Concorrência é a Alma do Negócio

Concorrência é a Alma do Negócio
por Rafael Rodrigues

Concorrência, no mundo capitalista de hoje, é sempre um fator positivo para o consumidor. Não importa se essa concorrência acontece no transporte coletivo, na alimentação, nos filmes ou nos canais de TV que assistimos, o fato é que quanto maior a concorrência, maior o esforço das empresas em manter seu público e conquistar novos, o que traz uma série de incentivos, como valores reduzidos, melhoria na qualidade, maior abrangência, maior investimento, entre outros. No fim das contas, quem ganha é o consumidor.

Recentemente, foi anunciada a compra da Marvel Entertainment pela Walt Disney Company, o que movimentou o mundo dos negócios, do entretenimento e dos nerds durante um bom tempo. Isso foi extensamente comentado no artigo anterior onde, inclusive, comentei sobre o papel da Time-Warner nisso tudo. “Coincidentemente”, um dia depois do anúncio oficial dessa compra, a Warner anunciou Guy Ritchie como diretor do filme do Lobo, personagem bastante complicado de se adaptar para as telas, num claro movimento para tentar apaziguar os fãs e mostrar aos investidores que ainda está no jogo.

Agora a DC Comics, principal rival da Marvel e parte do grupo Time-Warner, anuncia uma reestruturação em suas estratégias, que podem mudar as coisas – para melhor. Para você entenderem o que isso quer dizer, é importante ressaltar que a DC Comics sempre foi deixada “à margem” das outras empresas do grupo, tanto é que sempre teve autonomia para fazer o que quisesse. Os motivos para essa “marginalização” da DC Comics nunca foram explicados, mas pessoalmente acredito que a Warner nunca levou em consideração o potencial comercial da DC Comics, mesmo contendo duas das maiores marcas do planeta (Superman e Batman). De qualquer maneira a DC, antes relegada à condição de “mais uma” empresa do Grupo Time-Warner, vai ter sua posição alterada, e muito. E isso possivelmente afetará não só o mundo dos negócios lá nos EUA, como também o consumidor final, o leitor de quadrinhos.

Diane Nelson

Diane Nelson

Segundo comunicado da própria DC, a DC Comics agora é DC Entertainment, mas a mudança não está só no nome; os quadrinhos terão importância fundamental nessa “nova” empresa, sendo o centro de tudo o que estiver ligado à eles (filmes, séries, animações, games, brinquedos, etc). Isso fará com que a Warner tenha muito mais controle sobre a DC coisa que nunca teve antes. O presidente da DC, Paul Levitz, deixa o cargo e volta a ser roteirista e editor de grupo da DC, dando lugar à Diane Nelson.

Se vocês se interessam por quadrinhos, filmes baseados em quadrinhos e Harry Potter, vocês já ouviram falar dela. Diane Nelson era o grande nome por trás da Warner Premiere, divisão da Warner responsável por lançar as animações direto-para-DVD baseados nos personagens da DC Comics. Além disso, ela foi o grande contato responsável pelo relacionamento da Warner com J.K. Rowling (reciso mesmo dizer quem ela é?), e de acordo com os grandões da Warner, grande parte do sucesso das produções cinematográficas e produtos licenciados do bruxo são, basicamente, mérito dela.

Mas isso vai fazer alguma diferença para o leitor? Provavelmente sim, principalmente se levarmos em consideração uma estrutura semelhante que deu muito certo: A Marvel Entertainment. Desde que a Marvel se estruturou para potencializar o uso de seus personagens em outras mídias, os resultados tem sido bastante satisfatórios, seja na TV (O Espetacular Homem-Aranha, considerado o melhor desenho do Homem Aranha até agora – e talvez de um personagem da Marvel), no cinema (Homem de Ferro) e nos Games (o vrecém-lançado Marvel Ultimate Alliance 2). Essa organização permitiu uma otimização no uso dos personagens que, imagino tenha sido um fator determinante na decisão da Walt Disney Company de assimilar a empresa. A decisão da Warner de unir o útil ao agradável e desenvolver uma estrutura semelhante provavelmente terá um saldo positivo, uma vez que mostra a preocupação da Warner com o avanço da Marvel (lembrem que eu falei no começo do artigo: concorrência é sempre algo bom para o consumidor) e o fato de finalmente terem entendido o que eles estavam desperdiçando.

Muita gente provavelmente deve estar se perguntando, porém: Por que a Warner já não fez isso antes? Eles são burros? Provavelmente, mas essa não é exatamente a questão.

Em toda a indústria do entretenimento, o potencial dos personagens de quadrinhos sempre foi subestimado, em grande parte porque personagens de quadrinhos possuem características únicas que não vão ser encontradas em personagens criados em livros, filmes ou games. É preciso entender essas características para que se consiga extrair a “essência” da obra ou do personagem. Isso gerou uma série de adaptações pífias baseadas em personagens de quadrinhos, seja no cinema, TV, games ou outros, que “denegriram” a imagem dos personagens de HQ, que acabaram sendo considerados pelos executivos como “azarões”. Tanto é que demorou 30 anos para termos filmes baseados em personagens em quadrinhos no mesmo nível do Superman de Richard Donner, e quase 50 anos para se ter desenhos animados com a qualidade dos desenhos do Superman pelos Irmãos Fleischer. Mas a Marvel, que aparentemente gosta muito do que faz, sempre tentou “forçar” seus personagens em outras mídias, tentando sempre fazer do jeito que este que vos escreve sempre considerou mais adequado: Se valer das mesmas “fórmulas” de sucesso que tinham nos quadrinhos. E funcionou. Com a Marvel Entertainment, eles conseguiram conquistar seu espaço no mercado do entretenimento na raça e o esforço valeu a pena, pois os executivos e investidores passaram a ver o verdadeiro potencial dos quadrinhos, o que nos leva à aquisição da Marvel pela Disney, que nunca se “preocupou” com quadrinhos antes (tanto que seus personagens clássicos, Mickey, Donald, etc, não tem “casa própria” nos EUA – uma editora fixa que os publique. Até porque, curiosamente lá as HQs dos personagens Disney não vendem muito) e agora simplesmente se tornou dona de uma das maiores – se não maior – editora de quadrinhos do mundo.

É claro que esse comunicado da DC vem em hora oportuna: afinal, para acalmar os investidores, a Warner precisava mostrar as cartas e dizer que não estava blefando, que tinha planos de ação para encarar esse monstro da concorrência. Por isso volto a dizer: Concorrência é algo que só pode ser visto com bons olhos pelo consumidor. Graças à ela, temos a Pixar lado a lado com a Marvel, e a Warner finalmente dando valor para a DC Comics. A agora DC Entertainment, por sua vez, já está se movimentando em seus projetos, bastante promissores: As animações Superman/Batman: Inimigos Públicos (recém lançada em DVD), a animação baseada em Crise Nas Múltiplas Terras, o primeiro grande “crossover” da DC e precursor da Crise nas Infinitas Terras, as séries Human Target e Midnight Mass, baseados em personagens da DC/Vertigo (linha adulta da editora), o desenho animado Batman: The Brave and the Bold, o recém lançado (e já aclamado) game Batman: Arkham Asylum, e as produções cinematográficas Os Perdedores, Jonah Hex, Lanterna Verde e Lobo.

É, parece que a DC Entertainment tem bastante trabalho pela frente, e nem tudo serão flores. Mas, para um fã de quadrinhos, é permitido, ao menos sonhar que isso seja uma luz de esperança de que, um dia, veremos grandes obras primas adaptadas para o cinema (ou para DVD).