Capitão América: E Agora, José?

Agora que Homem de Ferro 2 atingiu os cinemas, aprofundando-se ainda mais na mitologia do universo Marvel nas telas, com referências ao Capitão América, Hulk e Thor, fica cada vez mais próximo o momento de juntar tudo isso no filme dos Vingadores, provavelmente o filme mais esperado dos fãs da Marvel (embora o filme mais esperado da Marvel para mim seja Thor). O que algumas pessoas não param para pensar, no entanto, é que essa iniciativa é tão ousada que necessita não só de uma sincronia gigantesca entre os produtores, diretores, roteiristas e atores dos filmes, mas também depende do sucesso destes filmes. Pensem comigo: Se Thor, por exemplo, for um fracasso retumbante de bilheteria (embora eu torça que não)? E se o Capitão América falhar? Um fracasso significativo pode pôr tudo a perder num piscar de olhos, comprometer um planejamento de anos e sepultar de vez o longa dos Vingadores. Como a Warner sempre preferiu ver primeiro se uma coisa dá certo com os outros para depois copiar, por conseguinte uma possível ideia de filme da Liga da Justiça seria totalmente sepultada, e por aí vai. A bola de neve só cresceria e talvez isso até poderia ser responsável pelo fim do caso de amor tórrido que os quadrinhos e o cinema vivem atualmente.

Exagerado? Talvez. Mas vale lembrar que Superman 4, de 1984, foi um fracasso e afundou todas as franquias de super-herói, que só se recuperaram com o Batman de Tim Burton, em 1989. E que Batman & Robin não só afundou a franquia do Homem Morcego, como também a denegriu em diversos níveis. Considerando o escopo dessa nova iniciativa da Marvel, e partindo do princípio matemático da progressão geométrica, a tendência é escalar. Ou, em outras palavras, quanto maior a o tamanho, maior a queda.

O que nos leva ao vindouro filme Captain America: First Avenger. Como o próprio nome sugere, a produção deve mostrar mais do que apenas a origem do herói, sendo também uma espécie de prólogo para o filme dos Vingadores – que sairá apenas um ano depois e que complica um pouco as coisas, trazendo a uma película difícil de ser realizada mais uma série de outros obstáculos a serem enfrentados.

Capitão América é um personagem difícil de ser adaptado para as telas, por vários motivos. Primeiro, diferente de personagens como Superman (que, embora as pessoas enxerguem como um personagem patriota, nunca o foi – pelo menos não originalmente), Capitão América foi criado exclusivamente como um personagem patriota. O conceito por trás dele reflete um idealismo amplamente político, resultado das convicções dos seus autores. Não é a toa que o personagem até hoje ostenta em seu tórax a bandeira americana. E esse é o primeiro problema: Como pode um super-herói abertamente americano ser aceito de forma global, em uma época onde o antiamericanismo (apesar de já ter sido pior na era Bush) ainda está em alta? Não é uma tarefa fácil, principalmente considerando que os elementos que formam o personagem e fazem parte da sua gênese não podem ser desvinculados da Segunda Guerra e da participação americana na mesma.

E a Segunda Guerra é outro problema. Geralmente filmes de guerra são destinados a um público mais maduro, mais exigente e acostumado a produções que não envolvem realismo fantástico. No entanto, é fato que o maior público de cinema (principalmente dos filmes baseados em histórias em quadrinhos de super-herói) são adolescentes, que geralmente não se importam com profundidade da história, preferindo cenas de ação e “alta octanagem” (o que quer que isso signifique, vi num cartaz de filme de ação). Será que um filme passado na Segunda Guerra (já que essa é a origem oficial do Capitão, então no mínimo boa parte do filme deverá se passar nessa época) pode dar certo dentro do gênero de super-herói? Ainda não sabemos.

Mas a gênese do personagem e sua ambientação talvez não sejam os principais problemas, e sim a própria produção da película. Inicialmente com roteiro de David Self (um roteirista irregular que tem no currículo ótimos filmes como Estrada para Perdição e 13 dias que abalaram o mundo e também coisas terríveis como o recente O Lobisomen), o filme passou por diversas revisões e mudanças ao longo dos anos com outros roteiristas, e ficou nas mãos do diretor Joe Johnston (de filmes como Querida, encolhi as crianças, Rocketeer – esse eu recomendo –, Jumanji, Jurassic Park 3 e também O Lobisomen). Este talvez seja o filme mais difícil para Johnston, dada a sua cinegrafia, e a responsabilidade e pressão relacionados a essa produção talvez sejam grandes demais para um diretor tão irregular como ele. Além disso, recentemente foi confirmado o nome de Chris Evans (do recém lançado The Losers, também uma adaptação de quadrinhos) para interpretar ninguém menos que o próprio Capitão América. Uma decisão que tem sido muito criticada pelos fãs, pois segundo eles o ator – mais conhecido por suas caras e bocas em filmes engraçadinhos – não teria nem capacidade interpretativa nem um visual imponente o suficiente para convencer como Capitão América. Para muitos isso seria um problema, pois além de prejudicar o desempenho do filme solo do Capitão, também prejudicaria os Vingadores. Como alguém como Chris Evans poderá liderar gente do calibre de Robert Downey Jr. e Chris Hemsworth?

Para quem não sabe, originalmente os Vingadores surgiram quando precisaram se unir para enfrentar Loki, que havia enganado Hulk e levado a monstro a uma onda de destruição. Essa formação original contou com Homem de Ferro, Thor, Hulk e o casal Homem Formiga e Vespa. Apenas na quarta edição da revista dos Vingadores é que Capitão América (re) surgiu, derivado da batalha entre a equipe e Namor, o príncipe submarino, sendo encontrado congelado e em animação suspensa desde o fim da Segunda Guerra. Só a partir daí ele se tornou o líder honorário dos Vingadores, sendo um dos personagens mais tradicionais e importantes da superequipe e da Marvel.

E é justamente essa importância que a Marvel sempre deu para o personagem dentro do seu universo que traz o peso da responsabilidade para a produção de Captain America: First Avenger. Além de ser a película que precederá o filme dos Vingadores, também tem a grande responsabilidade de ligar todos os outros filmes, que bem ou mal fazem referência ao personagem (Nick Fury, o escudo do Capitão, a Shield e o soro do supersoldado foram alguns dos elementos do Capitão América incluídos em filmes como Homem de Ferro 1 e 2 e O Incrível Hulk), de forma coesa, sem diminuir nem destruir o trabalho previamente desenvolvido por outros diretores como Jon Favreau e Kenneth Branagh.

Dessa forma, a pressão que recai sobre o filme é muito maior do que de qualquer outro dos filmes da Marvel, pois ele tem de carregar todos os outros e levá-los em direção ao filme dos Vingadores. Talvez isso seja pressão demais sobre um personagem só, e principalmente numa produção tão arriscada e com colaboradores talvez não tão competentes, não sabemos se isso vai dar certo nem se isso vai ser responsável por destruir o filme dos Vingadores. Mas talvez as coisas não sejam tão complexas assim. Vale lembrar que O Incrível Hulk não obteve a bilheteria esperada, mas, embora isso tenha sepultado as chances de uma continuação para o monstro, não prejudicou os planos de um filme dos Vingadores, que seguiu de vento em polpa e agora se mostra uma realidade crescente desde que Homem de Ferro 2 estreou. A produção do filme em si também não é de todo desanimadora: Hugo Weaving (Matrix, Senhor dos Anéis, V de Vingança) foi recentemente confirmado como sendo o vilão Caveira Vermelha, então pelo menos podemos esperar um vilão muito bem interpretado. Só podemos esperar e torcer para que os envolvidos façam um bom trabalho. Ao menos o saldo até agora tem sido positivo, considerando os recentes filmes da Marvel Studios.

Em tempo: Capitão América foi publicado pela primeira vez em março de 1941, mas os EUA só entrariam na Segunda Guerra em novembro daquele ano, quando o Japão atacaria a base americana em Pearl Harbor.

Se você quiser saber mais sobre a trajetória do Capitão América nos quadrinhos, leia a série de matérias que eu fiz sobre o personagem (Parte1, Parte 2, Parte 3 e Parte 4).