COLUNA: O Teu Passado te Condena

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// 03/02/2008


Pois é caros, nem tudo são flores no controverso mundo da sétima arte. A inconstante e competitiva indústria do cinema, que promove talentos com a mesma rapidez com que os esquece, já submeteu grandes nomes a papéis pouco nobres. E é sobre duas dessas obscuras filmografias, que lançamos o nosso olhar.
Divirtam-se.

O Teu Passado te Condena
por Matusael Ramos – crítico e colunista

Silvester Stallone era só um imigrante italiano recém chegado aos Estados Unidos quando protagonizou o pornô-soft O Garanhão Italiano, em 1975. Algum tempo depois um jovem George Clooney dividiria a cena com leguminosas impiedosas em O Retorno dos Tomates Assassinos.

Por ora, entretanto, atenhamo-nos a dois outros célebres nomes: os diretores James Cameron e Peter Jackson.

Contrariando a máxima “No cinema ou se ganha muito dinheiro ou se ganham muitos prêmios”, ambos consagraram-se com duas das mais caras, rentáveis e premiadas produções de todos os tempos: o épico Titanic e a trilogia O Senhor dos Anéis, respectivamente. Não obstante, ambos detém, com as devidas ressalvas, deliciosas pérolas em sua filmografia inical, marcada pela descrença de investidores e irreverência nos roteiros.

Quando Fome Animal, de Peter Jackson, estreou nos cinemas em 1992, garantindo sacos de vômito grátis a quem comprasse os ingressos, as atenções recaíram sobre o ainda desconhecido diretor neo-zelandês. Jackson já havia explorado o gênero splatter-gore (caracterizado pelo terror nauseante) nos menos conhecidos Trash, Náusea Total e Meet The Feebles (uma paródia de humor negro de Muppets).

A fonte de todo o mal: O Macaco-Rato de Sumatra.

A fonte de todo o mal: O Macaco-Rato de Sumatra.

Sério candidato ao título de filme mais escatológico de todos os tempos, o divertido Fome Animal conta a história do ingênuo Lionel, um rapaz que vive sob as rédeas de sua opressiva mãe. Ele se apaixona pela insossa atendente de supermercado Paquita e a convida para um bucólico passeio no zoológico. Sua mãe espreita o casal de pombinhos por detrás de uma das jaulas quando o pior acontece: ela é atacada pelo temível Macaco-Rato de Sumatra, uma criaturazinha diabólica cuja mordida transforma suas vítimas em zumbis (e que nem por isso recebia qualquer tratamento diferenciado da segurança do zôo, é claro). Não demora muito para que comecem a surtir os efeitos e a mãe de Lionel se decomponha. O pobre rapaz tenta mantê-la em casa, mas uma série de incidentes e uma festa no local acabam por alastrar a terrível ‘doença’.

Paquita: “Sua mãe comeu meu cachorro!”

Ainda que repleto de cenas chocantes (calcula-se que na seqüência final do longa Jackson tenha usado mais de 1000 litros de sangue de porco) Fome Animal é pontuado de momentos impagáveis, como quando Paquita surpreende a velhota zumbi banqueteando-se de seu pastor-alemão e grita num nada convincente tom de perplexidade “Sua mãe comeu meu cachorro!”. Ou ainda quando o pároco local parte para uma luta corporal contra os zumbis: “Eu dou porrada em nome do Senhor!”. Boa pedida para se ver com os amigos, acompanhado de um anti-ácido.

James Cameron por sua vez, em 1981, ficou a cargo da direção do sofrível Piranhas 2: Assassinas Voadoras. Sim, pois o cinema de terror sempre teve uma quedinha por animais, sejam aranhas, formigas, abelhas, pássaros, gatos, ratos e, acreditem, até coelhos (Night Of The Lepus, de 1972). Em Piranhas 2, um hotel costeiro organiza uma tradicional festividade que atrai centenas de turistas ao local todos os anos: a Noite do Peixe Frito. Uma série de misteriosos ataques coloca em risco a sua realização, mas o ambicioso organizador do evento, é claro, mantém a data da comemoração. Qualquer semelhança com o clássico Tubarão, de Spielberg (feitas as óbvias ressalvas) não é mera coincidência.

Dessa vez, no entanto, as vilãs são menores, atacam em bando, voam (!) e não obstante resolvem problemas conjugais, assassinando o Ricardão. Entre cenas de nudez, diálogos infames (“Sabe do que meu marido morreu? De tesão!”) e 88 minutos de muita bobagem, Piranhas 2 vale ser visto a título de insana curiosidade.

O seu maior pesadelo... agora com asas!

Já consagrado, Cameron ainda revelaria sua obsessão aquática no ótimo O Segredo do Abismo e em sua obra prima Titanic, que também o consagrariam como um diretor exageradamente perfeccionista (a ponto de manter uma lâmina de barbear junto de si nos sets das conturbadas filmagens de Titanic com os dizeres “Use se o filme for um fracasso”).

O fato é que Cameron, Jackson e tantos outros que se aventuram nesse meio imprevisível, regrado por tendências e limitações, têm uma dura tarefa a cumprir.
Talvez a palavra que melhor defina a trajetória desses dois diretores, e a da maioria das pessoas reconhecidas pelo seu talento no geral, seja, na verdade oportunidade.

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