Debaixo do Capuz – Watchmen Avaliado

Com a proximidade da estréia da adaptação cinematográfica, nada melhor do que falar um pouco sobre a obra que serviu de base para o filme. Lançada há mais de 20 anos atrás, Watchmen ganhou diversos prêmios relacionados a quadrinhos, além de ser a única HQ a vencer o prêmio Hugo (voltado à literatura), a única na lista da revista Time dos 100 melhores romances para se ler de 1923 até o presente, mudou a noção dos leitores e autores sobre como fazer quadrinhos e até hoje é a obra mais relevante da história dos comics. Mas porque toda essa exaltação em cima da HQ? Watchmen é tudo isso mesmo? É muito difícil analisar profundamente a obra sem entregar segredos da trama, por isso este artigo vai desmembrar a obra de Alan Moore sem se ater ao seu enredo propriamente dito, evitando assim spoilers.


Debaixo do Capuz – Watchmen Avaliado

Por Rafael Rodrigues

O nome
Por que Watchmen? E por que ele não foi traduzido?
Watchmen, em tradução livre, significa “vigilantes”, ou “aqueles que vigiam”. Mas a palavra “watch” também tem diversos outros significados, como observar, proteger, prestar atenção, tomar conta, relógio, entre outros. O mais curioso é que todos esses significados são relevantes para a trama e todas essas palavras se encontram, de certa maneira, no clímax da história. Ou seja, não havia como traduzir o título a HQ sem que esta perdessse boa parte de seus diversos significados.

Origem
Em meados da década de 80, as histórias em quadrinhos estavam mudando. Alguns autores, vindos do circuito “alternativo” das hqs (principalmente da revista inglesa 2000 AD) começaram a escrever personagens populares de um jeito diferente ou a revitalizar personagens esquecidos. As histórias, que antes lidavam com situações de forma boba e simplista em um mundo preto e branco, davam sinais de revitalização e obras promissoras despontavam no horizonte, surgidas da mente de autores criativos e que evitavam o lugar-comum.


Era o caso de Alan Moore, que deu aos leitores uma nova e elogiadíssima visão do Monstro do Pântano, personagem de terror da DC – casa de heróis como Superman, Batman e Liga da justiça – que estava esquecido e possuía uma temática mais adulta que as revistas de super-heróis tradicionais. Sabendo que a DC pretendia reformular seus personagens e dar uma nova roupagem após a saga Crise Nas Infinitas Terras, Moore apresentou um projeto que visava revitalizar personagens secundários de uma pequena editora chamada Charlton Comics que a DC havia adquirido anos antes. Mas a história era sofisticada demais e com uma temática muito adulta para histórias de super-heróis e, além disso, seu desfecho acabava inviabilizando a reutilização desses personagens futuramente. Por isso, o editor da DC na época sugeriu que Moore utilizasse aquela mesma premissa com super-heróis totalmente novos, o que não prejudicaria os planos da editora para seus personagens. Alan Moore reestruturou a trama, contando desta vez com personagens criados por ele e que agregavam características de diversos outros heróis clássicos, numa clara homenagem aos principais arquétipos dos quadrinhos. E assim surgiu Watchmen.

O Enredo
Watchmen toma como pano de fundo a América em uma realidade onde os super-heróis realmente existiram, mas eram apenas pessoas comuns vestindo roupas coloridas. Apenas um personagem é dotado de superpoderes, e isso faz dele praticamente um deus. A História se passa nos anos 80, quando os heróis não atuam mais, pois foram forçados a se aposentar ou revelar suas identidades 10 anos antes. Os únicos heróis ativos são aqueles com sanção do governo e Rorchach, que é considerado um perigoso fora da lei. Há ainda, nesse pano de fundo, uma tensão crescente entre EUA e URRS, que ainda vivem em uma longa Guerra Fria, principalmente devido à existência do Dr. Manhatan – o único herói com superpoderes. Tudo começa quando Rorchach, durante uma investigação rotineira de assassinato, descobre que a vítima é ninguém menos que O Comediante, um dos heróis com quem havia atuado no passado. A morte faz Rorchach teorizar que alguém talvez esteja matando heróis mascarados e parte para tentar avisar seus antigos companheiros, agora vivendo como pessoas comuns ou trabalhando para o governo.

Watchmen avaliado
Junto com O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, Watchmen foi o divisor de águas para uma nova era nas histórias em quadrinhos, que deixava a inocência e bidimensionalidade das páginas de cores chapadas e alcançava tons mais sombrios e complexos; foi também o principal responsável por despertar o interesse de leitores maduros para as HQs, até então consideradas entretenimento infanto-juvenil.

Os méritos de Watchmen são muitos, a começar pela trama. Complexa, densa, sofisticada e extremamente inteligente, o enredo conta com diversas subtramas e narrativas paralelas que fizeram com que a palavra “história em quadrinhos” se tornasse inaplicável para descrever a magnitude da obra. Além disso, a história conta com referências aos mais diversos assuntos, como teoria do caos, política, sociedade, psicologia, simetria fractal, teletransporte, e diversos outros aspectos da ciência, sociedade, entretenimento, religião e misticismo. A trama mostra, de forma realista, o impacto social, político, econômico e psicológico do surgimento desses heróis mascarados e, posteriormente, do Dr. Manhatan (pois, graças à sua existência, Nixon continuou na presidência, os EUA ganharam a Guerra do Vietnã e carros elétricos se tornaram comuns, só para citar alguns exemplos).

Para contar sua história, Moore se valeu de diversas técnicas narrativas e inclusive criou algumas. Abusou do simbolismo e da metalinguagem e utilizou diversos recursos técnicos e artísticos só possíveis em histórias em quadrinhos, tornando a mini-série não só uma grande história, mas também uma verdadeira experiência narrativa que só pode ser plenamente apreciada em quadrinhos. Também evitou os clichês do gênero de super-heróis e tentou criar o máximo de verossimilhança em sua obra (tanto é que o termo “super-herói” é evitado na história, sendo os personagens mais frequentemente referidos como “justiceiros encapuzados”, “vigilantes” e outras palavras análogas) e, por essa razão, o enredo foge da narrativa convencional de história de super-heróis e pega emprestado uma forma de storytelling característica das histórias policiais, o “mistery murder” (história que gira em torno de um assassinato, investigado por um dos personagens. Uma das regras do “mistery murder” é que o assassino deve obrigatoriamente ser alguém que já apareceu anteriormente na história, às vezes desde o começo. Não é permitido o uso de soluções “Deus Ex-Machina” – recurso narrativo onde, na história, surgem soluções ou revelações “do nada” e que geralmente servem para simplificar ou resolver furos do enredo).

Outro ponto alto da história de Alan Moore é a caracterização dos personagens. Longe de criar personagens bidimensionais e limitados, o autor deu a cada um deles personalidades verossímeis, dramas, conflitos e emoções humanas (além de alguns distúrbios de comportamento), tornando os personagens pessoas de verdade, como você e eu, e nos fazendo acreditar que, em outras circunstâncias, aquilo poderia realmente ter acontecido.

A arte é um espetáculo à parte. Dave Gibbons, artista da série, cria uma atmosfera sombria e familiar, em desenhos detalhadíssimos e cheios de expressão, capaz de evidenciar as emoções dos personagens e abordar os mínimos detalhes da história.

E são os detalhes que fazem a diferença em Watchmen. Ao ler a HQ, não pisque: cada cena, cada personagem secundário, cada trama paralela, cada outdoor, cada cartaz em uma lixeira tem seu propósito e sentido dentro da trama, que foi concebida para ser completamente compreendida depois de diversas leituras, ou seja; caso adquira a obra, prepare-se para lê-la, obrigatoriamente, pelo menos duas ou três vezes.

Watchmen foi um marco na história dos quadrinhos ao estabelecer parâmetros, redefinir conceitos e abrir todo um novo leque de possibilidades para as histórias de super-heróis, que pareciam não ter mais o que render. Mas ainda renderiam e muito. Infelizmente, após isso sudeceu-se uma onda de histórias e personagens “inspirados” por Watchmen, mas criados por autores que não compreenderam a obra em sua magnitude, o que levou à decadência do gênero do super-herói e a banalização do “realismo” e violência no gênero durante os anos 90. Mas isso é uma outra história.

Watchmen é uma daquelas obras que fazem história. Assim como Cidadão Kane foi para o cinema, Watchmen foi para os quadrinhos a obra que mudou tudo e determinou como as coisas deveriam ser dali para frente. Uma história para ler e reler, e que, não importa o quanto o tempo passe, nunca ficará datada, pois os temas que ela aborda são universais e atemporais.

Curiosidades:
Watchmen foi desenvolvido para ter, inicialmente, 6 edições. Mas para pontuar a personalidade dos heróis para o artista, Alan Moore trabalhou tanto no background dos personagens com Dave Gibbons que a história dobrou de tamanho e foi publicada em 12 capítulos (nos EUA; no Brasil, saiu pela primeira vez em seis edições, compilando dois capítulos por revista).

Watchmen possui, em cada capítulo, material adicional para ser lido ao final da edição. Esse material adicional não era parte do “plano” original; a idéia era, como de costume, ter aquele espaço reservado para publicidade. Mas a história era tão densa e adulta que os anunciantes ficaram com medo e decidiram não comprar os espaços. Moore então se prontificou a preencher essas lacunas com o material adicional que vemos na HQ. Uma dica: LEIA esse material adicional; ele ajuda, e muito, a compreender a história como um todo.

Dave Gibbons criou os quadros de Watchmen de forma simétrica propositalmente, para que as páginas se diferenciassem das outras histórias em quadrinhos publicadas até então, assim quem abrisse qualquer capítulo da obra despropositadamente, saberia que não se tratava de uma HQ comum.

A idéia de mostrar já de cara que Watchmen não era nada que o leitor já tinha visto antes em quadrinhos se estendeu a toda a forma como a HQ foi editada. Só para citar um exemplo, o título nas capas das edições foi colocado na vertical e se tornou uma das principais marcas da HQ.