E a História se repete

E a História se Repete
Por Rafael Rodrigues

Recentemente foi anunciada uma adaptação dos quadrinhos Youngblood, capitaneada por Brett Ratner (A Hora do Rush 1 a 3, X-men 3 e o futuro novo filme do Conan). Notícia que deixou alguns fãs de quadrinhos animados e a maioria, nem tanto. A compra dos direitos de Youngblood para o cinema é uma amostra do crescimento exponencial do investimento de Hollywood no gênero e do quanto se pode repetir uma fórmula até ela se desgastar.

Youngblood, para quem não sabe é um grupo de super-heróis criados e sancionados pelo governo americano para combater o crime em missões arriscadas; criada por Rob Liefeld (amado por uns, odiado pela maioria) para a Image Comics nos anos 90. Recentemente a equipe voltou a ser publicada, sendo reconvocada pelo novo presidente Obama. Para efeitos de comparação, Youngblood é para os quadrinhos o que filmes como Triplo X e Velozes e Furiosos são para o cinema.

Para entender alguns pontos desse artigo, é bom situá-los sobre algumas coisas:

O mercado de HQs americano sempre foi dominado por duas editoras: A DC Comics (a mais tradicional, casa de personagens como Superman, Batman, Mulher-Maravilha, Arqueiro Verde) e a Marvel Comics (casa de personagens como Homem-Aranha, Homem de Ferro, X-men, Quarteto Fantástico). A DC Comics é propriedade do grupo AOL-Time-Warner, ou seja, qualquer adaptação de personagens da editora tem como estúdio a Warner Bros. Já a Marvel sempre teve mais liberdade e negociava seus personagens um a um com as produtoras até recentemente, quando criou um estúdio para produzir seus próprios filmes (Alguns personagens como Homem-Aranha. Demolidor e Quarteto Fantástico, no entanto, ainda são propriedades de outros estúdios como Sony e Fox). Sendo assim, os principais e mais tradicionais personagens de quadrinhos estão centralizados entre essas duas editoras, e consequentemente, limitados à boa vontade de seus estúdios, que têm seus próprios planos (ou fingem ter, como no caso da Warner). Sobra então para os outros estúdios personagens, populares ou não, de propriedade de outras editoras menores, mas que também tem ou tiveram razoável sucesso comercial no segmento.

Youngblood, assim como o seu criador, Rob Liefeld, é fruto de uma geração que cresceu com HQs como O Cavaleiro das Trevas, A Piada Mortal e Watchmen. Só que infelizmente as crias dessas grandes obras estão para os originais como Michael Bay está para Akira Kurosawa. Isso aconteceu porque, no final dos anos 80, quando as histórias em quadrinhos começavam a dar sinais de amadurecimento, vieram obras que criaram um grande choque narrativo para o qual talvez os leitores da época não estivessem totalmente preparados. Essas obras, mais maduras, exploravam os heróis sob outro ponto de vista que os tornavam mais sombrios. O problema é que o público, não acostumados à obras escritas em diversos níveis, assimilaram apenas o superficial, o mais óbvio, ou seja: visual dark, idéias de personagens perturbados, heróis com segundas intenções, desproporcionais e extremamente durões, fazendo inveja à qualquer personagem do Chuck Norris ou Steven Seagal. Como as histórias eram mais sofisticadas e complexas, provavelmente não entendiam quase nada, o que acabou fazendo-os pensar que o que importava para ser bom era apenas visual.

Assim surgiu um novo tipo de herói, o “Grim’ n Gritty“, que designava heróis sombrios, de dentes cerrados, de poucos amigos, com atitudes pouco sofisticadas e bastante vingativos. Em outras palavras, brucutus com superpoderes ou armas muito grandes (ou em muitos casos, as duas coisas).

O resultado foi uma década inteira do que podia se produzir de pior em comics. Quadrinhos com muito apelo visual, e zero de conteúdo. A Image Comics (como o próprio nome sugere) foi a editora que mais difundiu essa idéia de muita imagem e pouco papo, mas o seu sucesso comercial fez com que as principais editoras (Marvel e DC) enveredassem pelo mesmo caminho, trazendo momentos inesquecíveis dos comics (mas não no bom sentido) como um Batman paralítico substituído por um maníaco psicótico e um Homem-Aranha descobrindo que sempre foi um clone vivendo a vida do original. Foi um período sombrio, não só na forma de encarar as histórias de quadrinhos, mas para o mercado como um todo. Um período em que a DC tentava ser a Marvel, a Marvel pedia concordata e a Image crescia cada vez mais com “histórias” com muita luta, heróis bombados, heroínas gostosonas com pouca roupa e diálogos quase inexistentes.

Youngblood é um dos produtos dessa época crítica e é por esse motivo que o anúncio de uma produção cinematográfica baseada na HQ nos faz pensar sobre o verdadeiro objetivo de uma adaptação dessas.

Antes de mais nada, é importante deixar bem claro que ninguém é ingênuo a ponto de pensar que os estúdios desenvolvem filmes com a intenção de criar obras de arte que servirão para debates filosóficos, farão a humanidade refletir sobre seus erros e acabará tornando o mundo um lugar melhor. Todo mundo sabe que qualquer produto precisa gerar lucro, e filmes não são diferentes. Acontece que, no caso das produções cinematográficas, o público consumidor é variadíssimo e possui diversos níveis intelectuais, culturais e sociais, o que torna difícil criar uma produção cinematográfica capaz de agradar a todo mundo.

Rob Liefeld

Assim, as adaptações de quadrinhos de super-heróis cariam nas graças dos estúdios, que perceberam que podiam gerar filmes que já vinham com uma base de fãs (garantindo certa bilheteria, mesmo que o filme fosse ruim) e uma série de histórias prontas (ou seja, não era preciso tentar ser original). Além disso, histórias de super-herói possuem elementos capazes de agradar um grande número de perfis de público diferentes: cenas de ação e muito uso de CGI para o público adolescente masculino, personagens conhecidos há tempo o suficiente para interessar o público mais maduro, interesses românticos para o público feminino e piadinhas prontas e alívios cômicos para o público em geral que precisa rir em pelo menos uma cena de qualquer filme. Some tudo isso ao uso de atores famosos que tragam outra parcela do público ou diretores conceituados, e entendemos a razão pela qual esse tipo de adaptação se tornou a galinha dos ovos de ouro de Hollywood, que viu neles a chance de finalmente produzir filmes que agradassem um grande número de públicos diferentes e, consequentemente, faturar muito alto.

Mas então vieram uma nova onda de filmes baseados em quadrinhos (sim, essa não é a primeira vez que isso acontece, como você deve ter lido no meu primeiro artigo sobre o assunto) e, apesar da maioria nem merecer ser citado, alguns deles atingiram não só um grande interesse do público, como também da crítica. E alguns filmes baseados em histórias de super-herói agora estavam na mira de quem em outras ocasiões nunca daria bola pare esse tipo de filme. Filmes como X-men, Homem-Aranha e Batman Begins trouxeram outro público para essas adaptações, um público significativamente mais maduro e, portanto, mais exigente. E então vieram o Cavaleiro das Trevas e Watchmen. Apesar desse último não ter agradado tanto ao público, ainda assim é irônico que, Watchmen e O Cavaleiro das Trevas (que não tem a mesma história do filme) tenham sido também as HQs mudaram os rumos das histórias em quadrinhos e agora talvez façam o mesmo no cinema.

Mas assim como nos quadrinhos, o cinema pode sofrer da falta de discernimento necessário para manter o nível de qualidade estabelecido por essas duas produções. Um exemplo disso é a explosão de adaptações de personagens menores de quadrinhos, como Arqueiro Verde, Deadpool, Darkness e Witchblade, assim como as tentativas de criar novas franquias através de outras já estabelecidas, como no caso de Quarteto Fantástico e Surfista Prateado (que se pretendia com isso lançar um filme do Surfista) e derivados da franquia X-men como X-Men Origens: Wolverine (já lançado), Magneto e X-men First Class (que deverá contar os primeiros dias da escola Xavier).

E o resultado desse amontoado de produções, será provavelmente o mesmo que gerou as piores histórias nos anos 90 para a indústria de HQs; idéias promissoras tentando repetir o sucesso de O Cavaleiro das Trevas, sem o devido discernimento dos motivos pelos quais a produção fez sucesso, mas que no final se tornarão produções medianas (se não piores), vazias, feitas às pressas, com roteiro “Frankenstein” (todo “remendado”, pela intervenção dos executivos) e que se sustentará apenas pelo apelo visual, seja ele do CGI, da beleza dos atores ou das cenas de ação.

E no fim das contas teremos a História dos comics nos anos 90 acontecendo novamente com as adaptações de quadrinhos. Mas isso não é problema se os filmes não fizerem sucesso, certo? Bom, sim, mas aí é que está o problema. Assim como os leitores de quadrinhos não estavam preparados para quadrinhos mais sofisticados, talvez o grande público que vai ao cinema também não esteja, e por essa razão creio que provavelmente adaptações como de Youngblood serão muito inferiores à X-men, Homem de Ferro ou Homem-Aranha, mas talvez tenham até mais bilheteria que esses, pois terão como muleta um apelo visual que começa a ser uma tendência nesse tipo de produção, e que pode (e provavelmente irá) acabar por trazer a decadência do gênero.

Brett Ratner

Mas eu posso estar enganado: Talvez Youngblood seja um filme muito melhor do que foram os quadrinhos, afinal o diretor é Brett Ratner, responsável por X-men 3 (que, apesar de ser o pior da trilogia na minha opinião, podia ser bem pior) e, além disso, é fã de quadrinhos, tendo também se envolvido com o Superman antes de pular fora e Bryan Synger assumir o filme. Talvez as adaptações de quadrinhos mantenham um nível digno e não passem a apelar. Talvez toda a minha preocupação seja infundada. Ou não.

Só nos resta esperar pelo que Hollywood irá nos trazer nos próximos anos e, literalmente, pagar pra ver.