COLUNA EXTRA: Globo de Ouro, tem que ver isso aí

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// 15/12/2010

Ontem foram divulgados os indicados ao 68º Globo de Ouro. No mesmo dia programei uma coluna para ser publicada aqui no site. Mas resolvi esperar, deixar os ânimos (exaltados) se acalmarem e redigir algo mais consciente. É bom esclarecer, contudo, que esta coluna é pessoal e reflete, portanto, a minha opinião, não a do site como um todo (apesar de já ter checado a compatibilidade de opiniões em alguns pontos). E só para constar: me restrinjo aqui às categorias cinematográficas.

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A foto é meramente ilustrativa e serve como dois ganchos: lembra-nos um momento em que a coisa parecia funcionar corretamente na premiação e descreve muito bem a minha expressão sempre que releio os indicados de 2011.

Coluna Extra
Globo de “Ouro”, tem que ver isso aí

por Arthur Melo

Se eu dissesse que as indicações foram, ao todo, incoerentes, estaria exagerando. Obviamente, os acertos existem – são até mais numerosos –, mas as falhas são tão gritantes e absurdas que contaminam toda a premiação. Sabe aquela história da maçã podre que estraga as que estão por perto? Clichê (como o conteúdo dos filmes indicados), mas é bem por aí.

Nas duas categorias mais importantes dentre as principais (Melhor Filme Drama e Melhor Diretor), um bom senso que não se veria ao longo da lista completa: A Origem e A Rede Social (este, considerado o melhor filme do ano por inúmeros prêmios da crítica internacional) disputam acirradamente a preferência. Não do público, claro, que já expressou o desejo pela vitória do filme de Christopher Nolan, apesar de uma vitória quase certa do queridinho do ano, O Discurso do Rei. Cisne Negro e O Vencedor, ainda sendo candidatos interessantes, não devem ser o foco do prêmio neste ano. Na categoria Melhor Diretor, os cinco filmes se repetem (menos mal): Darren Aronofsky (Cisne Negro), David Fincher (A Rede Social), Tom Hooper (O Discurso do Rei), Christopher Nolan (A Origem), David O. Russell (O Vencedor).

Mas é na categoria de Melhor Filme Comédia/Musical que a coisa despenca. A impressão que fica é que simplesmente não tinha o que ser indicado. Então, vamos completar a lista com cinco longas quaisquer! Ah, aproveita e pega essas produções medíocres que o público gostou, que é pra ver se a gente tem metade da audiência (defasada) do Oscar. Que tal? Han, não.

Vamos ser honestos aqui, ok? Dos cinco indicados, provavelmente só vimos Alice no País das Maravilhas. E digo isso acreditando que Red não teve lá um grande apelo com o público e Minhas Mães e Meu Pai não é o tipo de filme que mova pessoas para fora de casa (e a taxa de downloads provavelmente seria mais bem aproveitada com um joguinho ou outro pro PC). Bom, é essa a visão do nosso público. Eu posso não fazer parte deste grupo que generalizei aqui, você também não. Mas, num contexto panorâmico, é bem assim, sim. Então vamos por partes.

Ponto número um: ninguém, em momento algum, se preocupa em ver o filme X pra falar mal quando quer e já forma opiniões a partir do tema, das imagens, dos vídeos, trailers, elenco, equipe de produção e, principalmente, críticas de quem já viu. Em resumo, sabemos que filmes são indicados a prêmios de tamanha importância como o Globo de Ouro quando pelo menos a crítica adora, não importa o público. Mas e quanto a filmes que a crítica simplesmente odiou e o público nem sequer levantou uma pálpebra de interesse? Bem, esse é o ponto número dois. O Turista teve meros 20% de aprovação no popular site Rotten Tomatoes*. Red, 70% (ok, passável). Burlesque, 36%. Alice no País das Maravilhas, 51%. Minhas Mães e Meu Pai, 94%. Bom, algo está errado. No site, é preciso ao menos 60% para ser considerado “fresh”, ou seja, bom. Os filmes que costumam ser indicados a grandes prêmios possuem, no mínimo, 80% de aprovação. Então me expliquem: qual o sentindo de indicar este grupo de filmes ao lado de Minhas Mães e Meu Pai? “Alice” está fazendo o quê ali (vou me ater a esse porque é o único que vi, já que os outros ainda não desembarcaram no Brasil e Red perdeu território na semana seguinte pro Harry Potter)? Atraindo a massa que ficou deslumbrada com aquele excesso de direção de arte colorida e nenhum apelo artístico na direção ou no roteiro? Numa boa, eu dei 7 na nota desse filme na minha crítica porque usei um critério baixo de avaliação (se você ler a crítica e não apenas olhar para a nota, então tudo será autoexplicativo), mas eu poderia dar um 5 brincando e ainda me sentir benevolente. O pior foi que dia desses eu estava rindo porque o produtor de “Alice” comentou que ficaria realmente “chateado” se o longa não fosse indicado ao Oscar de Melhor Filme, já que uma produção que fez um bilhão de dólares em bilheteria (com 3D é muito fácil, né?) certamente agradou ao público e merece reconhecimento. Bom, traz aí o Oscar de O Cavaleiro das Trevas, Piratas do Caribe e uns três pra série Harry Potter, então, se o critério é o gosto do público (nenhum deles usou 3D, diga-se de passagem, e a bilheteria foi semelhante). E liga pra produção de Guerra ao Terror porque a estatueta é do Cameron. Poupe-me. O triste é que agora até sinto certo medo, confesso.

Daí a gente se pega pensando: não tinha nada melhor mesmo? Eu já conferi Easy A (A Mentira, aqui no Brasil), que estreará no ano que vem. Não achei, realmente, nada daquilo que a crítica tem dito. Pra mim, os 87% do Rotten Tomatoes não estão no filme. Mas pelo menos a indicação estaria atendendo ao critério de alguém nesse mundo. E Scott Pilgrim Contra o Mundo (80%)? E Kick-Ass (76%), que é um espetáculo de originalidade (mesmo que não agrade a todos, é um filme muito mais bem estruturado)? Só com esses três já poderíamos rebaixar Burlesque, O Turista e Alice no País das Maravilhas.

E aí, nas categorias de atuação, mais falhas. Em Melhor Ator, Johnny Depp aparece duas vezes, por O Turista e Alice no País das Maravilhas. Tudo bem, não vi o primeiro e até pode ser que sua atuação tenha sido formidável. Mas eu vi o segundo e sei que o tom forçado e incrivelmente plástico só me remetia a uma tentativa frustrada de eclipsar o fenômeno Jack Sparrow. Se queriam indicar o filme do Tim Burton a todo o custo, que fosse em Melhor Atriz Coadjuvante, com Helena Bonhan Carter – duas merecidas vezes –, por O Discurso do Rei e por sua Rainha de Copas, único quesito exemplar de “Alice” (se vierem falar que os efeitos visuais são bons, cabeças vão rolar). A propósito, Emma Stone está excelente em A Mentira, mas é um claro momento de falta de opção também. E nem vamos citar a Angelina Jolie. A coisa foi tão estapafúrdia que a própria caiu na gargalhada quando viu seu nome indicado, até porque nem comédia ela chegou a fazer (palavras de Jolie). Daí você tira… Pierce Brosnan (O Escritor Fantasma), Ewan McGregor (idem), Jim Carrey (I Love You, Phillip Morris), Mark Ruffalo (Minhas Mães e Meu Pai) não estão ali pelo mesmo motivo que a Xuxa ainda faz filmes: ninguém sabe. Começo a dar graças a Deus por Meryl Streep não ter estreado nada esse ano, poupando-a do constrangimento (pois é, sem Meryl no Oscar 2011).

Melhor Animação até chegou a ser citado como um problema. Não encaro dessa forma. De fato, vi poucas animações, mas das cinco, apenas Enrolados e O Ilusionista não tive a oportunidade porque ainda não desembarcaram aqui. E, a julgar pelas outras três, Como Treinar o Seu Dragão e Toy Story 3 estão muito bem colocadas. A primeira é a melhor animação da Dreamworks desde Shrek, o segundo é simplesmente um dos melhores produtos do ano. Meu Malvado Favorito, apesar de simples em seu teor artístico (isso não é bem um elogio), não destoa tanto quanto pintam.

Ao menos em Melhor Canção não detonaram tudo com três indicações para Burlesque e deixaram uma vaga para a boa canção de As Crônicas de Nárnia – A Viagem do Peregrino da Alvorada, que realmente acreditei que nem ia dar as caras em premiação nenhuma esse ano. E, claro, Enrolados. Até porque, se não tiver uma animação Disney nessa categoria em seja lá qual for o prêmio, algo está realmente fora do controle.

Trilha Sonora teve só um pequeno deslize: Danny Elfman. É curioso como ele fez ótimas trilhas nos últimos anos, mas lembraram dele justamente na mais fraca. A trilha de Alice no País das Maravilhas é boa, é legal de se ouvir, mas não deveria estar ali. Pelo menos não do lado de Hans Zimmer, que pela primeira vez apoio sua indicação (quero esquecer o fato de a trilha dele ter surgido no Oscar 2010 por Sherlock Holmes, escorregão bacana aquele) depois de alguns anos, por A Origem e seu “Vuvuzela Theme”. Só para checar: Falou-se muito da ausência de Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte I. Bem, presumo que não estavam querendo compará-lo aos indicados a Melhor Drama, nem diretor e nem roteiro adaptado, porque seria forçar. Então assumo que essa levantada de plaquinhas se deu pelo nome de Alexandre Desplat ao ser lembrado por O Discurso do Rei, acertei? Se formos comparar um com o outro, Harry Potter ficou muito bem colocado de fora do prêmio, lamento informar. E, mesmo se estivesse em mesmo nível, realmente há quem acredite que iam preferir uma fantasia/aventura a um drama europeu? Ah, ta. Só pra conferir, sempre é bom.

Se O Globo de Ouro é o termômetro do Oscar, sinto que escreverei uma coluna bem maior e muito mais revoltada e com palavrões em chanfrado em janeiro. Mas ainda acredito/torço em algo que foi dito hoje no Twitter por um usuário: “O Globo de Ouro é um preditor do Oscar da mesma maneira que a terça-feira é um preditor da quinta-feira. Vem antes. Período”. Amém.

*O Rotten Tomatoes é um site que reúne críticas de diversos profissionais da área em todo o mundo, estabelecendo um ranking que vai de 0% a 100% de aprovação. Se um filme tiver uma pontuação igual ou superior a 60%, ele é fresh (fresco, em inglês), o que significa que o filme é bom. Se tiver uma pontuação igual ou inferior a 59%, ele é rotten (podre), e o filme é ruim. Entretanto, esta forma de avaliação nem sempre é a mais confiável para saber se um longa é realmente bom ou não. Ainda assim, é um excelente meio de estabelecer um consenso.

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