CRÍTICA: Batman – O Cavaleiro das Trevas

Ação
// 21/07/2008

É uma verdade absoluta que a alegria de muitos críticos é um filme ruim, cheio de defeitos que podem ser listados e comentados com humor ou desprezo, gerando o riso em alguns leitores e diversão dos mesmos. Só que melhor ainda é se deparar com uma obra em escala máxima, que invalide qualquer sessão de qualquer filme que esteja sendo exibido no mesmo cinema. Surpresa ou não, Batman – O Cavaleiro das Trevas impressiona por apresentar uma proposta de herói que contrasta com o visto atualmente no cinema, assim como o herói moderno faz com o clássico, na literatura.

Batman – O Cavaleiro das Trevas
por Arthur Melo

Detentor de tantos alvos para elogios, é difícil mirar em apenas um. O roteiro linear sem falhas e furos beira a perfeição, a visão do diretor exibe realismo e a autenticidade artística do elenco é obra do brilhantismo. Executado com primor, o filme insere diferentes impactos ao longo de suas duas horas e meia. O primeiro e mais importante está no prólogo: a primeira imagem vista, Gotham pacífica e iluminada pelo dia, é uma relação clara com o trabalho feito pelo Batman, que contrapõe com o clima obscuro e sombrio visto em “Begins”; a engrenagem que move a trama.

É nesta iluminação pacífica que a mente mais perversa e maníaca, deslumbrada com sua própria insanidade, derruba a moral e o sossego; dos moradores de Gotham, do Homem-Morcego e da platéia. Sem querer cair na redundância, mas o Coringa de Heath Ledger é um espetáculo a parte, e por mais que dêem o valor ao trabalho de Jack Nicholson em “Batman”, de Tim Burton, comparações nem devem ser feitas, tamanha a complexidade absorvida e expressa em cinismo, crueldade, sangue-frio e risadas. Coringa é impassível, liberto, imune a ofensas e ameaças, sendo seu único temor perder a piada. O agente do caos de Ledger é uma marca tão grandiosa que cria certa dependência no espectador. Sua presença inquietante na tela conforta justamente por sabermos como ele age, enquanto que sua ausência produz receio perante o que ele pode estar planejando para sua próxima apresentação circense ao soar da trilha amedrontadora de Hans Zimmer e James N. Howard.

O grande lance deO Caveleiro das Trevas está justamente na maneira como ele desenvolve o duelo psicológico entre o Coringa e Gotham City. Interpolando ameaças que desencadeiam em fatos consumados e cenas de ação extremamente elaboradas, porém, não saturadas durante o filme, a produção chegou a um nível de qualidade que nenhum título do gênero policial até hoje chegou. Excluso de grandes seqüências com animações computadorizadas, o filme se aproxima do caráter cinematográfico ao qual quer pertencer. De fato, Batman é um título de ação e os efeitos visuais estonteantes estão lá sim, mas são singelos, usados com precisão e muitas vezes trocados pelo que a boa técnica tradicional da sétima arte pode fazer quando se tem 150 milhões de dólares (já pagos nos três primeiros dias de exibição) para torrar. É neste quesito que Christopher Nolan atinge uma parcela do público que pode não se interessar tanto pela psique do filme e, o mais impressionante, sem usar as cartas chave para tal.

Em relação ao seu antecessor, o herói progrediu. Ainda que seu universo não seja tão belo visualmente como na aventura anterior – uma mudança no padrão da fotografia da produção -, evidenciando a alternância de proposta neste episódio da série, o longa acertou em trocar a “água com açúcar” Katie Holmes por Maggie Ghyllenhaal, que demonstrou ser mais capaz de criar uma Rachel Dawes mais centrada e confiante, admitindo seu caráter heróico contra o papel inútil de mocinha visto em “Begins”. Até os membros do elenco que regressaram parecem ter acompanhado a evolução do Homem-Morcego. Michael Caine e Gary Oldman representam com louvor a proximidade das personalidades do mordomo Alfred e James Gordon com Bruce Wayne e Batman – respectivamente -, exercendo sobre cada lado da vida do herói uma influência de valor, direcionando seus atos para o caminho mais sensato.

Justamente nesta característica que é possível assistir a evolução do significado da palavra “herói” no cinema. Desde seu início, Batman é revoltado com seu passado, canalizando sua raiva através do medo alheio, deixando sua prepotência para a vida social de seu alter-ego Bruce Wayne. No entanto, suas ações e escolhas jamais fugiram dos limites da ética e da lei, diminuindo o alcance de seus passos a apenas o calcanhar de seus inimigos. Mas é quando se depara com um vilão que não tem nada a perder ou ganhar, que unicamente quer produzir e gargalhar com o pânico e a desordem, que Batman se vê obrigado a burlar um sistema que sempre fez questão de manter funcionando. Dentro de sua justificativa dos meios pelos fins, o morcego ilustra pela primeira vez o seu lado realmente sombrio para então suprir a necessidade dos cidadãos a que protege. Esta escolha, esta opção por princípios, o habilita a atingir o mesmo patamar de periculosidade para o Coringa que este impõe para a cidade.

As armas do Batman agora vão além do que a tecnologia lhe proporciona; o único muro que o Tumbler não era capaz de derrubar já não existe mais, a tempo de assimilar a situação catastrófica quando a moralidade é um valor que deixa de ser seguido também por Harvey Dent (pelo na medida Aaron Eckhart). A assimilação por Harvey dos traços sociais tão presentes na sua luta por justiça dá lugar a uma guerra pessoal que o motiva a agarrar a crueldade para concretizar sua vingança, compondo uma dualidade – justiça/crime – que se torna o conteúdo da imagem física do Duas-Caras.

A troca de papéis do Cavaleiro Branco com o Cavaleiro Negro é um dos principais atrativos do longa que foca com cuidado este momento de transição. É ao saber guiar a transformação de um símbolo unicamente interpretado a um símbolo com dois pontos de vista e, de um homem com duas caras e um rosto para o exato oposto, que Batman – O Cavaleiro das Trevas se revela uma grande charada que reflete o que todos um dia podem possuir dentro de si.

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Batman – The Dark Knight (EUA, 2008). Ação. Warner Bros.
Direção: Christopher Nolan
Elenco: Christian Bale, Heath Ledger, Gary Oldman, Morgan Freeman, Michael Caine.

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