Eu não Quero um Universo DC nos Cinemas

Eu não Quero um Universo DC nos Cinemas
por Rafael Rodrigues

Com o sucesso da nova franquia do Batman pelas mãos de Christopher Nolan, a reestruturação do setor de quadrinhos da Warner Bros, o primeiro longa-metragem live-action do Lanterna Verde chegando, o roteiro pronto de um filme do Flash e um inevitável novo filme do Superman para os próximos anos, os fãs da DC Comics tem se entusiasmado – e se preocupado – com as perspectivas para os longa-metragens da editora. Fará a Warner o mesmo que a Marvel Studios e criará uma cronologia única para estes personagens, fazendo-os coexistir num único universo? E, mais importante: se isso acontecer, será mesmo uma boa ideia?

Contrariando a maioria esmagadora dos fãs de quadrinhos, eu não gosto da ideia de juntar os heróis DC num mesmo universo cinematograficamente, por diversos motivos. Primeiro porque a Warner nunca fez isso antes, e fazer isso justo agora tornaria claro que a estratégia seria uma cópia da estratégia da Marvel Studios. Além de eu ter problemas com cópias, não sabemos ainda se esta estratégia será bem sucedida (se pararmos para pensar, temos apenas 2 super heróis dentro desse universo que já foram vistos – Homem de Ferro e Hulk, e só um deles fez realmente sucesso, colocando a estratégia da Marvel, até agora, numa proporção de apenas 50% de acerto em seus heróis), e mesmo que esta estratégia funcione para a Marvel Studios, não significa que o mesmo acontecerá com a DC. Eu creio que já comentei isso de forma mais completa em artigos anteriores, então vou fazer um resumo da ópera: É mais fácil incluir os personagens da Marvel em um mesmo universo porque eles foram criados em um mesmo universo – à exceção do Capitão América, no caso dos personagens dos Vingadores) e compartilham gêneses comuns (como a transformação baseada nos perigos da radiação e experimentos científicos). No caso da DC, a grande maioria dos heróis, ou foram criados separadamente ou eram heróis de outras editoras menores compradas pela DC e com seus personagens posteriormente incorporados ao seu universo; em ambos os casos, cada personagem vem com sua própria mitologia específica o que, se não dificulta a coexistência nos quadrinhos, o mesmo não se poderia dizer do cinema.

lanterna-verde-banner
Um exemplo é o Lanterna Verde, cujas histórias não se limitam apenas a um indivíduo. Lanterna Verde já faz parte de uma equipe – A tropa dos Lanternas Verdes, e tem parte em uma complexa mitologia¹ que envolve a origem e criação do universo (mas que não vem ao caso entrar em detalhes aqui). Na história, o próprio anel de um lanterna moribundo caído na Terra busca por novos portadores e acaba escolhendo Hal Jordan como Lanterna Verde, porque ele é capaz de superar grande medo. Certo, mas não é basicamente isso o que Batman fez nos filmes do Nolan? Jordan também é escolhido por ser “digno” de portar o anel. Mas quem seria mais digno que Clark Kent (vulgo Superman) para portar o anel? Este é apenas um exemplo simples dos problemas que a coexistência entre estes personagens podem gerar.

Em entrevista, Christopher Nolan, ao ser questionado sobre onde seu Batman se encaixaria num eventual universo DC, respondeu que, se existisse um Superman no universo de Bruce Wayne, ele teria tomado decisões bem diferentes sobre o que fazer com sua vida. Claro, num mundo em que existe um Superman, para que existir um Batman? Sei que essa pergunta desagrada muitos fãs de quadrinhos que têm apreço pela relação entre os dois nos quadrinhos (eu também gosto muito), mas acho difícil ela funcionar em um filme.

O mais próximo que pudemos ver com atores de carne e osso de um universo DC reside na série Smallville (criticada por muitos fãs de quadrinhos pelas descaracterizações dos personagens, principalmente em relação ao mito do superman). Nela nós já tivemos diversos heróis, como Arqueiro Verde, Flash, Aquaman, Canário Negro, Zatanna, Caçador de Marte e os principais membros da Sociedade da Justiça, só para citar alguns. Mas existe uma grande diferença aqui. Embora conte ocasionalmente com estes outros heróis, ela ainda é uma série do Superman (ou, para ser mais preciso, do Clark Kent) e portanto a maioria dos plots² giram em torno da mitologia do personagem, reservando pouco ou nenhum espaço para inserir mitologias de outros. Notem que não há nenhuma incursão da Atlântida, reino de Aquaman (embora isso tenha sido mencionado bem por alto em um episódio da temporada mais recente), nem vemos de forma mais profunda outras histórias relacionadas ao Flash, Canário negro, entre outros heróis. O fato de John Jones ser de Marte não levou a nenhum plot específico sobre sua origem, sobre como era o planeta, se existe outros marcianos (e se ele sabe que não existe, como descobriu, etc). Para todos os efeitos, não se trata de um universo DC, mas sim do universo de Smallville, um universo cuja mitologia gira em torno de Krypton e os outros heróis apenas estão inseridos dentro deste contexto, mesmo que tenham suas origens condizentes com o material fonte.

Um exemplo não live-action desta coexistência de universos individuais de cada herói está nas animações Liga da Justiça e Liga da Justiça Sem Limites. Embora tenham conseguido reunir os principais heróis da DC de forma muito eficiente, não creio que possamos comparar o desenho com iniciativa semelhante que possa ocorrer no cinema até porque, sendo seriado, a animação pôde incluir aos poucos e sem pressa as mitologias individuais menos conhecidas (a Ilha Paraíso, a Atlântida, a Tropa dos Lanternas Verdes, etc), enquanto que numa estratégia cinematográfica que fosse semelhante a da Marvel Studios (filmes individuais de personagens com pequenas pontas entre si que eventualmente levariam a um filme da Liga da Justiça), talvez não haveria tanto tempo assim.

E as mitologias individuais de cada super herói também estão entre os motivos pelos quais eu não gosto da ideia de juntar vários personagens da DC em um filme só. Quem conhece mais a fundo os quadrinhos da DC sabem a complexidade dos conceitos criados para o universo da Mulher Maravilha, Aquaman, Superman e do Lanterna Verde, entre outros. É muito mais interessante trabalhar diversos filmes dos personagens individualmente, a fim de explorar de forma mais adequada suas mitologias, do que suprimi-las ou resumi-las para fazê-las caber dentro de um curto espaço para que não ofusquem o outro num eventual filme em conjunto.

Mas talvez a maior dificuldade de fazer um filme que reúna os principais heróis da editora funcionar é provavelmente aquilo que mais chama atenção nos mesmos: o poderio. Superman é o homem mais poderoso do planeta (inclusive em sua versão pré-crise³ ele podia até mover planetas e viajar no tempo), Mulher Maravilha foi moldada em barro pelos Deuses Gregos, e é provavelmente a mulher mais poderosa do mundo (além de, se precisar, contar com a ajuda de suas irmãs amazonas, guerreiras valorosas e mais eficientes que qualquer soldado mortal), Flash é o homem mais rápido do mundo (podendo inclusive viajar no tempo), Lanterna Verde possui a arma mais poderosa do universo, o Caçador de Marte possui todos os poderes do Superman e mais transmorfismo4 e telepatia, e Aquaman possui em seu reino um poderoso arsenal que mistura magia e tecnologia avançada. Para uma equipe tão poderosa, ficaria difícil criar um desafio à altura que fosse interessante e que não proporcione apenas cenas de ação, mas também cenas dramáticas sem ficar forçado. Mesmo sendo uma história de super heróis, verossimilhança é necessária para que o filme se dê bem nas bilheterias.

O poderio também traz um problema de orçamento. Se um filme com apenas um destes personagens já chegaria facilmente a uns 200 milhões, imagine um filme que reúne todos eles? Creio que mesmo com a tecnologia de hoje seria inviável produzir um filme da Liga da Justiça decente sem que se tornasse, com folga, a produção mais cara da história do cinema (Avatar seria baixo orçamento comparado ao filme Liga da Justiça). Por outro lado, um orçamento menor comprometeria a qualidade do filme (quem teve a oportunidade de ver o filme Liga da Justiça da América nos anos 90 faz uma ideia do que estou falando), o que provavelmente prejudicaria a bilheteria. E sem bilheteria, sem futuras continuações.

A Marvel Studios tem conseguido superar a maioria destas questões – pelo menos até onde se pode perceber. Mas acho que, com exceção de Thor, os heróis da Marvel podem tranquilamente trabalhar com orçamentos mais enxutos Só que, no caso do filme dos Vingadores, a questão orçamentária também pode ser um problema. De qualquer maneira, como eu comentei antes, ainda não sabemos se esta iniciativa vai dar certo para a Marvel, mas independente do sucesso ou não do filme dos Vingadores, eu continuarei tendo muitas ressalvas com relação a um eventual filme da Liga da Justiça.

De qualquer maneira, não parece que a Dc Entertainment irá seguir o mesmo caminho da Marvel Studios. Um dos (novos) grandões da empresa, o roteirista Geoff Johns acha que os personagens da DC são grandes demais para serem “simplificados” em um só universo, e por isso a ideia à princípio é continuar explorando cada personagem separadamente, sem planos para uma futura união entre eles. Aposto que isso decepcionará muita gente que espera um dia Superman e Batman juntos em um mesmo filme, mas se serve de consolo, não tenha dúvidas de que isso acontecerá mais cedo ou mais tarde. Eu só espero sinceramente que seja “mais tarde”.

Em tempo:

1 – Mitologia neste caso se refere ao conjunto de aspectos relacionados às origens e à história do personagem;

2 – Plot é o mesmo que enredo;

3 – A megassaga Crise nas Infinitas Terras nos anos 80 dividiu o Universo DC em dois períodos: Pré-Crise (que contava com as versões da Era de Prata dos personagens) e Pós-Crise (que esqueceu o que acontecera antes da crise, reescrevendo a história do Universo DC com algumas mudanças nos personagens da editora);

4 – Transmorfismo é a capacidade de mudar de forma.