Oscar – Um Dossiê

Oscar – Um Dossiê
por Henrique Negrini e Virgílio Souza

Desde que foi anunciada a relação de produções indicadas ao Oscar, o que se viu foi um turbilhão de críticas com relação aos concorrentes ao prêmio de Melhor Filme, o mais aguardado da noite.

Público e crítica questionaram a competência da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, que decepcionou ao tentar abarcar um maior número de filmes em seu maior prêmio, relacionando dez produções em vez das tradicionais cinco. Um número tão grande de filmes não era relacionado desde a premiação de 1944, vencida pelo clássico Casablanca. Por mais que rompesse com uma tradição de décadas, a tentativa da Academia tinha um propósito claro: evitar ausências de produções elogiadas como as de Batman – O Cavaleiro das Trevas e Wall-E em sua última premiação. A primeira impressão, no entanto, era de que o tiro havia saído pela culatra.

Ainda que fãs de todos os gêneros tenham sido agraciados com as variadas indicações, parece evidente o fato de que grande parte das produções relacionadas não teria vez em outros anos da premiação. O enfraquecimento da categoria pode ser explicado de várias maneiras, sem que haja, de fato, uma razão única e clara. Parte da crítica alega que a Academia conseguiu a infeliz proeza de deixar de lado alguns filmes que poderiam, mesmo sem sair do Kodak Theatre com o prêmio em mãos, ao menos fazer uma figuração de maior qualidade – casos dos esquecidos Invictus e Star Trek e do ignorado (500) Dias com Ela. Há ainda os que contestam a inclusão de películas como Um Sonho Possível, Um Homem Sério e Up, que mais parecem desvios na costumeira qualidade dos indicados. De todo modo, surge a dúvida: será essa edição a pior dos últimos anos, qualquer que seja o filme vencedor?

Tomando como base essa pergunta, nossa equipe de especialistas e colaboradores foi atrás da resposta.

Método: Analisamos os 5 indicados a Melhor Filme nas últimas dez edições do Oscar de acordo com as notas atribuídas a eles por usuários e organizadores do Internet Movie Database (IMDb), do Rotten Tomatoes e do nosso parceiro Filmow. Assim, calculamos a média para cada um dos filmes e, em seguida, definimos a média final de cada ano da categoria, somando as notas finais dos indicados e dividindo o resultado por cinco, o número de filmes. Ainda que não representem a verdade absoluta, os números possibilitam algumas conclusões, que você confere a seguir.

(CLIQUE NAS IMAGENS PARA VER O RESUMO DO ANO NA PREMIAÇÃO)

A edição de 2001 foi, de longe, a pior dentre as últimas dez premiações do Oscar. Nem estrelas do calibre de Russel Crowe, Johnny Depp, Julia Roberts e Benicio Del Toro aliadas às lutas acrobáticas de O Tigre e o Dragão foram capazes de livrar a edição da desonrosa última posição. Nenhum dos cinco indicados atingiu nota superior a 8 pontos, deixando a média geral em míseros 7.63. O épico Gladiador, vencedor naquele ano, possui a pior nota entre todos os ganhadores recentes: 7.76.

Na penúltima posição do nosso ranking, aparece a edição mais recente do Oscar. Apesar de contar com grandes atuações como as de Sean Penn (Milk) e Kate Winslet (O Leitor), o ano de 2009 premiou o contestado Quem Quer Ser Um Milionário? e deu indicações a Frost/Nixon e O Curioso Caso de Benjamin Button, ambos bons filmes, mas sem o “algo mais” necessário para brilhar na premiação. Consideravelmente inferior aos anos anteriores, a edição de 2009 deveria ser esquecida para sempre nos confins da Índia.

Com média de 7.70, o vencedor Crash aparece como o pior dos premiados recentes. Além disso, conviverá para sempre com a sombra de O Segredo de Brokeback Mountain, que obteve média superior a todos os concorrentes, mas não levou o prêmio. Crash é, ainda, a produção com a pior nota dentre os indicados em 2006 ao lado de Munique. Os outros dois indicados foram meros figurantes na premiação, exceção feita ao prêmio de Melhor Ator dado a Philip Seymour Hoffman, de Capote.

Não é fácil criticar a premiação de um ano em que aparecem como indicados À Espera de um Milagre, O Informante e O Sexto Sentido. Mais difícil ainda é criticar um ano que consagrou Beleza Americana e que deixou Clube da Luta fora da relação dos cinco melhores. Ainda assim, a edição de 2000 aparece como a quarta pior em nosso ranking. Uma das razões é a inclusão de Regras da Vida, que, com a pior média dentre todos os indicados recentes (baixíssimos 7.00 pontos), fez com que a nota geral caísse consideravelmente.

O grupo de indicados em 2005 é certamente um dos mais desequilibrados dos últimos anos: vai de Menina de Ouro (8.5) a O Aviador (7.4), passando por Em Busca da Terra do Nunca (8.1), Ray (7.7) e Sideways – Entre Umas e Outras (7.8). Tamanho contraste de qualidade entre as cinco melhores produções faz com que essa edição do Oscar apareça na metade de nosso ranking. Sem surpresas.

2002 marca a chegada de um fenômeno ao Oscar: o primeiro filme da franquia O Senhor dos Anéis foi indicado a treze prêmios (venceu quatro deles) e alcançou a terceira melhor nota dentre todos os indicados recentes (8.6), maior até que a do vencedor e premiadíssimo Uma Mente Brilhante. O ponto negativo da edição é Assassinato em Gosford Park, que contribuiu negativamente para a média geral ao marcar apenas 7.2 pontos. Moulin Rouge e Entre Quatro Paredes receberam notas dentro da normalidade (7.9 e 7.8, respectivamente).

Na edição de 2003, o musical Chicago (7.7) desbancou As Duas Torres (o segundo filme da série O Senhor dos Anéis) e O Pianista, ambos detentores de notas muito maiores que o filme premiado pela Academia (8.7 para o primeiro e 8.5 para o segundo). Em nenhum outro ano a Academia indicou dois filmes com notas tão altas. Gangues de Nova York (7.1) foi o responsável por diminuir a média geral daquela edição, que ainda contou com As Horas (7.6).

A edição de 2008 tinha muitos dos ingredientes necessários para ser a melhor dos últimos tempos, mas Conduta de Risco não era forte o suficiente e Onde Os Fracos Não Têm Vez parecia não ter caído tanto nas graças do público quanto da Academia, que o escolheu como Melhor Filme. Tanto Desejo e Reparação quanto Juno obtiveram melhores notas que a produção premiada (ambos levaram 8 e o filme dos Coen ficou com 7.9). Sangue Negro também ajudou a alavancar a média dessa edição, alcançando impressionantes 8.5 pontos.

Embora incluísse filmes não tão badalados ou elogiados – casos de Seabiscuit e Mestre dos Mares –, a edição de 2004 contava com os ótimos Sobre Meninos e Lobos e Encontros e Desencontros, além do megalomaníaco encerramento de O Senhor dos Anéis, que obteve a maior nota (8.8) dentre todas as produções desde 2000 e levantou a média geral. Apesar da diferença abissal de nível entre os concorrentes e das críticas feitas a dois dos indicados, não há argumentos para contestar o alto nível da premiação.

O elenco estelar de Os Infiltrados, a solidez na direção de Cartas de Iwo Jima, o ritmo empolgante de Pequena Miss Sunshine, as maravilhosas atuações de A Rainha e o já tradicional mosaico de histórias de Babel tornaram a premiação de 2007 aquela com a maior nota geral dos últimos dez anos. Nenhuma das produções indicadas superou 8.2 na avaliação, mas somente uma delas (Babel) teve nota abaixo de 8 pontos. O alto nível das produções e a ausência de grandes desníveis de qualidade tornariam justa e coerente qualquer que fosse a escolha da Academia, que optou por premiar um filme de Martin Scorsese pela primeira vez na história.

É possível que o implacável poder do tempo tenha grande influência neste resultado, uma vez que filmes feitos há menos de uma década ainda não conseguiram um lugar na estante de clássicos intocáveis, com notas beirando a perfeição (salvo exceções como O Senhor dos Anéis); e que filmes recém saídos do forno ainda estejam frescos na memória, contando com o efeito positivo do estrondoso impacto que causaram (falamos, mais que nunca, de Avatar).

O aumento no número de produções indicadas ao prêmio mais importante da Academia possibilitou a inclusão de títulos que não concorreriam se os moldes antigos ainda estivessem vigentes. Ainda assim, alguns dos filmes com as piores avaliações neste ano – Preciosa, Um Homem Sério e Educação – possuem médias melhores que as dos vencedores de 2001, 2003 e 2006. Um Sonho Possível, o pior dos indicados de 2010 (média 7.3), é um figurante como tantos em outras edições do prêmio, mas ainda consegue ser equivalente ou superior a várias produções relacionadas nos últimos dez anos. Como figurante que é, em nada deve a alguns filmes premiados pela Academia.

Com médias idênticas, Distrito 9 e Amor sem Escalas brigariam pela última vaga caso o número de indicados tivesse sido mantido em cinco – e um deles, obviamente, teria de ser excluído. Qualquer um deles que ficasse de fora, contudo, teria média consideravelmente superior aos padrões da premiação. A nota 8 é igual ou superior à metade dos vencedores dos últimos dez anos. Seria, portanto, suficiente para levar o Oscar para casa.

Consideradas somente as cinco melhores médias (Up, Bastardos Inglórios, Avatar, Guerra ao Terror e Distrito 9/Amor sem Escalas), a diferença de pontos entre 2010 e os demais anos aumentaria ainda mais – a média geral iria de 8.03 para 8.26, algo impensável em qualquer uma das edições recentes.

Em um ano recheado de fortes críticas à Academia, tanto pela mudança no número de indicados quanto em função das produções relacionadas, números como esses são o suficiente para que todos os fãs de cinema – diplomados ou não – se rendam ao conjunto de indicados. As críticas a um ou outro filme são naturais e, muitas vezes, coerentes. Entretanto, o fato é que, se a lógica for seguida, a premiação do próximo dia 7 de março será a de mais alto nível nos últimos dez anos. E você acompanhará todos os detalhes aqui no Pipoca Combo.