Universos em Expansão

Universo Marvel
Universos em Expansão
por Rafael Rodrigues

Adaptar histórias em quadrinhos de super-herói não é uma novidade para a sétima arte. Desde que dos seus primórdios, as indústrias do cinema e dos quadrinhos compartilham de uma relação bastante íntima, por assim dizer. Isto posto, é difícil imaginar que algo novo pudesse surgir das adaptações de quadrinhos considerando o variado número de produções já realizada e a quantidade de super-heróis que são, na verdade, plágios uns dos outros (Namor – Aquaman, Anjo – Gavião Negro, Arqueiro Verde – Gavião Arqueiro); felizmente, o cinema e os quadrinhos vem provando que sempre podem nos brindar com surpresas bastante agradáveis (como O Cavaleiro das Trevas, por exemplo).

Mas a verdadeira “revolução” nas adaptações de quadrinhos não estão exatamente na narrativa, no conteúdo ou nos efeitos especiais, e sim na coexistência entre os heróis. Desde que a Marvel Comics criou a Marvel Studios e passou a ter autonomia sobre as adaptações de seus personagens, a editora teve como consenso geral que seus personagens no cinema, assim como nos quadrinhos, fazem parte de um mesmo universo. Isso ficou claro em Homem de Ferro, quando tivemos a participação de Nick Fury ao fim dos créditos, convidando Tony Stark para fazer parte dos Vingadores, e em Hulk, onde Tony Stark conversa com o General Ross sobre os próprios vingadores. A partir daí, a tendência agora é que todos os filmes da Marvel (o que inclui Homem de Ferro 2, Thor e Capitão América) estejam, de uma forma ou de outra, coexistindo como parte de um mesmo universo.

Mas porque a Marvel nunca pensou nisso antes? Bom, não é uma questão de pensar, e sim de viabilizar o negócio. Antes da Marvel Studios ser fundada, cada personagem da Marvel era negociado à parte com outros estúdios, o que fez com que alguns personagens fossem vendidos para estúdios diferentes, inviabilizando a reunião destes. Ainda hoje temos, por exemplo, Homem-Aranha como propriedade da Sony e Quarteto Fantástico como propriedade da Fox, ou seja, por enquanto dificilmente veremos o Homem-Aranha como membro dos Vingadores ou o Quarteto Fantástico numa aventura conjunta com o Capitão América.

Embora participações especiais não sejam exatamente inéditas no cinema – Nos filmes da finada série de TV do Hulk já apareceram Thor e Demolidor – a Marvel, propositadamente ou não, inaugura uma nova tendência nas histórias em quadrinhos que permite aos fãs vislumbrarem algo que sempre almejaram ver em tela grande, ou seja, seus heróis reunidos em prol de uma ameaça maior, lutando entre si (uma “tradição” nas histórias de super-herói) e – porque não – no futuro adaptações de grandes sagas dos quadrinhos, como Guerra Civil.

É curioso observar, no entanto, que a DC Comics (casa de personagens como Superman, Batman e Mulher Maravilha) é, há muitas décadas, parte do Grupo Aol-Time-Warner, ou seja, desde muito tempo, todo o universo DC esteve nas mãos de apenas um estúdio. Então porque nunca vimos um filme da Liga da Justiça, ou Batman e Superman juntos no cinema, por exemplo? Bom, essa é uma questão complicada. Muitos atribuem isso à “burrice” da Warner ou a incapacidade de lidar com franquias tão importantes, e por um lado isso até pode ser verdade, mas não é bem assim que as coisas funcionam. Vale lembrar que filmes como Homem de Ferro ou Homem-Aranha só foram possíveis de serem realizados com certo nível de realismo (e sem que ficasse tosco) de poucos anos para cá; ou seja, muitos personagens da DC (como Lanterna Verde, O Caçador de Marte, só pra citar alguns) até poucos anos atrás não conseguiriam ter um filme decente, pois não se tinha a tecnologia para tal. Inclusive, a DC já tentou fazer uma série da Liga da Justiça, utilizando em sua maioria personagens de segundo (e terceiro, e quarto…) escalão, mas o resultado foi, sendo bastante generoso, lastimável.

Outro ponto a ser considerado é a inconsistência de alguns personagens frente a outros. Tanto DC quanto Marvel possuem personagens muito distintos uns dos outros e colocá-los juntos de forma verossímil em um filme seria uma tarefa extremamente difícil. Tarefa essa que só daqui a dois anos poderemos saber se poderá ser cumprida, com a estréia do filme dos Vingadores. Essa quase incompatibilidade entre os personagens ocorre porque, inicialmente – e principalmente na DC – os personagens não compartilhavam um mesmo universo.

Quando Superman surgiu, em 1938, ele era o primeiro e único super-herói existente. O personagem fez tanto sucesso que não demorou muito a surgirem outros (Flash, Lanterna Verde, Capitão Marvel, Gavião Negro, Mulher Maravilha). O que acontece é que, na época, não existiam Marvel e DC, e eram inúmeras as editoras que passaram a publicar seus próprios super-heróis. Esses personagens, então, não conheciam uns aos outros nem viviam no mesmo mundo. Com o tempo, no entanto, algumas editoras começaram a aproveitar o número de heróis que tinham para promover “eventos”, onde personagens se encontravam. A editora que mais se utilizou dessa característica foi a All-American Publications, que chegou ao ápice ao criar a revista All-Star Comics, que em sua terceira edição trouxe a reunião dos maiores heróis da editora e a criação da primeira equipe de super-heróis, a Sociedade da Justiça.

Após isso, a National Periodics (editora que logo viria a ser conhecida como DC Comics) passou a ganhar força e a comprar editoras menores (e algumas grandes), tradição que foi responsável por tornar a DC a maior editora de quadrinhos americana. Para “comemorar” a aquisição desses personagens, e apresentá-los para o leitor DC que talvez ainda não tivesse tido contato com o personagem, sempre eram realizados encontros com outros personagens “oficiais” da DC, como Batman e Superman. Inicialmente, cada editora comprada pela DC tinha sua própria “terra”, ou seja, era parte de um universo alternativo, paralelo ao universo DC “oficial”, isso contribuía para que não se precisasse explicar certas inconsistências relacionadas a mundos onde a magia não existe de mundos onde tudo era magia, e assim por diante. Nos anos 80, porém, a DC criou o mega-evento Crise nas Infinitas Terras e juntou tudo. A partir daí, todos os personagens faziam parte do mesmo universo DC “oficial”.

Então, mundos anteriormente incompatíveis passaram a ser um púnico mundo, onde deuses gregos conviviam com dogmas católicos, magia e civilizações alienígenas. Essas inconsistências criaram problemas que nos quadrinhos puderam ser contornados, por uma série de fatores. No caso do cinema, essas inconsistências se tornam muito mais evidentes e muito mais difíceis de serem contornadas de forma que não agrida a inteligência do espectador.

No caso da Marvel, a situação foi um pouco diferente. Apesar de alguns personagens terem sido adquiridos de outras editoras (como o Capitão América, por exemplo), de um modo geral, todos os outros foram criados já fazendo parte do universo Marvel tradicional e, portanto, já coexistindo entre si. Tanto que a grande maioria dos personagens famosos da editora possuem origens ligadas à ficção científica e à radioatividade (X-men, Homem Aranha, Hulk, Demolidor, Quarteto Fantástico, Homem de Ferro, entre outros). Tanto que, num filme dos Vingadores, usando-se os membros originais, o único mais inconsistente é o Thor, por ser o único diretamente ligado à fantasia e mitologia; os outros, todos estão ligados à ficção científica e podem perfeitamente serem encaixados numa mesma equipe, tendo até uma mesma “origem comum”.

No cinema, a Marvel deu o primeiro passo e já está se organizando no sentido de tornar seus filmes de heróis parte de um mesmo universo, o que tem acontecido, até agora com bastante eficiência (apesar de que ainda precisamos ver se o filme do Thor terá um saldo positivo nesse sentido). Já a DC parece estar finalmente correndo atrás do prejuízo, já que recentemente a Warner anunciou que vai dar prioridade aos seus filmes de heróis e pretendem uma estratégia semelhante à da Marvel Studios para que seus personagens compartilhem de um mesmo universo.

O grande problema, no caso da DC, não são só as inconsistências de seus personagens em si, mas também de seus filmes. Se analisarmos os filmes mais recentes dos grandes ícones da editora, Superman – O Retorno e O Cavaleiro das Trevas, iríamos nos perguntar: como juntar o Superman de Bryan Synger com o Batman do Christopher Nolan? A resposta mais provável seria: não tem como.

Primeiro, porque os dois filmes são de universos diferentes. Ao contrário da Marvel Studios, cujo desenvolvimento dos filmes solo dos heróis já parte do princípio que existem outros coexistindo, os dois filmes da DC são criados exclusivamente para aquele personagem. O Superman de Bryan Synger vive num mundo onde ele sumiu por cinco anos e ninguém seguiu seu exemplo, ninguém ganhou poderes, colocou uma capa e uma cueca por cima das calças e saiu por aí combatendo o crime. E no bat-universo criado por Christopher Nolan, bem, fica meio óbvio que é um mundo muito mais “realista” e onde superseres não existem; aliás, o diretor já comentou diversas vezes em entrevistas que esse é um universo onde não existe um Superman, pois se existisse, Bruce Wayne teria tomado decisões bem diferentes sobre o que fazer da sua vida.

Mesmo já existindo filmes de equipes bem sucedidos (como X-men e Quarteto Fantástico), vale lembrar que estes não contam, pois os personagens já foram criados como parte da equipe, o que facilita a história ficar mais uniforme. Então, seja como for, a verdadeira prova de fogo para tudo isso será, sem dúvida nenhuma, o filme dos Vingadores. Se o filme for bem-sucedido, ele possibilitará uma série de outros formatos de filmes, não só de outras superequipes como a Liga da Justiça, mas também encontros entre dois ou mais personagens específicos (Superman e Batman, que já querem fazer há tempos, por exemplo) e até, como já disse no começo desse artigo, adaptações de grandes sagas DC e Marvel, como Crise nas Infinitas Terras ou Invasão Secreta (ou que, sabe, num futuro, até um crossover Marvel X DC?). O céu é o limite, para o caso de tudo correr bem.

Agora, se a adaptação não for bem sucedida, bem… Provavelmente sepultará todas essas possibilidades antes mesmo delas serem postas no papel…