Um Ensaio sobre Quadrinhos no Cinema

Um ensaio sobre quadrinhos no cinema
Por Rafael Rodrigues

Atualmente, poucas coisas geram mais dinheiro em Hollywood do que as franquias baseadas em histórias em quadrinhos. Mas muito embora esse nicho de mercado esteja sendo exaustivamente explorado nos últimos anos, não é de hoje que Hollywood se interessa pela banda desenhada¹. Mas apesar de existir há mais tempo que o próprio cinema, foram poucas as vezes em que os quadrinhos realmente tiveram chance nas telas em gerações anteriores, e os motivos para isso são os mais diversos.

O cinema e as HQs² sempre viveram uma relação de amor e ódio, desde seus primórdios. Para quem conhece as etapas de uma produção de cinema, não é difícil perceber que, à primeira vista, quadrinhos parecem um estado intermediário do próprio processo cinematográfico. Mas quadrinhos são muito mais do que isso, tanto que hoje são conhecidos não oficialmente como “nona arte”. Já o cinema, reconhecidamente a sétima arte, embora tenha em diversos momentos de sua história desenvolvido obras originais, sempre recorreu à outras formas de arte para contar uma história. Usando geralmente a literatura, maior fonte de criatividade – ao menos nas primeiras décadas –, o cinema conseguia “dar vida” às histórias que antes ficavam apenas na imaginação do leitor. Mas levar histórias em quadrinhos para o cinema não era assim tão incomum.

Adaptações de quadrinhos são feitas há muito tempo. Nos anos 40, Superman já tinha uma série de desenhos animados feitos para cinema, que passavam antes dos filmes principais, com sucesso estrondoso. Batman também não ficava atrás, com uma série cinematográfica feita com atores reais em 49, assim como o Capitão Marvel.

Mas as adaptações sempre foram inconstantes, e um dos principais motivos era a qualidade das histórias. Primeiro, vamos deixar bem claro que histórias em quadrinhos não se referem apenas à histórias com super-heróis, e muito menos envolvem apenas histórias em quadrinhos americanos, embora seja justamente essa parcela do mercado que esteja tendo a maior atenção dos estúdios de cinema atualmente. Segundo, temos que levar em consideração que, apesar disso, o chamado “mercado de quadrinhos” como o conhecemos hoje tem apenas 70 anos, e o sucesso comercial das HQs se deve justamente pelo surgimento de um super-heroi, que também foi um personagem americano: Superman. E o fato é que, inicialmente, as histórias contadas nas HQs eram tão bidimensionais quanto os desenhos que ilustravam as obras.

Os quadrinhos (ou comics, como são chamados nos EUA) eram um entretenimento fácil e despreocupado para uma nação preocupada com recessão e com a guerra. Tudo o que queriam era ver o bem vencendo o mal num mundo preto-e-branco onde todos sabiam quem era o mocinho e quem era o bandido e o primeiro sempre vencia no final. Além disso, os quadrinhos também eram uma verdadeira máquina de propaganda antinazista, o que aumentou e muito o apelo dessa mídia entre os leitores e principalmente entre as famílias de soldados que lutavam na Segunda Guerra (ou seja, grande parte da América). Não eram tempos mais simples para a História, mas era para as histórias em quadrinhos.

Por essa razão, foram poucos os personagens que tiveram chance no cinema antes dos anos 70, e as poucas adaptações que se viam (mais para a TV do que para o cinema) eram Superman, Batman e Capitão Marvel, além de alguns personagens baseados em idéias de personagens em quadrinhos, mas criados diretamente para a TV (como o Besouro Verde). Mas os quadrinhos nunca haviam sido levados tão à sério até 79, quando foi lançado Superman – o Filme, de Richard Donner. Esta seria uma adaptação que deveria ter levado os filmes baseados em quadrinhos para outro patamar, mas a única coisa que fez foi popularizar o maior herói dos Estados Unidos mundialmente. Outras adaptações foram feitas, mas a qualidade da grande maioria era muito abaixo da média (Que o diga o filme estrelado pelo Doutor Estranho, personagem da Marvel Comics, nos anos 70).

Nos anos 80, os quadrinhos mudaram. O lançamento de obras ousadas para a época como The Dark Knight Returns³, The Killing Joke4 e Watchmen (que está ganhando sua adaptação a estrear em Março de 2009) mudaram a mentalidade do leitor e definiram um novo rumo para as histórias em quadrinhos como um todo. Agora era possível criar HQs com desenhos bidimensionais e histórias tridimensionais, ter personagens verossímeis e com profundidade. Era possível criar histórias inesquecíveis e, porque não dizer, mais maduras. Devido à isso, em 89 a Warner ousou e chamou Tim Burton para fazer um novo Batman, mais sombrio e mais parecido com o das HQs, o que levou à uma nova onda de adaptações de quadrinhos no período, embora o problema da má qualidade das adaptações (tanto em história quanto em produção) visto nas adaptações pós Superman – O Filme tenha persistido. Apesar disso, nessa época pudemos ver adaptações de histórias com personagens menores de quadrinhos, como Nick Fury (que teve um filme solo estrelado por David Hasselhoff), Spawn, Quarteto Fantástico (por Roger Corman e que nunca chegou nas mãos do público de tão ruim que era), entre outros. Mas a era moderna das adaptações de quadrinhos chegou na forma de uma adaptação bastante inesperada. Um “azarão”, digamos assim.

Em 1998, a New Line Cinema estreou um filme chamado Blade, The Vampire Slayer. O filme era a adaptação de um personagem obscuro da Marvel Comics (casa de personagens como Homem-Aranha, Homem de Ferro e X-men), um herói meio homem, meio vampiro, e que tinha como principal característica ter as habilidades de um vampiro e poder andar durante o dia. O curioso é que, desde sua criação nos quadrinhos, houve diversas tentativas de tornar o herói um estouro de vendas, todas sem sucesso. Mas Blade, o filme, chamou a atenção, não só do público, mas dos estúdios e editoras de quadrinhos, que finalmente perceberam que era possível fazer sucesso com um filme baseado em quadrinhos, desde que ele tivesse o básico: um mínimo de qualidade de história e produção (aparentemente, os executivos de Hollywood são meio lentos). Blade ainda teria 2 sequências de sucesso. O Sucesso de Blade levou a Marvel a investir em outros filmes, o que nos trouxe posteriormente X-men 1 e 2 e Homem Aranha. E, a partir daí, as adaptações de HQs viraram moda.

Atualmente os fãs de cinema e de quadrinhos têm a oportunidade de conferir um grande número de adaptações de HQs, não só de super-heróis, mas de diversos outros gêneros, como Ronin, Do Inferno, V de Vingança, Estrada para Perdição, Marcas da Violência, Constantine, e mais recentemente 300 e 30 dias de Escuridão, isso só pra citar alguns.

As adaptações de quadrinhos vieram pra ficar (ou enquanto durarem os estoques – e a paciência do público). Para os próximos anos podemos esperar Spirit, obra máxima do mestre Will Eisner, Watchmen, X-men Origins: Wolverine, X-men Origins: Magneto, Witchblade, Fathom, Capitain América: First Avenger, Ant-Man e Avengers, além da seqüência de produções de sucesso, como Homem de Ferro 2, Um terceiro Batman, Homem-Aranha 4, Estrada para Perdição 2, Superman: Man of Steel, e mais longas-metragens em animação diretos pra DVD como Wonder-Woman, Hulk Vs Teen Titans: The Judas Contract, Lanterna Verde, entre muitos outros.

E isso que eu nem mencionei as adaptações de quadrinhos japoneses…

Em tempo:
1. HQ: Abreviatura de Histórias em quadrinhos.
2. Banda Desenhada: O mesmo que Histórias em Quadrinhos.
3. The Dark Knight Returns: Traduzido aqui como “O Cavaleiro das Trevas” (Não confundir com recente filme homônimo, que não é uma adaptação dessa obra em específico), é uma obra que se passa no futuro, dez anos depois de Batman ter se aposentado e dos heróis terem desaparecido. Foi escrito por Frank Miller, que escreveu também 300.
4. The Killing Joke: Traduzido aqui como “A piada Mortal”, mostra o embate definitivo entre Batman e seu maior inimigo. Foi escrito por Alan Moore, que também nos deu Watchmen. O Cavaleiro das Trevas (filme) teve muitas cenas inspiradas nessa obra.