COLUNA: Todos por Um

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// 10/08/2008

Positivo ou não, alguns astros do cinema se consagram por apenas um personagem. Tudo bem que muitas vezes foi isto que  lhe rendeu fama e fortuna, mas conviver com isso pelo resto da vida não deve ser muito prazeroso.

Todos por Um
por Breno Ribeiro – crítico e colunista

Se, ao ouvir os nomes ou vir fotos de atores como Tobey Maguire, Charles Chaplin, Christopher Reeve e Daniel Radcliffe, você se lembrar automaticamente dos personagens Peter Parker/Homem-Aranha, Carlitos, Clark Kent/Superman e Harry Potter respectivamente, saiba que você não está sozinho. É muito comum desde que o cinema é cinema que alguns atores e atrizes fiquem “imortalizados” na mente dos espectadores por seus papéis mais marcantes e acabem sendo conhecidos pelos nomes dos personagens. Por exemplo, quando vi “Seabiscuit”, protagonizado por Tobey Maguire, ouvi alguém dizendo na fila que estava indo ver o “novo filme do Homem-Aranha”, como se o ator não tivesse nome. Normal isso, embora alguns deles não gostem. Entretanto, não são sempre os mesmos motivos que fazem os atores ficarem assim tão famosos por um trabalho só.

Tomando como exemplo o próprio Maguire, podemos atribuir a primeira causa desse fenômeno metonímico: simplesmente existem atores que só dão sorte com papéis uma vez. Digo isso porque, cá entre nós, nenhum outro trabalho de Tobey Maguire será tão reconhecido pelo público como o Cabeça de Teia. Não digo isso por ele ser um mau ator, pelo contrário, até gosto dele, mas é fato que dificilmente um trabalho futuro dele terá tanto cunho popular como Peter Parker. O mesmo pode-se dizer de Hugh Jackman, Matthew Broderick e Ellen Page que, embora sejam excelentes artistas e ganhem prêmios por outros papéis e sejam aclamados pela crítica em outros projetos, muito improvavelmente serão conhecidos no futuro por personagens diferentes de Wolverine (X-Men), Ferris Bueller (Curtindo a Vida Adoidado), e Juno (Juno). Embora o caso de Page seja difícil de avaliar pelo fato de ser muito recente.

Tal caso não se aplica a Charles Chaplin, o eterno Carlitos. Chaplin dedicou praticamente toda sua vida de ator ao personagem e parecia gostar de ser reconhecido por esse papel em particular. Não conheço algum ator atualmente que se empenhe tanto em um único papel como Chaplin fez no passado.

Há também o caso de atores que foram obrigados a largar a carreira antes que pudessem atuar em projetos diferentes dos que os tornaram tão famosos e/ou reconhecidos, como o caso de Christopher Reeve. Artistas que pareciam ter potencial para brilhar em outros papéis tanto ou mais nos que podemos chamar de “principais” de suas carreiras, mas que não prosseguiram devido a acidentes, doenças ou mesmo morte. Reeve, por exemplo, ficou anos paraplégico depois de uma queda de cavalo. Os outros exemplos que se encaixam aqui são os de Michael J. Fox, o Marty McFly da franquia De Volta Para o Futuro (é quase impossível não se lembrar dele andando naquele skate planador!), que sofre do mal de Parkinson desde 1991. E por que não citar o mais recente exemplo hollywoodiano desse time? Heath Ledger, por mais que tenha feito papéis excelentes e muito bem premiados anteriormente, tem tudo para ser reconhecido daqui alguns anos como “o Coringa do Batman”.

Partindo pro último e mais conturbado caso de “esse artista me lembra tal personagem”, temos os atores que entram para determinado filme aparentemente por suas semelhanças físicas com o papel principal, mas que não possuem talento suficiente para continuar à procura de outros tão bons. O primeiro exemplo para isso seria Daniel Radcliffe que, embora já tenha feito outros filmes, nunca será reconhecido por mais nada a não ser Harry Potter. Não porque ele não tem sorte se achar outros papéis tão bons, mas sim devido sua falta de talento para prosseguir na profissão com estilo. Outro caso a ser citado é do sem-graça Hayden Christensen que jamais na sua vida será lembrado por outra coisa a não ser o pessimamente feito Anakin Skywalker, de Star Wars.

Existem também aqueles artistas sortudos que conseguem ser reconhecidos por muitos personagens que fizeram. Por exemplo, você consegue se lembrar de Tom Hanks e Johnny Depp por apenas um papel? A resposta da maioria, eu espero, será “não”. Seja por Forest Gump (Forest Gump), Paul Edgecombe (À Espera de Um Milagre), Chuck Noland (O Náufrago) e Robert Langdon (O Código DaVinci); ou por Edward (Edward Mãos-de-Tesoura), Don Juan (Don Juan), Jack Sparrow (Piratas do Caribe), Willy Wonka (A Fantástica Fábrica de Chocolates) e Sweeney Todd (Sweeney Todd), o fato é que esses dois atores, assim como alguns outros, terão muito pelo que serem lembrados no futuro.

O fato é que o reconhecimento de um único trabalho na vida de um ator em detrimento dos posteriores e anteriores se deve tanto ao talento do próprio ator em encontrar trabalhos equivalentes, quanto na sorte em encontrá-los e também em quão popular e imortalizado esse personagem será. E isso depende, entre muitas coisas, do público. É muito mais fácil para o público se lembrar de personagens marcantes de blockbusters do que de personagens marcantes em filmes dramáticos. Dessa forma, acredito que os atores não devam ficar tão aborrecidos assim quando citam apenas um personagem em sua carreira, pois é melhor ser lembrado por apenas um do que passar sem ser notado para sempre.

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