COLUNA: “Disneycessário”

Animações
// 22/05/2010

No decorrer de dois dias, a Walt Disney Pictures anunciou as “refilmagens” de dois de seus clássicos: Cinderela e A Bela e a Fera. Além disso, está sendo produzido o filme Malévola (a história de A Bela Adormecida sob a perspectiva da vilã) desde alguns meses atrás. O óbvio motivo é o sucesso estrondoso da versão de Tim Burton de Alice no País das Maravilhas. O estúdio parece estar apostando em uma nova tática para angariar novas gerações de espectadores. Clique em “Ver completo” para saber mais.

Coluna
“Disneycessário”

por Pedro de Biasi

As animações A Bela Adormecida, A Bela e a Fera e Cinderela estão programadas para ganhar versões em live-action pela Disney. Não são só refilmagens, porque, na prática, os filmes em questão serão filmados pela primeira vez pelo estúdio. É o caso da (re)filmagem Alice no País das Maravilhas – que, aliás, ganhará uma continuação, confirmando a aposta nessa nova onda. Se um dos maiores nomes da indústria cinematográfica diz que irá repetir uma fórmula de sucesso, é um sinal. Mas, antes de tudo, muita calma.

Para começar, a ideia não é nova, salvo detalhes. A transformação de uma animação em filme com atores e cenários reais já aconteceu com o melancólico O Túmulo dos Vagalumes, que foi filmado para a TV japonesa. Apesar de não ser uma ideia original dos estúdios Disney, a lenda da heroína chinesa Mulan foi recentemente transposta para o cinema por seu país de origem. A questão é que todas as histórias citadas no parágrafo acima foram criadas em diferentes contextos e locais, e apenas incorporadas à cultura popular pela empresa de Mickey.

A Bela e a Fera surgiu na França em 1740, o conto A Bela Adormecida foi publicado em 1634 por Giambattista Basile e popularizado por Charles Perrault em 1697, e a origem de Cinderela, antigamente conhecida como A Gata Borralheira, pode ser traçada até a China de três milênios atrás. No tocante a Alice, a proposta não foi apenas adaptar a trama do filme original para uma produção física. O roteiro foi totalmente refeito, utilizando apenas detalhes, lugares e personagens-chave da animação de 1951 – que é muito fiel ao livro de Lewis Carroll.

Os contos e lendas que deram origem a certas produções animadas, como Branca de Neve e os Sete Anões e Pocahontas, tiveram inúmeras outras traduções em celuloide. A primeira já participou de fitas de horror, de uma comédia e até de uma pornochanchada: Histórias que nossas babás não contavam. A famosa índia, por sua vez, apareceu no cinema mudo, em um western nos anos 50 (Captain John Smith and Pocahontas) e na contemplativa interpretação do diretor Terrence Malick, em O Novo Mundo. O filme de Tim Burton e as novas produções anunciadas parecem seguir essa linha.

Não é difícil adivinhar as consequências mais diretas dessas “re-apropriações”: mais dinheiro no caixa. A Disney encontrou uma forma de conseguir muito lucro e quer se aproveitar da estratégia mercadológica enquanto ela funcionar. A longo prazo, no entanto, a cultura popular vai sem dúvida reconhecer as mais influentes versões das obras em questão. Em outras palavras, se o mesmo estúdio que popularizou contos antigos no passado (re)filmar “suas” histórias, a impressão de posse vai ser mais forte.

Alice passa por isso, já que atualmente “Disney” e “Tim Burton” são os dois nomes mais facilmente associáveis à personagem. Claro, é só olhar com atenção uma das dezenas de edições do livro para saber da existência de Carroll. Para uma turma que passa na frente da livraria no shopping, por outro lado, pode parecer uma simples novelização daquele filme que acabaram de ver. Burton sabe bem como o processo funciona, já que muitos acham que ele dirigiu o cultuado O Estranho Mundo de Jack quando a função coube para Henry Selick, o mesmo de Coraline e o Mundo Secreto.

É verdade que essa popularização situa histórias antigas no contexto do mundo atual – primeiro, a adaptação em tramas infantis, e agora, infanto-juvenis. Porém, nem todos poderão (ou buscarão) conhecer as origens deste ou daquele filme, e se Basile ou Carroll aparecerem nos créditos, serão rapidamente esquecidos quando os nomes de Johnny Depp e Tim Burton piscarem na telona. Mas esses problemas são antigos. Algo das obras originais sempre se perde na transição para o Cinema, e a lógica capitalista de fazer filmes para lucrar não é nenhum conflito novo.

Será preocupante, sim, se a moda de (re)filmar longas animados pegar – e a esmagadora bilheteria de Alice no País das Maravilhas indica que vai, pelo menos por um tempo. Fazer isso com animações em computação gráfica não faria muito sentido, já que elas estão cada vez mais realistas, como se pode ver em Up – Altas Aventuras. Os animadores estilizam as formas exatamente para não parecer uma tentativa de recriar o mundo real. Como toda nova ideia, essa deve ser aproximada com moderação.

Abaixo, fotos de celebridades internacionais fazendo as vezes de personagens dos clássicos Disney. Consegue reconhecê-los?

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