CRÍTICA: As Crônicas de Spiderwick

Aventura
// 27/03/2008

É difícil fugir do grande lugar comum que é o cinema atual. Refilmagens, continuações, séries ressuscitadas, adaptações. Em muitos casos (ou na maioria, na verdade) essa atitude gera transtornos, frustrações para o público e produtores (o que gera a alegria da crítica) e algo muito próximo do prejuízo aos estúdios. Este é o reflexo da falta de criatividade e quantidades exorbitantes de fontes, por vezes literárias, inexploradas. Dentre todos esses malefícios, As Crônicas de Spiderwick só corre o risco de padecer no último.

As Crônicas de Spiderwick
por Arthur Melo

Não é segredo que as séries Harry Potter e O Senhor dos Anéis alavancaram um novo seguimento (ou ao menos renovaram-no do esquecimento) cinematográfico que nos últimos 7 anos tem gerado bilhões aos cofres. Mas também não é verdade que todas alcançam o êxito. Muitas possíveis franquias foram canceladas por tentarem atingir o grande e concentrado público desses dois mega-sucessos, sacrificando a própria identidade cultural. Spiderwick não cometeu tal engano leviano. Acreditar em sua história, fórmula e distinguir seu público do alheio, por mais similares que aparentam, é uma arte tão célebre como o trabalho de um filme em si.

Baseado nos cinco livros da série homônima, escritos em parceria por Tony DeTerlizzi e Holly Black, o longa não captura o espectador pelo topete logo de cara. O que é arriscado, porém, involuntário. Spiderwick se desenvolve ao longo e só mostra a que veio quando prova seu real valor fantástico (no sentido literal da palavra) ao observar que nem sempre é válido sair do círculo de proteção estabelecido por obras anteriores: manter os padrões infantis sem crucificar a técnica (ainda que no meio termo) e fugir de sua própria verossimilhança. Trocando em miúdos, satisfaz os pequenos e mantêm os adultos confortáveis em seu lugar sem reclamar. O que não deixa de ser interesante. Não que os atuais filmes de fantasia deixem de fazer o mesmo, mas o diretor Mark Waters teve cuidado ao revisar o roteiro tão fechado e ilimitado.

É evidente que alterações e exclusões de passagens de um livro são necessárias. Os motivos nunca foram escondidos. Primeiro porque há um tempo limite de fita a ser obedecido e segundo porque antes de mais nada, cinema e literatura são linguagens totalmente diferentes. Por sorte, Karey Kirkpatrick, David Berenbaum e John Sayles entenderam o recado ao escreverem um roteiro tão fino e coerente, sem ramificações desnecessárias. De fato a alteração no clímax da história foi semi-brutal, mas não chega nem perto de prejudicar a trama da adaptação. O script fala por si só e demonstra sua qualidade ao utilizar os efeitos especiais apenas quando necessários.

Não que este seja o único aspecto que valorize o filme. O elenco possui química familiar e convence. Por sinal, Freddie Highmore alcança o mais difícil: corresponder consigo mesmo. Claro que interpretar dois personagens já não é mais mistério para quem possui talento nato, mas a postura veterana e altamente qualificada do garoto de 15 anos é visível e com poucos pode ser comparada. Sua relação entre os personagens é habilidosa para separar e unir. Delimita a linha que separa seus interpretados sem jamais cruzá-la, deixando explícito a olho nu quem é quem (dispensando a diferença pelo figurino, evidentemente), ao passo que dialoga e contracena com sua imagem sem deixar vestígios de sobreposição de imagens.

Não se pode dizer, apesar de seus bons feitos, que As Crônicas de Spiderwick é um grande filme. É ausente de colaboração para o aperfeiçoamento do padrão hollywoodiano, até porque não ousa inovar – um exemplo disso é a trilha reciclada de James Horner de  reutilizada em suma em alguns momentos ou na pré-elaboração do tema central. Contudo, naquilo que já foi feito por muitos, a direção soube refazer em outros aspectos muito bem. Não há cenas memoráveis ou grandes seqüências fabulosas de efeitos visuais desenvolvidas pelos magos da Industrial Ligh & Magic – no que diz respeito a este quesito, eles até possuem bons desenhos, mas pouca textura. Para os cinéfilos pode ser apenas mais uma simples e boba adaptação literária. Entretanto, se for de um bom entretenimento familiar de qualidade que estamos falando, então temos muito mais do que um livro de campo nas mãos para guardar.


The Chronicles of Spiderwick (EUA, 2008). Fantasia. Paramount Pictures.
Direção: Mark Waters
Elenco: Freddie Highmore

Comentários via Facebook