Não Vou Me Adaptar

Não Vou Me Adaptar
Por Rafael Rodrigues

The Spirit - Amargurado

Apesar das adaptações de quadrinhos estarem em alta atualmente, e do fato de que a grande maioria das adaptações provém de materiais-fonte mais “simples” (se comparados com adaptações literárias, por exemplo), transpor uma história em quadrinhos para o cinema é uma tarefa mais difícil do que podemos imaginar. Enquanto filmes como O Cavaleiro das Trevas e Homem de Ferro se tornaram grandes sucessos de público e crítica, outros como Mulher-Gato e mais recentemente The Spirit amargaram fracassos retumbantes. E, correndo por fora, há aqueles que adquirem sucesso de crítica, mas não de público e vice-versa, além daqueles que deixam os dois divididos (como no caso de Watchmen). No frigir dos ovos, considerando o número de produções baseadas em quadrinhos, o saldo ainda é bastante negativo.

Mas é realmente tão difícil assim levar um personagem ou história dos quadrinhos para o cinema?

Bom, obviamente, essa é uma questão muito mais delicada do que deveria, e envolve storytelling¹, mercado, segmento, público, faturamento, além de diversos outros fatores, comerciais ou não, que contribuem para o sucesso ou fracasso de um filme ou franquia cinematográfica baseada em HQs. Por isso minha análise será focada especificamente nos meios, deixando de lado fatores comerciais e logísticos. É bom deixar claro também que estarei me referindo mais especificamente aos quadrinhos de super-herói, pois são estes os elementos mais simbólicos e que melhor representam as diferenças entre cinema e HQs.

Quem não é leitor assíduo talvez ache que HQs são apenas “literatura ilustrada”, ou “imagens em sequência”, como o termo arte seqüencial² nos instiga a pensar. Mas atualmente quadrinhos são um meio de contar histórias que possui seus próprios processos narrativos, suas próprias “regras”, metodologia e sua própria maneira de interpretar sentimentos, símbolos e seres, que tornam as HQs um veículo único e insubstituível em seu próprio meio, assim como os contos são para a literatura. É verdade o que dizem: histórias em quadrinhos NÃO SÃO literatura. Mas também não são mais, nem menos. São diferentes. Afinal, cinema é melhor ou pior que literatura? Claro que nós sabemos que essa pergunta é capciosa, porque não há uma única resposta para ela, e esta vai depender de um sem-número de fatores. O mesmo ocorre com os quadrinhos. A partir daí, podemos traçar os paralelos necessários para entender as principais diferenças entre cinema e comics.

Com isso, cito aquelas que considero as principais barreiras para uma adaptação de histórias em quadrinhos competente:

1 – Super-Heróis
O conceito do Super-Herói como conhecemos atualmente tem origem nos quadrinhos e, portanto, é restrita à linguagem para o qual ela foi desenvolvida. Conceitos que fazem parte da gênese do herói – como uniformes com cores berrantes e apertadíssimos para os homens e roupas curtíssimas e fetichistas para as mulheres, por exemplo –, funcionam bem nos quadrinhos, mas não funcionam tão bem assim no cinema. Você respeitaria o Batman dos filmes do Christopher Nolan se ele usasse uma roupa azul e cinza, com uma sunga por cima das calças, como ele usa nos quadrinhos? Ou conseguiria levar a sério Wolverine se o visse com um collant amarelo e apertado nos filmes dos X-men?

A cultura americana e japonesa possui heróis icônicos o bastante para que não seja possível imaginar o personagem sem a roupa que o diferencia dos outros (Como Superman, por exemplo), mas esses são casos isolados e, se pararmos para analisar, só funcionaria na realidade mesmo em raríssimas ocasiões (Se um cara dissesse que vem de um planeta chamado Krypton, eu entenderia o porquê da roupa estranha, mas nunca entenderia porque um cara normal que pode comprar uma armadura com camuflagem fizesse o mesmo).

O cinema é o meio mais próximo da realidade que temos, e se fundamenta no uso da imagem. Se a imagem não for verossímil ou tenha uma rápida identificação com quem está vendo, ela soará falsa.

2 – Narrativa (Storytelling)
Embora antigamente os quadrinhos realmente fossem o que poderia se chamar de “livros ilustrados” (pois pegavam “emprestado” as técnicas narrativas da literatura e apenas a representavam com desenhos), atualmente as HQs tem seus próprios meios e regras narrativas, que evoluíram baseados na linguagem ao qual estavam inseridas, por isso certas coisas são impossíveis de se reproduzir em outra mídia ou soariam bobas e ridículas em certos aspectos. Enquanto o cinema se aproxima mais da poesia épica (pelo fato de narrar os fatos – visualmente, mostrando tudo de forma superficial, vistos “de fora”), os quadrinhos atualmente se aproximam mais da poesia lírica (pelo fato de termos geralmente uma narração introspectiva que nos coloca “dentro” do personagem, nos fazendo “passar” pelas mesmas sensações) e, nesse caso, a transição se torna bastante complicada, uma vez que no cinema é extremamente difícil reproduzir essa forma de narrativa de maneira competente.

3 – Métodos de storytelling
Obviamente, as histórias em quadrinhos têm seus próprios métodos de narrativa, e muitos deles se distanciam muito dos utilizados no cinema. Para transmitir a sensação de se estar ouvindo um diálogo, uma reportagem de TV ou uma música, os quadrinhos se valiam de formatos de balões de diálogos diferentes, o que também criou o “balão de pensamento’, usado para representar o que o personagem estava pensando. Além disso, as histórias podem conter narração épica (em terceira pessoa), embora o mais corrente seja uma narração introspectiva onde as indagações, pensamentos e sentimentos do personagem principal são fundamentais para o entendimento da história. Isso também ajuda a explicar certas sequências que poderiam passar batido pelo leitor que não tivesse conhecimento de determinada situação como muitas vezes acontece de explicarem como um herói consegue escapar de certa situação usando a perspicácia, inteligência ou ciência, que seriam sutis demais para o público perceber apenas com imagens se não fossem devidamente explicadas. Inclusive, essas “explicações”, que nada mais são do que a representação do “pensamento” do personagem são muito comuns na narrativa em quadrinhos, mas soariam extremamente idiotas, bobas ou repetitivas no cinema.

4 – Cronologia
Hq’s são uma mídia mais antiga que o cinema, por isso os personagens mais populares e mais conhecidos dos quadrinhos possuem uma bagagem cronológica que geralmente passa dos 30 anos de existência. 12 histórias por ano em 30 anos já é muito (360 histórias), então imagine personagens com mais de 40 anos (Homem-Aranha) ou mais de 70 anos (Superman). Não é fácil condensar tudo isso num único filme. Sam Raimi condensou 20 anos do personagem no primeiro Homem-Aranha. Já Christopher Nolan utilizou-se de elementos de diversas épocas, mas contou apenas um ano da vida do homem-morcego em Batman Begins. É preciso muita cautela, firmeza e principalmente competência para decidir o que vai ser colocado ou deixado de lado em uma adaptação de quadrinhos.

5 – Fãs
Se algum fã de quadrinhos estiver lendo esse artigo, pode ser que se ofenda, mas digo que não é nada pessoal, apenas uma constatação (até porque sou um grande fã de HQs também): os fãs são a raça mais insuportável que já pisou na face da Terra (depois dos advogados – sem ofensas aos advogados que estiverem lendo isso). Ao invés de se preocuparem com o principal (uma boa história, fidelidade ao conceito base da história, etc), acabam se atendo a detalhes que são tão insignificantes quanto suas próprias idéias de uma boa adaptação, e por incrível que pareça, isso pode vir a prejudicar uma produção. Felizmente hoje em dia os fãs estão sendo educados a entender que uma adaptação não tem como “ser” a obra original, sendo sim apenas uma interpretação ou releitura da mesma, o que tem facilitado um pouco as coisas.

Mas não são só os fãs que às vezes causam problemas para a produção. A preocupação em deixar a história “acessível” para o maior número de perfis de público possível pode ser a diferença fundamental entre o sucesso e o fracasso de uma produção.

6 – “Invencionices”
Chamo de invencionice as idéias mirabolantes que produtores/escritores/diretores conseguem ter para um conceito simples. Sabe aquela pessoa que, quando você faz uma pergunta, não consegue dar uma resposta simples como “sim” ou “não”? (eu sou uma dessas pessoas). É a mesma coisa com alguns filmes.

Superman – O retorno, por exemplo, teve a “brilhante” idéia de “homenagear” Superman – O Filme de Richard Donner. Mas a “homenagem” ficou mais para “plágio”, com o filme tendo basicamente o mesmo roteiro (incluindo o mesmo formato narrativo e as mesmas cenas), o que tornou a produção, no fim das contas, num filme datado e ingênuo para as gerações de hoje.

Hulk, de Ang Lee, tratou de usar simbolismos para representar a origem do personagem e desenvolveu um filme que tomava liberdades criativas demais e o resultado foi um ensaio quase lírico sobre o personagem, o que não funcionou como adaptação cinematográfica.

Mulher-Gato apenas tomou o nome da vilã do Batman e criou uma história totalmente independente (e muito ruim). O resultado foi um filme tão vergonhoso que a própria atriz (Halle Barry) admitiu que o filme não prestava.

Batman e Robin, de Joel Schumacher, partiu do princípio que “ser Batman não podia ser outra coisa a não ser divertido”, e fez um filme que lembrava muito a série camp³ dos anos 60. No fim das contas, este foi o filme que enterrou a franquia cinematográfica do personagem, que só se recuperou do “baque” quase 10 anos depois, com Batman Begins.

7 – Preconceito
Apesar de ser bem menor na cultura americana, o preconceito com as histórias em quadrinhos existe até hoje. Argumentos ridículos como “quadrinhos são pra crianças” levam o público a pensar que não há nenhuma história interessante a ser contada em outros níveis, e que possa interessar a leitores adultos, por exemplo. Felizmente, 2008 provou com O Cavaleiro das Trevas que personagens em quadrinhos podem ter mais profundidade e serem mais “adultos”, mesmo não mostrando cabeças rolando e cenas de sexo, e talvez Watchmen tenha servido para trazer ao público uma nova visão sobre as histórias em quadrinhos, mas o preconceito atinge também os produtores dos filmes. Com algumas exceções, a grande maioria dos filmes que têm o tema “super-herói”, precisam ser censura livre ou até 13 anos. Mesmo os produtores tendo com isso o objetivo de alcançar um público maior (e portanto faturar mais), isso denota também um certo preconceito por parte dos mesmos, afinal, Sin City fez uma ótima bilheteria sendo um filme censura 18 anos (e sendo uma adaptação de quadrinhos).


8 – Fidelidade

Ao contrário da grande maioria dos leitores de HQ, não considero a fidelidade ao material fonte fundamental para uma adaptação. Na verdade, acho que muitas vezes ela pode ser um problema. Ter a “essência” da história respeitada, no entanto, é imprescindível. O Coringa de O Cavaleiro das Trevas não é o Coringa dos quadrinhos; aliás o universo do homem morcego dos filmes do Christopher Nolan não é o universo do homem morcego dos quadrinhos, mas o espírito do que é o universo do Batman está lá. Os dois primeiros filmes de X-men pecam muito em fidelidade ao material original, mas com a essência das HQs produziu dois filmes competentes. Em outros casos, como nos filmes do Batman dirigidos por Tim Burton e Joel Schumacher, ou o piloto da série de TV da Liga da Justiça (se você nunca viu isso, sorte sua…) e até Watchmen havia uma fidelidade visual, mas os responsáveis pelas produções só copiaram o que entendiam, deixando de lado o que as histórias realmente significavam para o leitor.

No fim das contas, chegamos a uma conclusão óbvia: quadrinhos não são filmes, e isso diz tudo no que se refere ao público que consome esses produtos. O público que lê quadrinhos possui uma percepção diferente da que vê cinema, assim como o público que assiste filmes possui uma interpretação diferente dos eventos. Além disso, tanto os leitores de HQs quanto os amantes do cinema estão distribuídos em diversos níveis intelectuais, culturais e tradicionais, o que torna impossível atingir todos esses públicos com uma obra só, seja ela impressa ou rodada em película.

Para uma harmonia entre uma coisa e outra é necessário entender essa diferença e saber que, independente do que aconteça, concessões deverão ser feitas para que a HQ se torne filme, e vice-versa; não há como escapar disso. Transpor uma história de um formato para outro é o mesmo que traduzir uma língua; não importa ao quão próximo do material fonte o tradutor fique, sempre existirão perdas de sentido, uma vez que numa linguagem, a cultura, o contexto histórico e a própria fonética são próprias do idioma e às vezes são impossíveis de serem traduzidas ou sequer interpretadas.

E, considerando que o número de produções cinematográficas baseadas em quadrinhos está cada vez mais elevado, só nos resta esperar que os produtores e a indústria do cinema aprendam com seus erros e acertos o suficiente para nos presentear com cada vez mais pérolas inesquecíveis, muito mais no bom sentido do que no mau.

Em tempo:
1. Storytelling: O ato ou forma de contar histórias
2. Arte Seqüencial: Criado pelo mestre Will Eisner, apesar do que aparente, não significa “arte em sequência”, e sim “arte dinâmica”. É como o autor se referia às HQs, uma vez que considerava o termo “historias em quadrinhos” depreciativo, além de não condizer com o que os comics realmente significavam.
3. Camp: Termo americano usado para designar algo exagerado e de gosto duvidoso. É frequentemente utilizado para descrever a série do Batman que foi exibida originalmente nos anos 60.
4. Cronologia: Termo comum nos quadrinhos, se refere ao “momento histórico” dentro da narrativa, ou a “linha de tempo” do personagem.