COLUNA: O Sonho Ainda Não Acabou

Artigos
// 27/02/2010

Dia após dia, Avatar desbanca os filmes que o desbancaram antes. Essa é a oposição entre fenômenos e tendências que caracteriza o mercado Hollywoodiano.

Coluna
O Sonho Ainda Não Acabou
Por Pedro de Biasi

Muito se falou sobre o lugar de destaque que Avatar anda ocupando em meio aos filmes comerciais dos Estados Unidos. Os números impressionaram, assim como o boca a boca intenso e muito positivo: nada é mais raro em Hollywood que elogios tão fartos. Enquanto a obra de James Cameron ocupou o primeiro lugar nas bilheterias, tudo ficou em segundo plano, até mesmo os lucrativos Alvin e os Esquilos 2 e Sherlock Holmes. Foi uma demonstração de popularidade e de poder sobre a platéia que só é vista de tempos em tempos. Entretanto, no sétimo fim de semana, a hegemonia foi quebrada e Querido John ganhou a dianteira. Mas não é bem esse o assunto.

O mais importante é notar os filmes que estrearam no fim de semana seguinte: Idas e Vindas do Amor, Percy Jackson e o Ladrão de Raios e O Lobisomem. Cameron estava em quarto, superando facilmente o romance que o destronara uma semana antes. Como o fenômeno que é, a ficção científica continuou ultrapassando sucessos menores e menos notáveis. Mas seriam, mesmo, menos notáveis? Independentemente, a comédia romântica, a fantasia heróica e a refilmagem de terror (quase um pleonasmo hoje em dia) nada têm de especial, pois é a presença concomitante dos três no topo das bilheterias que revela uma clara tendência.

Esses subgêneros têm lugares próprios como acontecimentos constantes do cinema comercial. Entre um fenômeno e outro, esses serão o tipo de filmes “de sucesso”. Se no início do ano temos Avatar, no meio, Eclipse e em novembro chega o próximo filme da série de J. K. Rowling, nos meios tempos teremos muitos Caçador de Recompensa, Ela É Demais pra Mim, A Hora do Pesadelo, The Crazies, Sex and the City 2, The Back-up Plan, Going the Distance, Aprendiz de Feiticeiro – isso deixando de fora os filmes de ação, os baseados em HQs e as animações. Não ouviu falar de algum(ns) desses? Não se preocupe: quando a estreia estiver próxima, você ouvirá.

O pódio que filmes como esses alcançam não figura necessariamente como sucesso. Só estréiam em primeiro lugar porque não há nada tão interessante ou tão novo a ponto de forçá-los a posições inferiores. Claro que para os produtores de um horror orçado em 15 milhões de dólares quaisquer 30 milhões já satisfazem, mas essa margem de lucro já se tornou tão corriqueira que os estúdios sempre torcem por mais. Além disso, nada muda a posição de tapa buraco dessas produções. O mesmo se aplica às fantasias de rabo preso com O Senhor dos Anéis e/ou Harry Potter, que, boas ou não, penam bem mais para emplacar que a bobagem gore do bimestre.

As comédias românticas têm mais apelo (é mais fácil levar o namorado para um chororô açucarado que levar a namorada para um massacre sangrento) e alcançam cifras mais polpudas, mas só ganham destaque absoluto nesses limbos inter-fenomenais. E mesmo assim, de sábado a quarta da semana passada, Avatar voltou à segunda posição, atrás apenas do estreante Ilha do Medo. Claro, boa parte da arrecadação vem dos caros cinemas 3D, mas também não se pode ignorar a disposição de um espectador em pagar o dobro em um filme, quando ele pode guardar o dinheiro para ver dois dos sub-sucessos da vez.

A perda do primeiro lugar nas bilheterias parece não ter enterrado o (novo) fenômeno de James Cameron: sua força pode tardar, mas não falha em desbancar as trivialidades de Hollywood, mesmo que elas se apresentem em trincas de peso. Para os que ainda duvidavam do impacto de Avatar, aí estão algumas comparações para mostrar exatamente o contexto em que o filme foi lançado e como ele assomou por entre as produções rotineiras. Logo, porém, a indústria cinematográfica despertará desse sonho e voltará a encarar a realidade de números e títulos pouco impressionantes.

Comentários via Facebook
Categorias
Artigos