CRÍTICA | Dredd

Ação
// 20/09/2012

Apostando no público cativo de adaptações cinematográficos de HQs e na popularidade da atriz Lena Heady (Cersei Lannister de Game of Thrones), chega aos cinemas amanhã Dredd, com um misterioso Karl Urban no papel-título e incríveis sequências de ação. Com quase nenhuma falha, o longa é um entusiasmante exemplo de ótima adaptação e um exemplo a ser seguido.

Dredd
por Eduardo Mercadante

É seguro dizer que Hollywood está bastante presa em adaptações e remakes. Em especial, após o tsunami de anúncios de novas versões de clássicos da animação, a bola da vez são as histórias em quadrinhos. Uma quantidade tão grande de lançamentos em sequência é bastante desestimulante para o público em geral, mas estímulo é algo que Dredd tem de sobra.

É preciso dizer que Dredd passa longe de ser clichê. Baseado em Judge Dredd, de John Wagger e Carlos Ezquerra, o longa é ambientado numa versão futurista dos Estados Unidos, destruídos por guerras e acidentes nucleares. Mega City One é uma metrópole onde habitam mais de 400 milhões de cidadãos em condições precárias, agrupados em conjuntos habitacionais gigantes de 200 andares. Nesse cenário caótico de violência, drogas e desespero, a paz é assegurada pelos Juízes, como são chamados os agentes da lei, que têm alcunhas maiores do que o nome indica; além de juízes, são jurados e, quando necessário, executores – mesmo que esse processo todo dure alguns segundos de deliberação. Cassandra Anderson (Olivia Thirlby) é uma notava no cargo, que, apesar de não ter conseguido passar no concurso, ganhou a oportunidade de ser testada em campo, acompanhada pelo Juíz Dredd (Karl Urban). A razão para essa segunda chance é uma raridade que ela apresenta: quando criança, seus pais morreram num acidente nuclear, que acabou lhe dando poderes mediúnicos. Não só ela consegue ler, como manipular a mente das pessoas.

Em seu teste, ela escolhe, ao acaso, um dos milhares de delitos que demandavam a presença imediata de um juiz. No entanto, nem ela nem Dredd sabiam que se encaminhavam para um inferno. Ao chegarem a Peach Trees, um dos conjuntos habitacionais, para investigar um homicídio triplo, deparam-se com um lugar completamente dominado pela gangue de Ma-Ma (Lena Headey, a Cersei de Game of Thrones), responsável por toda a produção e distribuição da nova droga slo-mo, que faz o usuário sentir o tempo passar a 1% de sua velocidade normal. A líder, apesar de o nome indicar uma qualidade materna, passa longe de ser carinhosa. Quando era prostituta, foi atacada pelo cafetão, que lhe cortou a face. Ela, então, arrancou-lhe o membro com os dentes, assumiu sua gangue e foi, aos poucos, tomando conta de Peach Trees. E, para honrar essa reputação devastadora, manda seus capangas invadirem o sistema do conjunto, selarem o prédio e decreta que, até que os dois Juízes sejam mortos, o estado de guerra será mantido. Dredd e Anderson terão agora de lutar, não só pela justiça, mas por sua sobrevivência.

O roteiro assinado por Alex Garland, de fato, um dos maiores trunfos da produção. Como pouco se vê nos filmes de ação, os personagens principais podem estar em destaque, mas não são o centro da obra. Dredd é um ensaio sobre a sociedade e sua dicotomia. Por um lado, temos os Juízes como único pilar sustentando a ordem. Por outro, os criminosos, que julgam e executam da mesma maneira que os Juízes, só que com interesses próprios em mente. Ma-ma é o perfeito exemplo disso. Heady pega as características físicas e psicológicas da personagem e as eleva à enésima potência, sendo uma figura totalmente desalmada. Essa exacerbação da personalidade encontra o direto oposto em Dredd. Não se sabe nada sobre a vida do Juíz – inclusive, ele não tira o capacete em momento algum – além de que ele é reconhecido dentro da organização e extremamente competente – algo que fica óbvio nas maravilhosas cenas de ação. No meio termo entre Dredd e Ma-ma está a novata Anderson, que tem um relativo desenvolvimento de caráter, desde a menina aparentemente frágil que tinha uma mutação interessante – fator que não tem o destaque habitual, sendo tratado, de fato, como uma raridade –, para uma Juíza determinada a cumprir seu dever, como ficou claro na cena em que invade a mente de um criminoso.

Uma das questões principais hoje em dia é quanto ao 3D.  Em primeiro lugar, Dredd já tem um ponto positivo por ter sido filmado nessa tecnologia, salvando-se das péssimas conversões que se vê por aí. No entanto, felizmente, o longa tem mais algumas cartas na manga. Além dos efeitos visuais impressionantes, há a fotografia tanto instigante quando assustadora e a droga. Sempre que alguém usa slo-mo, as tomadas imediatamente posteriores se passam em super câmera lenta. O recurso genial é tão usado, que parece que a ideia é deixar a audiência viciada. Algumas cenas – que ficarão em segredo, para não impedir o estado de êxtase ao vê-las – são definitivamente estupendas. Além da velocidade, as cores também são acentuadas nas cenas de uso, predominando tons vibrantes que maravilham os olhos, enquanto o normal são ambientes sujos e tons escuros.

A direção sólida de Pete Travis dá ao filme um tom sério e sociologicamente consciente atípico no gênero. Toda a ação é intercalada por tomadas dos moradores de Peach Trees, realmente mostrando que a obra não está focada, em essência, nas lutas. Algumas das sequências com a população são emocionantes, aproximando de verdade o público da trama – um feito raro em histórias futuristas. Entretanto, além de cativantes na esfera emocional, as sequências de luta são eletrizantes, com bastante destruição do ambiente e das personagens. Quem tiver problemas com sangue e dilaceração talvez fique incomodado em alguns momentos. Outro fator bastante positivo é a trilha sonora eletrônica pesada e os momentos de silêncio, aumento ainda mais as nuances entre os momentos de ansiedade e explosão de adrenalina. No geral, Travis consegue, com exatidão, acentuar todas as características mais importantes do roteiro.

Mesmo depois do enorme fracasso da primeira tentativa de adaptação da história – em 1995, com Silvester Stallone –, o remake de Dredd é um sucesso. Como poucos, ele consegue seguir a tendência atual de Hollywood e atender às demandas do público cansado da mesmice. Se existe alguma falha, é não haver um desenvolvimento do personagem-título – algo que pode desanimar o grande público –, porém, ao que parece, essa é uma estratégia para deixar o caminho livre para sequências. Se forem tão boas quanto o primeiro, que venham aos montes.

——————————

Dredd (EUA/UK/India, 2012). Ação. DNA Films/IM GLobal.
Direção: Pete Travis
Elenco: Karl Urban, Olivia Thirlby, Lena Headey

Comentários via Facebook