
A boa e velha “verdade inconveniente” é uma constante na área da política. No Brasil, erros antigos passam batidos pela população, enquanto a mídia e a Lei pouco ajudam a refrescar a memória. Nos EUA, a indústria cinematográfica às vezes lembra as ações repreensíveis do governo. A questão (sim, sempre há uma) é se esse “arrependimento” é genuíno e se realmente corrige algo.
Coluna
Minha Tão Grande Culpa
por Pedro De Biasi
Há algumas semanas, o filme Zona Verde, de Paul Greengrass, estreou no Brasil. A superprodução não obteve sucesso nos Estados Unidos, e aqui também não está sendo muito divulgada, mesmo que esteja disponível em vários multiplex. A trama é centrada em Roy Miller (Matt Damon), um subtenente do exército norte-americano especializado em buscas por armas de destruição em massa. Após voltar de três locais totalmente vazios, Miller começa a duvidar da validade das informações que recebe e busca a verdade por trás das ordens superiores.
A trama leva à descoberta de que não havia tais armas no Iraque, ou seja, que os Estados Unidos mentiram sobre a principal razão para invadir o país. O filme, lançado em 2010, não é nada sutil em sua crítica. A justificativa para a Guerra do Iraque, no entanto, nunca foi muito sólida e a mentira foi desmantelada muitos anos antes do filme de Greengrass. No entanto, esse é o caso mais recente de uma escola de filmes que revisitam eventos polêmicos da política estadunidense.
Outro caso recente é o menos conhecido Jogos do Poder, de Mike Nichols, que relata as operações secretas dos EUA para combater a invasão soviética no Afeganistão. O acontecimento se deu na década de 80, e o filme só foi feito vinte anos depois, em 2007. Visto que o governo norte-americano retirou a ajuda aos afegãos no fim da invasão e deixou o país arrasado de mãos abanando, é importante dar à população um tempo para aceitar o evento.
Em 2008, Frost/Nixon recontou as entrevistas concedidas por Richard Nixon ao jornalista David Frost. O caso Watergate foi a público em 1972, causando a renúncia do presidente norte-americano dois anos depois. O programa que dá título ao filme, veiculado em 1977, foi assistido por um número recorde de espectadores. Ao longo das entrevistas, Nixon disse se sentir culpado e assumiu a responsabilidade pelo escândalo em rede nacional, mas, curiosamente, a população acabou simpatizando com sua postura sofrida e responsável.
Antes disso, porém, uma produção explorou o caso pelo viés dos jornalistas que descobriram o caso, Bob Woodward e Carl Bernstein. Todos os Homens do Presidente, de 1976, não deixou a ferida cicatrizar por tanto tempo, e recriou a detalhadamente investigação que levou Nixon à renúncia usando muitos dos personagens reais.
De outro lado, temos as tramas que não mostram situações baseadas em fatos históricos. Na teoria. O Jardineiro Fiel é o melhor exemplo, usando personagens, empresas e conspirações ficcionais mas indagando quão irreal aquilo pode ser. A “denúncia” sem nomes permite uma crítica mais incisiva, mesmo que a trama talvez seja fundamentada numa prática ainda em voga.
Zona Verde está, como a região que lhe dá nome, num lugar seguro: Barack Obama já anunciou que pretende retirar as tropas do Iraque, e foi nesse contexto que o filme chegou aos cinemas. Essa confissão via Hollywood parece buscar uma redenção, um mea culpa que mostre que até “a maior nação do mundo” reconhece seus erros. Porém, existe praticamente um filme para cada escândalo ou arbitrariedade política do país, lançado quase sempre alguns anos depois de o caso vir à tona. Desse jeito, essa cultura serve apenas como fórmula de exorcismo para futuros erros norte-americanos.
























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Excelente artigo.
Cito também o excelente “Mera Coincidência”, que trata da influência da mídia (vista aqui como massa de manobra governista) na construção da política. É simplesmente genial.
Parabéns, Pedro.