COLUNA: Das Bençãos e Maldições dos Musicais Modernos (parte II)

Artigos
// 07/09/2008


A coluna dessa semana continuará o estudo começado na semana passada sobre os musicais modernos. Depois das avaliações de Moulin Rouge, Chicago e High School Musical, serão avaliados Across The Universe, Sweeney Todd e Apenas Uma Vez sob o prisma da modernidade e seus reflexos.

Das Benção e Maldições dos Musicais Modernos (parte II)
por Breno Ribeiro – crítica e colunista

Semana passada, começamos uma espécie de estudo do que poderíamos chamar de “musicais modernos”. Chamei de modernos os filmes do gênero que, em oposição aos clássicos dos anos 50 e 70, brilharam depois da virada do século. Foram dados alguns exemplos e em todos eles foi explicado o que possuíam de melhor ou pior. Para os que não leram: foram citados Moulin Rouge, Chicago e High School Musical. Partindo desses três filmes, poderíamos, então, estabelecer uma espécie de padrão para as projeções do estilo. Elas estariam estilizadas mais ou menos da mesma forma, procurando sempre agradar ao público, com músicas chamativas em detrimento da história (o que não se aplica a todos, mas é de se notar que a preocupação com as canções é, em todos os três exemplos, maior do que a com a narrativa, não que isso prejudique a todos). Entretanto, não se pode dizer que isso seja uma regra. Alguns filmes mais atuais continuaram seguindo os passos de Moulin Rouge e companhia, mas outros, numa espécie de suicídio que comentarei mais tarde, deram mais importância à história em si e em contá-la do que com a música e a qualidade da mesma.

O uso de canções conhecidas do público para montagem da trilha sonora, em 2001, fez com que algumas projeções recentes usassem o mesmo artifício, o que não resultaria em um resultado realmente bom. O maior exemplo disso foi o fraco Across The Universe. Toda a trilha do filme se baseia em sucessos do The Beatles. Obviamente o chamariz do filme foi esse e todos os trailers contavam com músicas e mais músicas do grupo inglês nas vozes dos atores. Um merchandising que não deu muito certo. O filme não tem uma história fixa e possui entradas e saídas de personagens sem nenhuma explicação, algumas passagens são totalmente dispensáveis ou inexplicáveis, tudo isso com o intuito de conseguir apenas uma coisa: colocar o número máximo possível de músicas para uma talvez maior conquista do público.

A conquista do público é algo fácil de conseguir. Experimente pegar um diretor relativamente adorado pelos jovens e um ator ainda mais assediado pelas meninotas abaixo dos trinta e terá um resultado invejável. Partindo dessa premissa, o diretor Tim Burton cria seu Sweeney Todd totalmente pretensioso. Não que o filme seja ruim, só não funciona como musical. Está tudo ali: Johnny Depp, os tons escuros, cenários escuros e personagens de maquiagem pesada. Está tudo no lugar. Um filme legítimo de Burton. Só há uma coisa fora de contexto: as músicas. Esse é o suicídio de que falei lá em cima. Tudo bem que como eu disse semana passada: “Um bom musical se faz da junção de uma boa história (…) e boas músicas que consigam se encaixar perfeitamente nos momentos tensos e prazerosos de seus personagens”, mas tudo tem seu limite. Por exemplos, um mesmo personagem precisa cantar sempre a mesma música em todas as cenas que aparece? Não. A mendiga precisa pedir esmola cantando? Não, ela não fica nem 2 minutos na tela: aparece, canta e some. Nesse sentido, Burton erra ao criar um musical onde o menos importante é a música. A história é sobrepujada à música e não há espaço para ambas ali. Um Across The Universe às avessas.

Salvando a geração mais atual no estilo, temos o singelo e belo Apenas Uma Vez (Once, no original). Embora não possua os elementos tresloucados e as psicodelias de Moulin Rouge, o longa irlandês filmado em poucos dias consegue unir um roteiro magistral em toda sua simplicidade com canções tão belas e intimistas quanto. Essa ação confere ao filme um caráter quase lúdico, além de mais realista. Nunca um musical foi tão “real”. Nada de personagens cantando enquanto a chuva cai, nada de uma rua de carros parados com todos cantando juntos, nada de coreografias acrobáticas e ‘clipes’ cheios de efeitos. Tudo é natural, nada é forçado e todas as músicas têm um sentido de estar ali. Elas não aparecem só para mostrar o que os personagens sentem, mas também fazem parte do que o roteiro idealiza: um casal de músicos que se encontra pelas ruas de Dublin.

Felizmente, nem tudo está perdido no mundo dos musicais e, embora todo o trajeto do gênero pareça uma montanha-russa, cheia de subidas e descidas vertiginosas, espero ter mais experiências boas com o estilo neste ano. Por falar nisso, um novo musical (aparentemente no estilo Across The Universe – por usar músicas famosas de um artista apenas) estreará esse mês: Mamma Mia!, que conta com uma trilha formada apenas por canções do Abba. Sinceramente, espero que o filme seja bom. Pelo menos os trailers são. Aliás, trailers são um engana-trouxa, sempre colocam as melhores partes para você achar que o filme será ótimo. Mas bem, isso já é outro assunto. Talvez para um turo próximo.

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