Os Novos Ricos do Cinema

Na última década (e principalmente nos últimos três anos) a corrida hollywoodiana pelo pódio da arrecadação mundial deu uma severa acelerada. Desde que O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei quebrou em 2003 a barreira do bilhão de dólares mundiais e se juntou a Titanic como as únicas produções a ultrapassarem os sete dígitos em bilheterias ao redor do planeta, os olhos dos especialistas (e dos produtores) voltaram a enxergar enormes possibilidades de lucro pela frente. E a expectativa vem se confirmando com maior força agora.

Mas por que, de uma hora pra outra, tantos filmes conseguiram chegar a um patamar tão elevado no Box Office? Seria a impulsão por conta do valor mais alto do ingresso 3D (de seis dos dez filmes bilionários)? Em parte, sim. Mas a culpa não é só do novo formato, que estourou após (e por conta de) o recordista absoluto Avatar, de 2009. O Cinema agora é uma indústria muito mais voltada para o consumo do que antigamente. E ao mesmo tempo em que esse perfil econômico recai com mais força sobre a sétima arte, um concorrente se instala com força entre o público: o home video. Para piorar, ambos têm de conviver com o que pode ser a maior força comercial e seu maior inimigo: a internet.

Da lista do conceituado site Box Office Mojo, dos dez filmes de maior bilheteria de todos os tempos, todos são bilionários: Avatar, Titanic, Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte II, O Retorno do Rei, Piratas do Caribe – O Baú da Morte, Toy Story 3 (única animação), Transformers 3, Piratas do Caribe 4, Alice no País das Maravilhas e Batman – O Cavaleiro das Trevas. O que não significa que sejam os de maior público acumulado. Na lista mundial de todos os tempos, os valores não estão corrigidos de acordo com a inflação e nem estipulam diferença entre formatos 2D e 3D. E, além disso, na lista do Box Office em que de fato há essa correção, o site se propôs a analisar apenas a bilheteria que os filmes obtiveram dentro dos Estados Unidos, e não mundialmente. O que significa que seria impossível estabelecermos uma relação real dos dez filmes de maior arrecadação na história do cinema mundialmente. Por exemplo, se tomarmos a lista não corrigida, Piratas do Caribe 2 fez 423 milhões de dólares nos EUA, enquanto O Retorno do Rei fez 377 milhões. Mas, na arrecadação total ao redor do planeta, O Retorno do Rei fez 1,1 bilhão e Piratas 1,06 bilhão. Sendo assim, na hora de observarmos a planilha corrigida (que só abarca os valores norte-americanos), os piratas estariam na frente dos hobbits, o que não reflete a situação global dos dois filmes. Portanto, a lista do site em questão neste momento não nos ajudaria. Mas entrega alguns sinais.

HP1, a 2ª maior bilheteria em 2001. A 11ª dez anos depois. O último filme é hoje o 3º colocado

HP1, a 2ª maior bilheteria em 2001. A 11ª dez anos depois. O último filme é hoje o 3º colocado

Ainda no campo dos valores corrigidos em relação à bilheteria norte-americana, o longa …E O Vento Levou (de 1939) sustenta até hoje a primeira colocação. Se este patamar se verifica em ordem mundial, não é viável analisarmos agora (até porque demandaria uma série de análises e cálculos que o site não fornece e, honestamente, não estamos aptos a fazer). Mas podemos observar de outra forma. À época, não havia home vídeo, tampouco filmes exibidos pela TV, que engatinhava. Aliás, VHS é algo “recente” demais para esse caso. A única maneira que o público tinha de se deleitar com os longas-metragens era indo às salas de exibição. Naquele momento, além do valor dos ingressos ser muito diferente do atual, as produções ficavam meses nos cinemas. Após certo intervalo de tempo, retornavam às salas. Se brotasse o desejo de rever um filme predileto, por mais que já tivesse decorado as falas, não havia outro meio a não ser sair de casa. Era comum, portanto, alguém assistir a um filme bem mais de uma vez.

Com a popularidade da televisão na década de 50, o público passou a ter um meio de diversão dentro de casa forte o suficiente para concorrer com o Cinema. Inevitavelmente, a frequência diminuíra e o primeiro grande impacto na bilheteria era visível. Os produtores perceberam que os cinemas deveriam proporcionar em suas salas de exibição uma experiência impossível de ser concebida nas residências. Por isso, o padrão de imagem foi ampliado, gerando telas mais largas com uma razão maior (o princípio do formato widescreen). Em meados da década de 70, os videocassetes chegam ao mercado trazendo ao público a oportunidade de rever ou conferir pela primeira vez em casa as produções lançadas nos cinemas, mesmo que com um atraso considerável. E, por mais que os estúdios lucrassem com a venda e aluguel de VHS, o segundo impacto foi inevitável. Mas o que tudo isso tem a ver com a velocidade do Box Office de agora? Tudo. Afinal, grandes mudanças ocorrem a longo prazo.

A grande questão é que, notando uma ligeira evasão do público dos cinemas, os estúdios resolveram com o passar dos anos encurtarem pouco a pouco a janela entre o lançamento nas salas de cinema e em home vídeo. O intuito, logicamente, era ter um outro retorno em cima do mesmo investimento em pouco tempo para cobrir o buraco formado pelo afastamento da plateia. E o que antigamente chegara a alcançar um ano, hoje pode chegar a três meses. O motivo é simples. Com o terceiro choque que a indústria sofreu (a internet), o tempo de permanência de um filme nos cinemas se tornou um problema. A rede possibilita o compartilhamento e o download de filmes em massa a partir de uma única cópia original comprada – ou, em certas vezes, registrada durante projeções. Ainda, é importante atentar ao fato de que nas primeiras semanas de exibição até 90% do valor pago nos ingressos é revertido para os criadores dos filmes; da quarta semana em diante isso cai para até 30%. O resultado foi um apressamento da chegada dos filmes às prateleiras em DVDs e blu-rays para que um lucro maior (antes conseguido só com bilheterias) fosse gerado antes que a internet destruísse boa parte das chances.

Piratas do Caribe, a única série com dois filmes no top 10 das bilheterias
Piratas do Caribe, a única série com dois filmes no top 10 das bilheterias.

A bem da verdade é que hoje as pessoas vão bem menos ao cinema. Se antes um interesse mínimo de ver um filme já era motivo para arrastar a família para os complexos de rua, hoje apenas uma grande ansiedade (ou profundo respeito pela arte e apego à qualidade) move alguém até uma prolongada espera em estacionamentos de shopping centers e filas astronômicas para comprar ingresso (ou você acha que todo mundo tem o privilégio de poder comprar pela web?). Até porque, tudo estará disponível de graça em alguns meses – talvez semanas – na internet. Triste, mas real. A solução encontrada pelos estúdios foi recorrer, assim como na década de 50, àquilo que o grande público não tem em casa. No caso, o 3D. O que provavelmente virá abaixo assim que as TVs e blu-ray players no formato ganharem as páginas do carnê das Casas Bahia.

O 3D salgou o preço? Sim. Muito? Nem tanto. Há quem diga que o fato de filmes como Alice no País das Maravilhas e Harry Potter 7.2 terem atingido 1 bilhão de dólares de bilheteria se deve unicamente ao 3D. Será mesmo? Se você for parar para se lembrar, você provavelmente deve ter pago cinco reais na meia entrada de fim de semana para assistir ao Retorno do Rei em 2003. Hoje, com menos de sete reais você não consegue ver a versão 2D do último Harry Potter na quarta-feira (isso tomando por base um valor médio das grandes cidades, fonte de maior arrecadação). Trocando por miúdos, está claro que para fazer 1 bilhão, o último O Senhor dos Anéis precisou levar mais pessoas ao cinema do que o último Harry Potter. Então, não, não é mérito apenas do 3D. Cinema está muito caro, não importa o formato de exibição. Por outro lado, isso não quer dizer que se O Retorno do Rei tivesse sido lançado em 3D na época seria até hoje o mais lucrativo da história, superando Avatar (uma bizarrice que ouvi por aí). Até porque um lançamento em 3D garante a um filme apenas 25% a mais na sua arrecadação total, então não teríamos passado de 1,3 bilhão com tal filme. E, seguindo essa porcentagem, caso HP7.2 tivesse sido lançado apenas em 2D, não estaria muito longe de fazer 1 bilhão neste exato momento em que ainda está entrando no seu segundo mês de exibição.

Jurassic Park, a maior bilheteria do cinema até 1997
Jurassic Park, a maior bilheteria do cinema até 1997

O que se percebe é que produções com grande apelo antes de suas estreias são a carta na manga dos estúdios. Longas como Piratas do Caribe, Transformers, Batman, Harry Potter e O Hobbit são garantia de muitos lucros. Cabe às distribuidoras investirem em marketing massivo para potencializar isso. E, somado ao fato de que os valores em ingressos-padrão (sem 3D, sem 4K, não IMAX) já estão caros de qualquer maneira, toda produção aguardada vai dar um retorno expressivo no Box Office. Não é à toa que precisamos esperar de 1997 (Titanic) até 2003 (SdA 3) para vermos um segundo filme entrar no seleto grupo dos bilionários, mas três anos depois o terceiro longa (Piratas do Caribe 2) já estava lá. E em 2010 duas produções (Toy Story 3 e Alice) conquistaram esse espaço. O mais impressionante: na semana passada, dois filmes (HP 7.2 e Transformers 3) garantiram seus lugares.

Com esses resultados, a impressão que o público tem é que o Cinema está muito mais forte e atraente do que antes: toda hora tem filme gerando bilhões (o que acaba sendo uma publicidade muito favorável para a indústria). Quando, na verdade, o que se vê é um punhado de altos investimentos em filmes medianos (observe o top 10 e veja quais daqueles filmes são realmente bons. Eu diria que apenas metade) aliado a um valor exorbitante de ingressos que culminam em um valor que não reflete o nível da procura como antigamente.

Com 1 bilhão "apertado", Alice no País das Maravilhas é certamente uma arrecadação grata ao 3D
Com 1 bilhão “apertado”, Alice no País das Maravilhas é certamente uma arrecadação grata ao 3D

No entanto, assim como a indústria fonográfica, o Cinema sofre com a tecnologia que tanto o ajuda a se aprimorar. E, assim como já mencionado, a internet e os equipamentos domésticos contribuem para um desgaste. Se hoje é preciso vender muito menos para ganhar um Disco de Platina (e os artistas não são desmerecidos por isso), o mesmo vale para uma entrada no top 10 mundial. Os tempos são outros, o perfil do público mudou. Ignorar o fato de que longas artisticamente tão distantes um do outro como Transformers 3 e Harry Potter 7.2 fazem agora o mesmo sucesso que Star Wars fez outrora (nas suas proporções cabíveis e atualizadas, lógico) é negar o óbvio. Afinal, em seus respectivos anos, sujeitos à sua respectiva economia e tendências globais, estes longas alcançaram o máximo possível em seu ambiente de venda. E quantos filmes mesmo passam dos 500 milhões hoje?

por Arthur Melo.