Juntando a Fome com a Vontade de Comer

Juntando a fome com a vontade de comer
por Rafael Rodrigues

Creio que agora todo mundo deve estar sabendo – ou pelo menos ouvido falar – da novidade que pegou de surpresa o mundo do entretenimento: A Walt Disney Company comprou a Marvel Inc por “meros” 4 bilhões de dólares. Em suma, todas as propriedades intelectuais, personagens e histórias da Marvel estão na mesma casa de Mickey e companhia, High School Musical, Hannah Montana e Jonas Brothers. Além de pegar todo mundo de surpresa, a notícia gerou muitos comentários, principalmente de fãs, colaboradores, anunciantes e parceiros da Marvel, preocupados com o futuro da empresa – e consequentemente dos seus personagens e negócios.

Mas o que essa compra significa para a Marvel e para a Disney, na realidade?

Para a Disney, que agora é dona da Marvel, é óbvio: significa controlar um amplamente extenso catálogo de personagens lucrativos, além de se tornar (ainda) mais poderosa e sólida como conglomerado. O que a venda da Marvel significa para a Disney não é o problema, mas o contrário preocupa muita gente.

Nos EUA, conglomerados de mídia – empresas que controlam um vasto número de outras empresas de diversos segmentos de entretenimento, como cinema, quadrinhos, games, brinquedos, televisão, etc – são bastante comuns. A Time-Warner, por exemplo, era considerada uma das maiores e mais tradicionais empresas de mídia do mundo, cujo grupo engloba as Revista Time, People, Sports Illustrated, MAD, a Warners Brothers, New Line Cinema, América Online, os canais de TV CNN, HBO, TNT, CW, a DC Comics, entre outras empresas menores. Sua principal concorrente, não por acaso, é a Walt Disney Company. Inclusive no último artigo, comentei sobre a suposta inaptidão da Warner em trabalhar com eficiência os personagens DC no cinema. Mas, vendo o quão gigantesco é o conglomerado Time-Warner, fica fácil entender porque eles não parecem se preocupar tanto com isso. Ou pelo menos pareciam. E agora o que parece é que eles vão ter que correr atrás do prejuízo.


A Disney provavelmente ocupa o post de maior conglomerado de mídia do mundo, englobando, só para citar alguns, todas as subdivisões do canal ABC, as divisões do canal ESPN, Disney Channel, Jetix, A&E Entertainment, The History Channel, os estúdios Walt Disney Pictures, Buena Vista, Miramax, Touchstone, Dimension, Pixar animation, além de uma série de outras empresas de entretenimento. E agora a Disney é dona da Marvel Inc., um sub-grupo que inclui a Marvel PublishingMarvel Studios (quadrinhos), a (cinema), a Marvel animation (animações), a Marvel Toys (brinquedos), além de uma série de outros pequenos empreendimentos no ramo do entretenimento. Juntando tudo isso com o fato de que a Marvel era, até então, uma das únicas “pequenas” empresas americanas que davam certo e ainda não havia sido assimilada por um grande conglomerado, dá para entender porque a novidade movimentou notícias, rumores e a bolsa de valores.

Mas essa compra é boa para a Marvel? Bom, financeiramente, sim, é claro. Fazer parte de um conglomerado como o da Walt Disney Company é, além de um grande negócio, uma garantia de estabilidade – a possibilidade da Walt Disney company falir, por exemplo, é virtualmente nula. O que mais preocupa as pessoas – e principalmente os fãs de quadrinhos, é o que isso significa para os personagens da Marvel.

A Walt Disney Company possui um objetivo muito específico, que impõe como um mantra para todas as empresas que fazem parte do grupo: Proporcionar diversão para toda a família. A Disney é muito rígida no que se relaciona a esse aspecto da empresa, e não deixa passar nada que segundo a concepção da empresa, fere essa proposta. E é por isso que a Disney possuindo os personagens Marvel em seu catálogo gera muita preocupação para quem é fã de longa data dos personagens Marvel, e tudo isso por um motivo muito simples: diferente da DC, que desde que foi assimilada pela Time-Warner já tinha seus personagens “moldados” para serem exemplos para toda a  família, a Marvel sempre trouxe um ponto de vista diferente para sues personagens.

A principal característica da Marvel (e motivo pelo qual se transformou em uma das maiores, se não a maior editora de quadrinhos do planeta) é justamente aproximar os personagens de seus leitores e do mundo real. Por esse motivo, desde muito cedo a Marvel quebrou tabus, mostrando heróis enfrentando problemas comuns, personagens adolescentes, além de histórias explorando questões sérias da humanidade como preconceito, violência urbana, vício, doenças, e por aí vai. Isso traz, de certa forma, uma imagem “agressiva” para a Marvel que, imagino, faça muito sucesso entre os adolescentes – que já estão carecas de saber que esses problemas acontecem no mundo real – mas que pode ser uma preocupação muito grande para os pais que têm filhos pequenos.

Além disso, os personagens da Marvel – incluindo aí os super-heróis mais famosos – são em sua maioria, verdadeiros párias da sociedade, pessoas rejeitadas, monstros atormentados e heróis perturbados. O Capitão América é uma cobaia numa experiência militar e alguém deslocado no tempo, o Hulk é mais um vilão do que um herói, o Homem de Ferro faz propaganda belicista, os X-men são marginalizados, Thor originalmente “dividia” seu corpo com um humano “aleijado”, Justiceiro é um assassino, e por aí vai. Com tudo isso, talvez a principal característica da Marvel seja justamente essa faceta transgressora, marginalizada. Exatamente aquilo que não se encaixa nos valores da Walt Disney Company. E é exatamente essa a preocupação que os fãs da Marvel têm de que seus personagens tenham que mudar para se adequar ao “padrão Disney de entretenimento”.

Mas pode ser que essa preocupação seja exagerada. A DC Comics, por exemplo, que é parte do grupo Time-Warner como dito anteriormente, não responde diretamente à Warner, tendo liberdade para controlar os personagens nas HQs como bem entendem. É possível que a Disney faça o mesmo com a Marvel, uma vez que a Disney sabe que o sucesso da Marvel se deve justamente a essas características “rebeldes”. Depois, a Disney já tem um precedente assim: A Pixar animation possui total liberdade criativa e gerencial, e a Disney praticamente não se envolve nos seus projetos. Tanto é que Joe Quesada, editor-Chefe da Marvel Publishing declarou em entrevista que espera que a relação Disney-Marvel seja muito parecida com a relação Disney-Pixar.

Mas o que deve mesmo ser o principal foco da Disney na Marvel é, sem dúvida, a Marvel Studios (que controla os filmes dos personagens Marvel) e a Marvel animation. Ainda não se sabe exatamente como foram feitas as negociações e o que foi acertado, mas é sabido que a Marvel Studios possuía um amplo planejamento de seus filmes de super-herói, já tendo inclusive planos traçados para as próximas produções – e um subseqüente filme dos Vingadores – então ainda não sabemos se esses planos poderão seguir adiante. Se não seguirem, a Marvel vai ter muitos problemas com os seus fãs, inclusive talvez aí uma falta de credibilidade que nunca existiu desde que a Marvel Studios foi criada.

Os parceiros da Marvel, principalmente os que possuem direitos sobre seus personagens – como a Sony, que possui os direitos do Homem Aranha nos cinemas, e a Fox, que possui os direitos do Quarteto Fantástico – podem respirar aliviados, pois a Disney já disse que os contratos prévios com essas empresas serão honrados. Ou seja, em teoria, por ora tudo vai continuar como está.

A compra da Marvel pela Disney, no entanto, não tem só pontos negativos a serem analisados. Se a Marvel possuir a mesma liberdade que a Pixar, seus filmes vão poder contar com a mesma competência que a Marvel teve com Homem de Ferro, mas com muito mais dinheiro para gastar em efeitos especiais. E as animações da Marvel, que sempre sofreram com falta de qualidade – com raras exceções, claro – podem se beneficiar muito sendo “irmãs” de empresas com a Pixar, ao ponto de finalmente poder competir com as animações dos personagens DC para a Warner – que têm produzido animações com grande apelo para o público e aclamados pela crítica.

Há também diversas possibilidades que podem animar alguns e desanimar outros. Agora que os super-heróis da Marvel são de propriedade da Disney, significa que eles estão mais próximos de Mickey e companhia. Então é possível, num futuro próximo, vermos o Mickey se encontrando com o Capitão América? Ou o Pato Donald numa luta épica com Howard, o Pato? Um game de Luta “Marvel VS Disney”, Jonas Brothers ou Miley Cirus fazendo participações especiais nas histórias do Homem Aranha ou dos X-men? Superpateta fazendo parte dos Vingadores, quem sabe?

No fim das contas, só o futuro dirá o que nos reserva, e se devemos nos preocupar com isso ou não. Por hora, nos resta apenas esperar. Enquanto isso, a blogosfera já se diverte com o assunto, proporcionando uma série de imagens divertidas (clique nelas para ampliar):