COLUNA: Ângulos

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// 18/01/2009

O que traz originalidade a uma história? Não é apenas o quão original a base é que faz isso, mas também a utilização de certos recursos que podem retirar um pouco da obviedade presente nas telas. Hoje, portanto, veremos como a utilização dos pontos de vista em um filme podem torná-lo menos clichê.

Ângulos
Por Breno Ribeiro – crítico e colunista

A partir do momento em que criamos ou ouvimos uma história, somos prontamente impulsionados para dentro da mente, da visão ou das ações de um personagem específico. Esse personagem é comumente chamado de protagonista e em torno dele é que a história vai girar. Claramente, podem existir outros pontos de vista ou outras percepções ao longo da narrativa, mas tudo sempre com um denominador comum. Óbvio também é o fato de que uma mesma história pode ser narrada sob pontos de vista diferentes. Por exemplo, poderíamos contar para uma criança o famoso conto da “Chapeuzinho Vermelho” sob a ótica do lobo e existem mesmo obras que lançam os holofotes sobre outro personagem, tornando o principal. O fato é que muitas histórias chamam atenção justamente por serem focadas em uma única pessoa e as implicações que esse tipo de ato pode trazer.

Este foi o recurso que trouxe notoriedade e angariou uma legião de fãs para Clube da Luta (1999), uma vez que (e eu sugiro que você não continue lendo este parágrafo se não viu o filme e não quer estragar o final) mostra o desenrolar de toda uma narrativa sob os olhos de uma pessoa que possui dupla personalidade sem saber. Assim, o público também não tem como saber da verdadeira psique do protagonista do longa e se surpreende tanto quanto ele ao descobrir toda a verdade. Tal efeito é igualmente provocado pelo interessante Amigo Oculto. Neste, entretanto, acompanhamos a trajetória de David (Robert DeNiro) em tentar provar para sua filha (Dakota Fanning) que seu amigo imaginário não existe. David chega a achar que a filha sobre de distúrbios psicológicos para, apenas ao final da projeção, descobrir que o amigo imaginário da filha é uma segunda personalidade assassina que ele possui. Parando para pensar um pouco, o efeito-surpresa de ambos os longas não aconteceria se o foco narrativo não fossem os personagens principais, mas sim outros que, ao longo do processo, acabam descobrindo a verdade sobre os alter-egos dos protagonistas.

O longa Violência Gratuita, além de brincar com o espírito sádico dentro de cada um de nós, é bem-sucedido ao apresentar um progresso narrativo que está além das vontades do público, mas à mercê de seu personagem principal. O filme apresenta uma narrativa linear, entretanto, como grande brincadeira que é (e o título original, Funny Games, sugere bem isso), nos mostra a onipresença única de apenas uma pessoa que, neste caso, é encarado como um dos vilões do projeto. Paul sabe que está sendo assistido pela platéia e demonstra isso durante os mais de cem minutos do longa (como na cena em que olha diretamente para a câmera, imagem que ilustra a coluna). Assim, como detentor supremo de todo o desenrolar da história, Paul tem o poder de retroceder o filme quando bem deseja para que tudo prossiga como ele quer, afinal é ele quem manda. Essa capacidade de comandar absolutamente tudo no filme transforma Paul em algo maior do que apenas personagem ou narrador do filme, mas em seu comandante.

Embora em uma escala que eu considero menor e menos apoteótica do que os filmes pré-citados, o nomeado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Dramático, O Curioso Caso de Benjamin Button, e o vencedor de vários prêmios em 1998, Titanic, jogam limpo ao firmarem bem a estrada que seguirão até seus últimos segundos. Em ambos, seguimos desde o começo as lembranças de um personagem em particular (o próprio Benjamin Button, a partir de seus diários, e a já anciã Rose Dawson, narrando suas memórias sobre o navio naufragado, respectivamente). Assim, todos as outras pessoas que por ventura aparecerem durante os longas nos são mostradas pela visão indelével deles. Logo, muitos destes outros soam unilaterais ou criados de forma maniqueísta. Entretanto, não é recomendável nos esquecermos de que, embora não agradável, o fato é aceitável, uma vez que, por extensão interpretativa, podemos conceber que tais personagens unilaterais não foram inteiramente conhecidos pelos protagonistas-narradores. É um recurso inteligente e rápido que não nos aprofunda em muitas personalidades sem ferir nosso intelecto.

Mesmo que tais aspectos fujam do considerado comum ou não chamem atenção de grande parte do público, eles são recursos que, uma vez bem empregados, conferem à trama um caráter mais original e menos clichê. Ainda que alguns deles venham sendo utilizados em larga escala e tenham se tornado cada vez mais obsoletos, como o usado em Clube da Luta, não há como negar que usados de tempos em tempos e nem dosados para que não soem fora da realidade, eles são ótimos para fugir do marasmo narrativo que se impregna cada vez mais no universo criativo das artes em geral.

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