quadrinhos, proibindo uma série de elementos de serem abordados nas histórias), e um deles, Dennis O’Neil, o fez de forma impactante, transformando a revista do Lanterna Verde para incluir seu colega de equipe, Arqueiro Verde. Nesta série de histórias, o Arqueiro desafia Hal Jordan a cruzar com ele os EUA, sem vôo, para conhecer os verdadeiros problemas da América. Com isso o autor pôde mostrar diversos aspectos de relevância social nas histórias, como nunca se tinha feito antes nos quadrinhos (não nessa magnitude, pelo menos), fazendo os heróis encontrarem problemas bem humanos, como racismo, violência, abuso, tráfico de drogas, entre outros (foi inclusive nesta época que descobrimos que Ricardito, o parceiro mirim do Arqueiro Verde, havia se tornado um viciado em drogas. E não, esta revelação não foi coisa de apenas uma história; é uma parte da história do personagem que permanece até hoje).

Outra relevância para o universo DC veio mais tarde, nos anos 80, quando diversos elementos da mitologia dos lanternas verdes foram expandidas e levaram eventualmente à megassaga Crise Nas Infinitas Terras, que foi um profundo divisor de águas na história dos super-heróis DC.

Os Substitutos


Mas Hal Jordan não foi o único terrestre a ser escolhido para portar o anel. Quando o mesmo, após sua viagem pela América com o Arqueiro Verde e passando por uma conturbada relação com sua amada Carol Ferris (que era também a vilã conhecida como Safira Estrela), decide abandonar a Tropa dos Lanternas Verdes, um novo personagem foi escolhido para ocupar seu lugar: Guy Gardner. Gardner havia sido escolhido junto com Hal Jordan para portar o anel na época da morte de Abin Sur, mas o anel acabou optando por Hal por conta, segundo se sabe, da proximidade geográfica (fato que Guy custou a deixar para trás). No entanto, na mesma época, Gardner fora atingido por um ônibus enquanto tentava salvar alguns estudantes durante um terremoto. Por conta do tempo em que Gardner passou no hospital, os Guardiões escolheram ex-fuzileiro naval e posteriormente arquiteto John Stewart para substituir Hal Jordan. John manteve-se como Lanterna mesmo após o retorno de Hal, e logo Gardner também se juntaria à eles, apenas para, num bizarro acidente durante uma missão acabar em coma e se mantendo assim por vários anos (até acordar durante os eventos da saga Crise Nas Infinitas Terras com uma personalidade totalmente diferente – e bem mais detestável). Anos depois, histórias tiraram John Stewart do posto de Lanterna verde quando ele ficou paralítico e Guy Gardner fora expulso da Tropa por conta de sua atitude (tornando-se eventualmente outro super-herói chamado Warrior – acreditem, é melhor não saber muitos detalhes sobre isso), mas os dois acabaram eventualmente sendo reincorporados à Tropa (e Stewart recuperou o movimento das pernas), onde continuam valorosos membros até hoje.

John Stewart e Guy Gardner, apesar de rostos familiares aos fãs de quadrinhos, nunca foram conhecidos do grande público até recentemente, principalmente no caso de John Stewart, que foi o Lanterna Verde escolhido para protagonizar o desenho Liga da Justiça/Liga da Justiça Sem Limites (Guy Gardner ficou conhecido por protagonizar diversos episódios do desenho Batman – Os Bravos e Destemidos).

O Novato

Hal Jordan passou por muitas coisas. Quando, nos anos 90, Superman foi morto pelo monstro chamado Apocalypse, muita coisa se sucedeu, inclusive seu (obviamente) subseqüente retorno ao mundo dos vivos e a completa destruição de Coast City, cidade natal de Hal Jordan, que fora transformada em cinzas para dar lugar à Cidade-Motor do vilão conhecido como Mogul. Este evento gerou cicatrizes emocionais profundas em Hal Jordan, que fizeram alimentar cada vez mais um desejo de poder reverter a situação, trazendo a cidade de Coast City e todos os seus habitantes de volta. Isso levou Jordan a um vertiginoso declínio, que o colocou contra a tropa dos Lanternas Verdes, os guardiões e até contra seus próprios colegas super-herois, passando assim a ser chamado de Parallax. Ao fim desta transformação de Jordan de herói para “vilão” a Tropa dos Lanternas Verdes não existia mais e apenas um guardião da tropa restara. Este último Guardião usou suas forças para ir até a terra e entregar o único anel que restara a um jovem desenhista e designer chamado Kyle Rayner. Como um jovem inexperiente que não possuía o apoio de uma tropa organizada para treiná-lo e vivendo à sombra do mito de Hal Jordan (que era sempre descrito como “o melhor de todos os Lanternas Verdes”), Kyle teve muitas dificuldades para figurar como um valoroso Lanterna Verde. Tinha, no entanto, uma vantagem em relação aos Lanternas Verdes anteriores: seu anel estava livre da impureza que acarretava na vulnerabilidade à cor amarela; em outras palavras, o anel que Kyle Rayner possuía não tinha limitações. Chegou inclusive a ser parte da Liga da Justiça, numa formação que contava com os principais (Superman, Batman, Mulher Maravilha, Caçador de Marte, Aquaman e Flash), o que o intimidava bastante. Mas, após muitas tragédias, a tentativa de criar uma nova Tropa dos Lanternas Verdes e as diversas batalhas contra Parallax (Hal Jordan), Kyle Rayner finalmente se estabeleceu como um Lanterna Verde respeitado (apenas para “perder o posto” de volta para Hal Jordan, mas este assunto virá mais adiante neste artigo).

Hal Jordan presente em espírito

Sendo um dos heróis mais populares para os leitores da DC, era esperado que os fãs não deixariam Hal Jordan permanecer como vilão. Por conta da pressão dos leitores, a DC decidiu “redimir” Hal Jordan, fazendo-o se sacrificar pela humanidade quando o planeta ficou quase sem sol, à mercê de uma criatura chamada “Devorador de Sóis”. Antes disso, no entanto, ele operou alguns “milagres”, como a ressurreição do seu amigo Arqueiro Verde (só revelada anos depois na minissérie que o trouxe de volta). Isto fez como que Jordan voltasse a ser lembrado como um herói (apenas Batman ainda não “admitia” que ele tivesse se redimido) e de certa forma “calasse” um pouco os fãs. Mas os leitores ainda não estavam satisfeitos e queriam Hal Jordan de volta de alguma forma. Como já fazia um bom tempo que Kyle Rayner era Lanterna Verde e já estava bem estabelecido no universo DC, a editora decidiu então manter Hal Jordan por aí, mas de uma forma diferente. Por conta disso, seu espírito passou a ser o novo hospedeiro do Espectro, herói sobrenatural da editora cujo hospedeiro anterior era (desde sua origem, nos anos 40) o policial Jim Corrigan. Hal Jordan passou então a ser o Espírito da Vingança e a ocasionalmente ajudar os heróis quando seus caminhos se cruzavam eventualmente.

Uma nova mitologia


Quando, em 2004, o roteirista Geoff Johns foi incumbido da missão de trazer Hal Jordan de volta à vida, ele fez muito mais que isso: trouxe a dignidade do personagem de volta e, de quebra, instituiu mudanças que acarretaram numa nova roupagem para a mitologia dos personagens. Em Lanterna Verde: Renascimento, descobrimos que a energia verde dos anéis é na verdade a força de vontade de todos os seres do universo convertido em energia, e a impureza que acarretava a vulnerabilidade ao amarelo era uma entidade chamada Parallax, que era a personificação do medo, e que havia possuído Hal Jordan para que ele se tornasse vilão. Assim, todos os crimes que Jordan cometeu foram “absolvidos”, ele acabou tendo sua alma dissociada do Espectro e do Parallax, voltando para seu corpo físico e tornando-se, novamente, o Lanterna Verde. Além disso, a história trouxe as sementes do que seria a atual mitologia dos Lanternas, que inclui novas tropas de cores diferentes (que representam também diferentes emoções) e culminou mais recentemente na megassaga A Noite Mais Densa, onde os Lanternas Verdes e os heróis da DC enfrentam seus colegas mortos.

O que esperar do filme?


A primeiro longa metragem live-action do Lanterna Verde (sendo que já foi lançado um em animação chamado “Primeiro Vôo”) vem com uma grande responsabilidade: Estabelecer entre o público não leitor de quadrinhos um personagem não tão conhecido quanto Superman e Batman e alcançar sucesso comercial suficiente para tirar da Warner o estigma de que eles só conseguem fazer o Homem Morcego dar certo nos cinemas. É uma tarefa difícil, mas não impossível. Pelo que se pode ver até agora, a história geral será bastante fiel aos quadrinhos, pegando a origem clássica do herói da Era de Prata, mas baseando-se principalmente na origem repaginada escrita por Geoff Johns. Chamada “Origem Secreta”, a história reconta como Hal Jordan se tornou Lanterna Verde de forma mais atualizada, com retcons (inserção de elementos novos no passado dos personagens) que trazem maiores ligações com a mitologia atual do herói. Além disso, o que foi visto até agora dos outros lanternas e de OA, em termos de efeitos pareceram realmente interessantes. Esse é o lado bom.

O lado ruim é que, na tentativa de conseguir o mesmo feito que a Marvel Studios tem conquistado com seus filmes, a Warner está disposta a tornar o Lanterna Verde o “Homem de Ferro” da DC. Explico: Em uma época em que o super-heroi mais popular nos cinemas (não coloco o Batman dentro dessa lista, pois ele não chega a ser “super”) é um alcoólatra mulherengo e narcisista, fica difícil emplacar qualquer herói da DC, por conta de a grande maioria deles terem personalidades muito “certinhas” (vale lembrar que foi a DC quem “criou” os super-heróis e os definiu assim; a Marvel os “destruiu” tornando-os tão humanos quanto os seus leitores). O Lanterna Verde é um dos poucos que, com as repaginadas recentes, passa a ser mais “humano” e cheio de defeitos, tornando-se o candidato ideal para bater de frente com o (s) longa (s) protagonizado (s) por Robert Downey Jr. Infelizmente, ao ver o trailer, a impressão que eu tive é que ela pretende forçar as “imperfeições” do herói aliando ao humor e às “tiradinhas cômicas”, fazendo o possível para agradar, não aos fãs de quadrinhos, mas os fãs dos filmes do Homem de Ferro. Não que os longas da Marvel sejam ruins, muito pelo contrário; o problema é justamente que a Warner parece estar fazendo o que sempre fez (e que nunca deu certo): copiar uma fórmula usada para um herói, na esperança que dê certo com este sendo que, na minha humilde opinião, cada herói é tão particular que é quase impossível repetir uma fórmula com outro herói, seja da mesma editora ou não. Ou seja, Os Batman do Nolan são mais sombrios, mas nunca dariam certo com um Homem de Ferro, que se tornou mais leve e “imperfeito”; Os X-men de Bryan Synger se tornaram uma ficção científica, e por aí vai. Da mesma forma, todos os outros heróis precisam encontrar suas próprias fórmulas para funcionar no cinema.

No fim das contas, correndo o risco de me repetir, o negócio é esperar e pagar (literalmente) para ver. Espero que minhas preocupações sejam infundadas, afinal quem está supervisionando a produção de perto é Geoff Johns, o homem que tornou o personagem popular novamente nos quadrinhos, então pelo menos ainda há esperança de que apenas o trailer que saiu tenha sido editado para parecer “Iron Man style” e que o filme em si caminhe com suas próprias pernas.

1. Se você quiser saber mais sobre esse período negro da história das hqs, leia uma série de matérias sobre o tema aqui, aqui e aqui.