COLUNA: O Terror Espanglês

Artigos
// 15/02/2009

O gênero do terror é um dos mais queridos do público mais jovem e um dos mais esquecidos em premiações em geral. Isso se deve à falta de fundo dramático da maior parte dos projetos americanos no gênero. Por outro lado, os longas de terror de língua espanhola costumam ser pautados em histórias complexas e desagradar o público de carteirinha do gênero. Veja mais sobre as diferenças entre os dois estilos dentro do estilo clicando abaixo.

O Terror Espanglês
Por Breno Ribeiro – crítico e colunista

Costuma-se dizer que filmes de terror, em sua maioria, possuem uma fórmula fixa. O gênero é um dos menos explorados dramaticamente tanto que, em anos de cinema, poucas foram as vezes em que um filme puramente de terror foi indicado a grandes premiações, sendo os mais conhecidos e aplaudidos o longa de 1973, O Exorcista, e o de 1991, O Silêncio dos Inocentes (embora algumas pessoas digam que o último se trate de um suspense, não de um terror propriamente dito, no que eu concordo, mas o tema da coluna de hoje não é discorrer sobre diferenças entre os gêneros. Talvez outro dia). O fato é que ultimamente muito da industria cinematográfica americana no que concerne ao terror prefere partir de premissas simplistas e personagens vagos ao que passo que produções de gênero idêntico e nacionalidades distintas apostam exatamente no contrário, histórias de fundo complexo e terror implícito. Falo dos terrores de língua espanhola.

Antes de mais nada, é bom deixar claro que nenhuma das afirmações feitas daqui pra frente são generalizantes, apenas retrato sobre a maioria. Eu sei que há exceções de ambos os lados, mas ilustrá-las aqui seria, além de fuga do tema, entediante para quem lê e tornaria uma simples coluna em um tratado sobre o tema, o que não é a idéia. Dito isso, vamos ao que interessa.

Muito do que diz respeito ao terror americano hoje em dia é uma continuação de uma corrente dos anos 80 que focava em grupos de jovens adolescentes farrentos sendo perseguidos por seriais killers ou, ainda mais trash, criaturas que a tecnologia da época construía porcamente, enquanto um a um os personagens morrem em cenas recheadas de sangue falso e gritos histéricos de atrizes que pensam que atuar é chegar em uma escala de agudeza impossível para a voz humana. Entretanto, o gênero, que se encontra à margem da sociedade cinematográfica, respira, ainda que por segundos mínimos, o ar da criatividade. Uma das mostras disto deriva-se do primeiro (sim, somente do primeiro, façamos o favor) Jogos Mortais, cujo enlace e terror psicológicos se sobressaem e muito aos momentos de tortura e horror que os enlatados americanos urgem em recriar. Ainda que tente inovar trazendo regravações aquém dos originais de longas japoneses, a indústria do terror não consegue deixar de voltar a seu lugar de origem ou de cometer velhos clichês do passado em histórias que soam interessantes até a metade do caminho, como é o caso do interessante Pânico.

Por outro lado, os longas do gênero que possuem origem latina encaram, de forma geral, o terror com outros olhos. A cargo de exemplificação, citarei dois longas que juntos possuem grandes partes dos aspectos de distinção que direi a seguir: A Espinha do Diabo e O Orfanato. Histórias envolvendo o sobrenatural em detrimento do real é uma das característica de ambos os filmes (embora o primeiro, assim como O Labirinto do Fauno – curiosamente ou não, os dois projetos foram dirigidos pelo diretor mexicano Guillermo Del Toro –, tenha em sua histórias retratos do terror humano presente da Guerra Civil Espanhola). Os longas esbanjam cenas longas e recheadas de tensão, como por exemplo aquelas nas quais os protagonistas andam temerosos em direção a uma porta semi-aberta que obviamente esconde algo. Diferente também é a abordagem dos protagonistas que não são possuidores de inteligência duvidosa e não são os catalisadores dos problemas por uma escolha aleatória do destino, mas sim pela sua própria curiosidade em desvendar algo que o incomoda (e nesse quesito os dois projetos se encontram com alguns americanos, como A Chave Mestra). A profundidade dramática também tem lugar nos projetos, seja por um pano de fundo histórico, como no primeiro, ou o desaparecimento do filho, como no segundo.

Como ponto de partida a um entendimento maior sobre o tema, é possível dizer que, no geral, os latinos encaram com maior seriedade seus filmes, explorando a profundidade das ações de seus personagens enquanto os americanos se utilizam de personalidades rasas e duvidosas em prol de um banho de sangue descompromissado. Não há, entretanto, qualquer tipo de julgamento na sentença anterior, apenas uma constatação de como os fatos realmente vem sido apresentados na última década. Ainda, os pontos citados não favorecem ou desfavorecem qualquer um dos dois, uma vez que só a preferência de cada espectador será decisiva para saber o que é melhor ou pior. O bom de tudo isso é que há estilos dentro do gênero que agradam tanto àqueles que procuram um terror mais engajado quanto àqueles que querem apenas um divertimento sem compromisso e grandes reflexões.

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