Thor: Será que Vai?

Thor: Será que vai?
por Rafael Rodrigues

Ultimamente, o mundo do cinema anda sacudido com produções oriundas de HQs. A moda, que parece ter vindo pra ficar (mas eu duvido – falo mais sobre isso futuramente) se espalhou de forma tal que boa parte das notícias sobre cinema hoje envolvem adaptações de histórias em quadrinhos. Apesar de muitas dessas adaptações serem de personagens e HQs desconhecidos do grande público, muitos personagens icônicos prometem fazer sua estréia ou retornar à telona, e um deles é um personagem da Marvel Comics conhecido como Thor.

Dirigido por Kenneth Branagh, o filme faz parte da iniciativa da Marvel Studios (que agora é parte da Walt Disney Company) de criar um universo coerente de personagens que depois se reunirão no vindouro filme dos Vingadores, assim como acontece nos quadrinhos. Mas a grande pergunta é: Será que vai funcionar?

A pergunta é válida por diversos motivos. O principal deles é o fato de que Thor, diferente dos outros personagens da Marvel, não é um personagem originalmente criado nos quadrinhos. Thor, na verdade, é baseado no Deus de mesmo nome e em toda a mitologia nórdica. Em outras palavras, Thor é, antes de um super-herói, um deus.

Não que o uso de deuses seja um fato inédito nas HQs, muito pelo contrário. Personagens como Mulher Maravilha e Shazam possuem seus poderes derivados diretamente dos deuses gregos, a história do Gavião Negro e da Mulher Gavião estão atrelados à mitologia egípcia, Hércules é um personagem recorrente no universo Marvel (e hoje ocupando uma revista própria bastante popular na editora – lá nos EUA) e não podemos deixar de mencionar também os deuses criados dentro dos próprios universos de HQs, como Galactus, O Vigia, os Guardiões do Universo e os Novos Deuses. Além disso, a maioria dos super-heróis de quadrinhos são, em essência, releituras de mitos das civilizações antigas (Superman é uma nova visão do messias cristão – que desceu à terra com poderes além dos humanos e foi criado por um humilde casal para se tornar o salvador da humanidade, Lanterna Verde é uma nova versão do mito de Prometeu – que roubou o fogo dos deuses e o Quarteto Fantástico é a lenda de Ícaro e Dédalo – que tentaram deixar Creta voando em asas de cera, e Ícaro, ao se aproximar demais do sol, acabou tendo suas asas queimadas – numa roupagem mais voltada à ficção científica).

Todos esses elementos são comuns nas histórias em quadrinhos, mas será que eles serão bem sucedidos numa produção cinematográfica, como no caso de Thor? Há quem defenda que não há muito com o que se preocupar a respeito de um filme do Thor. Afinal, temos aí a trilogia O Senhor dos Anéis para provar que um épico fantástico com pretensões mitológicas podem ser produções muito bem vindas pelo público e pela crítica – além de muito rentáveis para os produtores de Hollywood. Mas, no caso do deus do trovão, o buraco é um pouco mais embaixo.

O Thor da Mitologia

Primeiramente, o Thor da Marvel não é exatamente o Thor da mitologia. O Thor nórdico também era um deus que representava o trovão e as tempestades, filho de Odin, residente no mundo mítico de Asgard, e detentor do poderoso machado Mjolnir. Mas o Thor da Marvel tem suas originalidades. O deus do trovão dos quadrinhos, em sua adolescência, era arrogante, impulsivo, obtuso e uma falha grave ao desobedecer a um tratado direto de seu pai. Por essa razão, Odin, percebendo que seu filho tinha muitas qualidades, mas carecia de humildade, decidiu castigar Thor enviando-o para a Terra (que os deuses chamam de Midgard) para conhecer o que era a dor e entender que só era realmente forte aquele que era humilde.

Assim, Thor foi enviado à Terra como Donald Blake, um médico manco de uma perna, que tinha todas as memórias de uma vida entre os mortais, mas não se lembrava de ter sido um deus. Por muito tempo, Donald Blake pensou ser apenas um homem comum, até que um golpe do destino o fez reencontrar o Mjolnir, a arma mística de Thor que só pode ser empunhada por ele mesmo ou por alguém de igual nobreza. Ao se transformar em Thor, primeiramente se pensou ser apenas alguém com os poderes do deus do trovão, mas um posterior encontro com Odin revelou que ele era realmente o deus propriamente dito. Após isso, Thor decidiu permanecer em Midgard (Terra), devido à afeição que passou a ter com os humanos, além de ter se apaixonado pela enfermeira Jane Foster.

Prometeu

A sinopse oficial do filme do Thor (estou excluindo o estranho boato sobre o roteiro do filme, que supostamente envolveria a morte de Odin e o exílio do deus do trovão) parece mostrar que a história da película seguirá fielmente o personagem da Marvel e não o deus nórdico. Até aí tudo bem, com um diretor do calibre de Kenneth Branagh, não é difícil imaginar um filme bem escrito, épico, e visualmente espetacular. Mas temos alguns pequenos “probleminhas” aí.

A produção de Thor, como eu disse no começo desse artigo, faz parte da tentativa da Marvel Studios de criar um feito até então inédito em produções cinematográficas: A criação de filmes onde seus personagens compartilham e fazem parte de um mesmo universo. A intenção é, no fim das contas, unir personagens como Homem de Ferro, Hulk, Capitão América e Thor num filme só formando a equipe conhecida nos quadrinhos como os Vingadores.

Donald Blake

Uma estratégia bastante interessante e muito incentivada pelos fãs, mas que tem em Thor a principal dificuldade de fazer a coisa funcionar. O motivo para isso é muito simples. A maioria dos personagens da Marvel tem origens ligadas à ficção científica, com embasamento mais “real” (guardadas as devidas proporções, obviamente), e isso foi ricamente explorado em produções como Homem de Ferro e Hulk (e provavelmente será assim também com o Capitão América). Dos personagens que devem fazer parte dos Vingadores, Thor é o único que está ligado diretamente à magia e à fantasia, fazendo com que o personagem se torne o mais deslocado dentre eles. Afinal, você consegue pensar no filme do Homem de Ferro ou do Hulk e imaginar um Deus chegando?

Pode parecer algo simples, mas a ingenuidade que permitiu essa união nas Hqs tem mais dificuldade de funcionar na telona. Principalmente porque estamos falando de Deuses de uma cultura muito específica num mundo que não acredita mais neles. Se formos considerar que atualmente o mundo é, em geral, cristão e monoteísta (acredita em apenas um único Deus) e uma pequena parte tem outras crenças religiosas que não são as crenças nórdicas, há que se perguntar como um filme irá abordar o surgimento de um deus nórdico na Terra sem que isso mude completamente a visão da sociedade sobre religião (uma vez que se “descobriria” que os Deus nórdicos existem de verdade). Pode parecer estranho, mas se isso acontecesse na realidade, provavelmente a sociedade passaria por uma profunda transformação, cujos resultados seriam imprevisíveis, mas que possivelmente envolveriam o desaparecimento das outras religiões conhecidas ou todo um renascimento espiritual em nível global. Essa seria a forma mais verossímil de abordar a questão e, se não for considerada dentro da produção, ela poderá soar falsa. É muito diferente você mostrar um homem capaz de criar uma armadura, capaz de se tornar um monstro, ou até um alienígena com superpoderes vindo do céu, e mostrar um Deus autodeclarado de uma religião que já não é mais cultuada hoje em dia.

É bem provável, é claro, que essas polêmicas questões sejam ignoradas completamente, e isso não é impossível de ser contornado (se as pessoas enxergarem Thor como apenas mais um super-herói como os outros, ao invés do verdadeiro Deus do Trovão, não haveria tanto impacto psicológico assim – isso só para citar um exemplo), mas ainda temos outra questão a considerar: a essência “mágica” de Thor em comparação com a essência “científica” dos outros personagens, qualidade que, apesar de não fazer tanta diferença nos quadrinhos, destoa completamente do conceito que a Marvel tenta estabelecer (heróis mais verossímeis e de fácil identificação com o espectador) e pode até colocar a perder todo o bom trabalho que a Marvel tem feito até aqui com seus filmes.

Só nos resta esperar. Temos um grande diretor, um grande elenco, uma história que aparentemente será fiel aos quadrinhos, e uma grande preocupação do estúdio em fazer tudo certo para não derrubar a franquia. Vamos torcer para que a Marvel continue com os pés no chão quando o assunto são as produções de seus personagens.

Curiosidades:

– No Universo Marvel, Loki é o principal vilão de Thor. Na mitologia Nórdica, os dois são grandes amigos, apesar de Loki ser alguém que vive colocando o deus do trovão em “altas confusões” (como diria o narrador da sessão da tarde).

– Os anglo-saxões deram o nome de Thor para a quinta-feira. É por isso que nos EUA, a quinta se chama Thursday (corruptela de Thor’s Day – dia de Thor), assim como os escandinavos chama de “Torsdag

– A mitologia nórdica tem sua própria versão do crepúsculo dos deuses, chamado Ragnarok. Nela, Thor está destinado a enfrentar Jormungand (também conhecida como Serpente Midgard), uma serpente criada por Loki que envolve a Terra. Ele também morre nessa batalha.

– Thor já apareceu em outras mídias: Nos anos 60, a Marvel produziu uma série de desenhos para a TV (cuja animação era tão tosca que hoje os fãs chamam carinhosamente de “desenhos desanimados”) de diversos personagens, como Homem de Ferro, Hulk e Thor. O personagem apareceu também em 88 no filme “O retorno do Incrível Hulk” (filme baseado na famosa série de TV), no desenho animado o Incrível Hulk, de 1996 e mais recentemente na animação direto para vídeo Hulk Vs, onde o gigante verde enfrenta o Deus do Trovão.