Preço e qualidade: O perfil dos filmes em DVD e Blu-Ray no Brasil

Em meados de 2001, o mercado de Home Vídeo no Brasil sofreu um grande boom. Com a proliferação dos aparelhos de DVDs e o começo das quedas de preços das TVs maiores (porque ter um televisor de 29 polegadas era um luxo para poucos), as videolocadoras e lojas de departamentos tiveram um aumento significativo em suas transações. Os motivos eram bem claros. O DVD tinha uma qualidade de som e imagem muito superior ao VHS, sem contar com a praticidade do uso (não ter de se preocupar se é legendado ou dublado, nem ter de rebobinar ou de se preocupar se a fita já está “gasta” de tanto que foi alugada) e a estocagem (são mais leves e menores, um alívio para as prateleiras) foram quesitos que só impulsionaram as vendas deste formato que, na época, ainda custavam quase o dobro dos VHS.

Para convencer quem ainda estava relutante em ceder ao formato dos sósias dos CDs, uma preocupação com a estética dos produtos foi acrescentada pelas distribuidoras. Embalagens que eram verdadeiras obras de arte se comparadas as rígidas fechaduras de plástico (que insistiam em rachar na primeira queda), detalhes em relevo e até materiais especiais dentro das caixinhas fizeram com que muita gente abandonasse o quanto antes o vídeocassete. Blockbusters chegavam em edição dupla com os antes raríssimos making-offs e os lançamentos de shows e musicais chegaram a sobrepor a vendagem de CDs nas classes A e B.

Com o passar do tempo, o mercado sofreu uma transformação drástica. A mídia se popularizou. Como consequência, a pirataria em cima dela também. E os problemas começavam a dar os primeiros sinais. Com a vendagem de produtos clandestinos aumentando em P.G. e o esvaziamento das prateleiras dos originais nas lojas progredindo em P.A., as distribuidoras tinham que confiar cegamente no bom gosto de quem prezava por uma qualidade total; do conteúdo à embalagem. A princípio, essa parecia ser a atitude, mas não foi o que se sustentou por muito tempo.

Logo as belas embalagens começaram a ceder espaço para as Amaray de plástico (a caixinha “padrão” dos lançamenos em DVD hoje – foto ao lado) e uma falta de informação dos produtores para com o público causou uma revolta contra o formato de tela widescreen (que muitos acreditavam serem faixas pretas inseridas em cima da imagem, e não uma manutenção do formato original de cinema, prezando exatamente uma quantidade maior de informação visual na tela).

Hoje, o mercado de home vídeo no Brasil é totalmente heterogêneo. Cada distribuidora tem a sua própria postura de venda, marketing e embalagem de seus produtos. Quem não se lembra das belíssimas primeiras edições em DVD Duplo da trilogia O Senhor dos Anéis e dos dois primeiros filmes da série Harry Potter, com caixinhas de papelão que valorizavam um excelente trabalho de direção de arte e que já pagavam pelos R$ 49,90 (preço de tabela, à época) dos discos duplos? Pois é. Os terceiros filmes das duas séries mencionadas já chegaram em Amarey, apenas com uma luva de papelão (que também desapareceu nas remessas seguintes), descontinuando um trabalho primoroso de duas produções recordistas de bilheteria. A saga do mago de J.K. Rowling, aliás, amargou durante anos em um formato de tela fullscreen, mesmo sob os inúmeros protestos dos fãs (o primeiro volume em widescreen só chegou a ser lançado em 2009, com Harry Potter e o Enigma do Príncipe. Sim, 2009, em pleno amplo circuito da alta-definição).

harry-potter-e-o-prisioneiro-de-azkaban-fullscreenO Fullscreen de Harry Potter 3, como nos DVDs brasileiros. O quadrado azul corresponde ao que é visível na tela. Clique na imagem para mais exemplos.
A antiga edição de O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel. O mesmo padrão fora aplicado em As Duas Torres e nos dois primeiros filmes Harry Potter.

Mas se os títulos da Warner Bros. sofreram problemas na embalagem e no formato do conteúdo, os filmes aqui lançados pela Walt Disney Home Entertainment, nos últimos anos, conseguem o troféu de lástima. Até 2006 a distribuidora parecia interessada em uma qualidade muito superior às demais. Claro, com seus altos e baixos e isso se revelando em alguns lançamentos isolados, mas ainda o fazia (o que é bastante coisa). Naquele ano, a distribuidora jogou às lojas um trabalho elogiável no DVD Duplo de Piratas do Caribe – O Baú da Morte. Além de manter todos os extras (incluindo Easter Eggs) da versão original americana, imprimiu na sua embalagem um empenho igual àquele visto nos louros anos da Warner Bros. com as séries Potter e Senhor dos Anéis. No ano seguinte, com Piratas do Caribe – No Fim do Mundo, já dava um passo regressivo. Usou o formato Amaray, cujo único atrativo era a luvinha com impressão em alto-relevo em tinta metalizada. Ainda superior ao padrão brasileiro, mas infeliz opção. Já em 2008, o ápice: Wall-e, uma da mais aclamadas obras da animação, chega em sofríveis versões: DVD simples (com uma embalagem fina de papelão super vulnerável apesar do trabalho em alto-relevo e metálico), DVD simples + CD da trilha sonora ou DVD simples + game para PC – estas duas mais caras. Uma jogada diferente, criativa até certo ponto, mas puramente comercial. De fato, o público infantil (que na verdade nem gostou muito de Wall-e, a adoração veio pelos mais crescidos) se sentiria muito satisfeito com um filme e um game. Mas um CD de trilha sonora instrumental, para crianças, é de uma falta de visão ímpar. A plateia adulta, que adorou o longa, fingiu satisfação com a edição simples, sem nenhum extra, muito diferente do posto à venda no mercado dos EUA. Isso sem mencionar que a Edição Dupla de As Crônicas de Nárnia, maior bilheteria do estúdio em 2005, nem se ouviu falar no Brasil – fãs da série para comprar tinham de sobra.

O bom trabalho com a edição em DVD de Piratas do Caribe 2, lançada em 2006

Neste ponto a Fox Home Entertainment se saiu menos pior. A única reclamação (ou a única significativa) foi a diminuição das embalagens para um padrão mais fino, o popular Slim, instaurado em 2007. O pretexto era que você teria “mais espaço na prateleira para guardar seus filmes”, quando, obviamente, a redução de custos gritava em som 5.1 para o comprador. Ainda assim, o formato de tela widescreen jamais deixou de ser empregado em título algum e edições duplas, quando possíveis, sempre foram lançadas nacionalmente. Contudo, o público tem apontado constantemente erros grosseiros quanto ao nível qualitativo da estética dos produtos – não só da Fox. Os exemplos mais recentes foram os lançamentos das Edições Definitivas de Harry Potter Anos 1, 2, 3 e 4 em DVD e a Edição Estendida de Avatar em Blu-Ray, cuja comparação com a versão brasileira e norte-americana, feita pelo Davi Garcia, do Dude News, você pode acompanhar aqui.

Entretanto, nos últimos anos, especialmente os que precederam o estouro dos Blu-Rays, a Universal e a Paramount fizeram melhor. Todos os seus títulos mais populares receberam as mesmas edições duplas que os EUA, tantas vezes vindo em embalagens revestidas por luva em alto-relevo e/ou tintura metalizada, apesar do invólucro principal ser o Amaray – algo que, em uma comparação por pontuação, coloca estas duas em uma vantagem significativa. De 2007 para cá, seus principais lançamentos receberam um cuidado especial: Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, Transformers 1 e 2, Kung Fu Panda e Homem de Ferro são apenas alguns exemplos.

Mas o que levou as empresas a terem atitudes diferenciadas umas das outras e, ainda, a optarem por um padrão qualitativo tão diferente destes produtos comercializados no exterior? Invariavelmente, custos. E uma pitada de falta de bom senso, em um certo caso isolado.

Pesquisas feitas por estas empresas anos atrás dentre compradores revelaram que o público brasileiro que adquire um título em DVD original vai comprá-lo de um jeito ou de outro, independente do formato da embalagem ou da quantidade de extras. O que não é nenhuma mentira. Qual o fã de Star Wars que vai deixar de ter a sua versão do filme “para vê-lo na sua casa quantas vezes quiser” (clássica frase do locutor dos VHS Disney)? Que tipo de fanático por Tolkien vai se negar ao prazer de rever a destruição do Um Anel quinhentas mil vezes? A questão é que, se pensarmos, estamos comprando um título em DVD pensando no seu núcleo, no caso, o filme. Se você não gosta de Crepúsculo, por que iria adquirir aquela fantástica lata com o pôster estampado, recheada de outros apetrechos? Sim, realmente é um produto bonito, mas que não instiga quem não divide a adoração pela saga. E aí as distribuidoras têm o que precisam: fregueses que só se importam com “o que”, e não com o “como”. Realmente, as pesquisas não mentiram. Afinal, a pergunta provavelmente foi direta. E, pense você com seus botões: Você deixaria de comprar o DVD ou Blu-Ray da sua série ou produção preferida só porque a embalagem não é como você gostaria ou não há extras suficientes? Provavelmente não.

Em uma outra pesquisa, essa isolada, a Warner Bros. chegou a conferir com o público infantil se ele preferia assistir a filmes em fullscreen ou widescreen. Como crianças realmente entendem de tecnologia e padrões de imagem, a resposta ao olharem para duas telas comparativas foi óbvia: fullscreen; a tela toda. Agora, se você realmente acredita que é o público infantil que tem o maior interesse pela franquia do Harry Potter e que isto é motivo para vender por anos DVDs com imagem mutilada, então você deve acreditar também que a Disney deveria recolher todas as suas animações das lojas – lançadas em widescreen desde sempre.

A questão dos formatos de embalagem ou do conteúdo disponibilizado dentro delas é, aliás, mais complexa do que parece. E neste ponto as empresas já têm uma parcela de culpa bem menor, por mais difícil que seja de acreditar.

Hegel Braga, Diretor de Marketing da Fox Home Entertainment, explicou para o Pipoca Combo como o mercado brasileiro de DVDs e Blu-Rays sofre com a gerência de custos. Sobre a escolha entra o lançamento de uma edição simples ou dupla de um filme tanto em DVD quanto em Blu-Ray, Braga comentou que esta opção varia segundo alguns fatores:

“Principalmente a existência de conteúdo extra que seja relevante. A inclusão de mais um disco gera custos adicionais, que precisam ser incorporados ao preço final ao consumidor. Por isso, essa avaliação deve levar em conta se esses extras têm valor percebido”.

Quando questionado sobre o porquê de a Fox ter optado pelas embalagens mais finas de DVDs nos últimos anos, muito criticadas por serem idênticas às embalagens dos produtos piratas, Hegel Braga foi direto: “As embalagens slim estão sendo descontinuadas”. E explicou também o que leva a Fox Home Entertainment a colocar seus produtos no mercado em um padrão diferente do norte-americano. Lembrado sobre a qualidade da embalagem da edição estendida em Blu-Ray de Avatar, já comentada acima e apontada na entrevista pelo Pipoca Combo como inferior ao produto norte-americano, Hegel Braga argumenta:

“O material da edição especial de Avatar não é inferior. O que acontece algumas vezes é que não há os mesmos modelos de embalagem e materiais aqui no Brasil que são usados nos EUA. Além disso, precisamos levar em conta a estrutura de custos e impostos, que no Brasil representam muito mais do que nos EUA. Se trabalharmos com material importado, corremos o risco de levar ao mercado um produto com preço fora da realidade do nosso consumidor”.

O que Hegel Braga expôs é pertinente e provavelmente reflete as aplicações também das outras empresas de home vídeo no Brasil. É bem verdade que nos EUA todos os lançamentos em DVD e Blu-Ray de grandes sucessos do cinema recebem, invariavelmente, embalagens sofisticadas e uma quantidade de extras e brindes às vezes maior, além de edições em gift-sets limitadas. E é verdade também que tudo isso chega às lojas a preços relativamente baixos (mais baratos do que os cobrados por aqui, mesmo fazendo a conversão do Dólar par o Real). No Brasil, isso não ocorre. Quando ocorre, chove por três dias ininterruptos no Agreste (e não cito aqui a edição estendida da trilogia O Senhor dos Anéis, cujo atraso não se deu a uma falta de interesse do nosso mercado, e sim por uma questão contratual da New Line Cinema com a Warner Bros. que só foi resolvida há pouco tempo). Mas deve-se levar em consideração que, mesmo havendo sempre um nicho interessado, o poder aquisitivo no Brasil ainda tem suas limitações, o que colabora com a pirataria. Se por um lado tornar os produtos nacionais mais atraentes seria uma arma poderosa contra a qualidade sempre inferior dos discos não-originais, o luxo seria uma pedra no sapato nas taxas de impostos, encarecendo ainda mais os DVDs e Blu-Rays que já são caros. A realidade é que, por aqui, cultura custa. E custa muito caro. Isso não é exclusividade dos DVDs e Blu-Rays.

O curioso é que, mesmo debaixo de argumentos que justificam a relação custo/benefício tão ingrata se compararmos o mercado dos EUA, encontramos exemplos que colocam a necessidade de altos preços em xeque. Tropa de Elite 2, maior sucesso registrado do nosso cinema, teve lançamento exclusivo em Blu-Ray por apenas R$ 29,90 em um espaço onde blockbusters ainda chegam em DVD duplo por R$ 44,90 e simples por R$ 39,90. A Rede Social, um dos mais premiados longas da última temporada, aterrissa nas lojas em Blu-Ray Duplo por R$ 59,90 e toda a série Harry Potter já custa R$ 39,90 cada um em Blu-Ray (sendo um deles duplo). Em contrapartida, o Blu-Ray Duplo de Homem de Ferro 2 ainda se mantém por R$ 89,90 e Crepúsculo continua a cobrar absurdos R$ 84,90.

Comprar um filme em Blu-Ray ou DVD no Brasil ainda é um caso a se pensar. Primeiro, porque o valor em DVD dos lançamentos atuais não se justifica em comparação aos Blu-Rays. Segundo, porque o mesmo longa em alta definição pode ser adquirido através de sites internacionais por um valor mais baixo e com uma qualidade estética superior (e muitas vezes com áudio e legendas em português). Contudo, o mercado nacional precisa vender para reduzir seus preços. A chegada da TV digital e a popularização gradual das telas FullHD já estão colaborando para os Blu-Rays baratearem, levando abaixo consigo o valor dos DVDs – 20% do volume de um lançamento da Fox no Brasil já é Blu-Ray, sendo que superproduções aclamadas têm uma participação ainda maior nesse formato, de acordo com Hegel Braga. O que não quer dizer que não seja preciso, sobretudo, que os produtores cedam um pouco mais para sustentar o – ainda – caro somatório de moedas a se desapegar no caixa.

por Arthur Melo.