CRÍTICA | 12 Anos de Escravidão

Críticas
// 02/03/2014

Em dia de Oscar, vamos publicar uma das críticas dos indicados à categoria principal que deixamos para trás quando o site esteve fora do ar.

12 Anos de Escravidão
por Gabriel Giraud

O tema da escravidão negra é um assunto sempre relevante a ser tratado — ainda mais enquanto nossa sociedade for racista. A escolha de Steve McQueen de abordar o assunto pela adaptação do livro de Solomon Northrup é, sem dúvida, um grande acerto no que concerne sensibilização às questões de cor de pele negra. E, felizmente, o nome de Steve McQueen e o elenco que estrela 12 Anos de Escravidão garantem uma projeção profusa a esse debate.

No entanto, a adaptação de uma biografia nem sempre se encaixa no que se espera de um roteiro cinematográfico, e esse é um caso em que se averigua isso. Bass, personagem de Brad Pitt, aparece como um deus ex-machina no filme. Mas a vida real está cheia desses acontecimentos milagrosos que independem de qualquer acontecimento prévio, não é verdade? Então, vá ao cinema esperando por uma biografia, cheia de desencontros e aleatoriedades, em vez de um roteiro típico.

Não ache que, por se tratar de uma biografia, McQueen pretere a qualidade fílmica de 12 anos de escravidão. Como um dos elementos outros que legitimam a qualidade do filme, há de se destacar a atuação de Chiwetel Ejiofor. Por ser precisa e justa, ela provoca campo gravitacional e atinge a atenção do espectador, que toma a perspectiva do protagonista/narrador. Michael Fassbender é um ótimo ator, mas seu personagem, Mr. Epps, parece overacted por vezes. Por viver sempre ébrio, o antagonista corre por todos os lados atras de sua obsessão, Patsey, personagem de début da impressionante Lupita Nyong’o. Aliás, a tensão entre todos os personagens é incrivelmente orquestrada por meio do roteiro e elenco; apesar de os escravos viverem uma subvida e de seus donos serem cruéis, as vontades humanas — saudade, volúpia, redenção, razão — estão bem talhadas nesta história que poderia ter caído facilmente no maniqueísmo.

O filme cai, entretanto, numa abordagem bastante descritiva na maior parte de seu desenvolvimento. McQueen apresenta algumas tentativas de sair desse tipo ao buscar, em algumas cenas, um efeito catártico mais condizente com a visão do cinema contemporâneo. O uso do plano-sequência na cena do castigo de Patsey parece mais uma pretensão de mise-en-scène do que uma qualidade narrativa. Na cena da venda de escravos em que a mãe é separada das filhas, o plano-sequência é legitimado pela presença do olhar de Freeman (Paul Giamatti), com uma ótima edição em quadro, com duas ações ocorrendo simultaneamente — uma em primeiro plano, entre Freeman e Ford (Benedict Cumberbatch) e outra em segundo plano, com Solomon e Eliza (Adepero Oduye). De todo modo, a câmera de McQueen se faz presente nessas raras tentativas, o que não é considerado uma qualidade de direção.

A falta de resoluções dos personagens secundários é uma outra busca que desenha um tom bem interessante ao filme, mantendo-se fiel ao olhar de Solomon e fugindo dos filmes históricos que finalizam cada enredo de cada personagem que cruza a trajetória do protagonista. Outras características positivas são a fotografia e o figurino, questões técnicas essenciais para a imersão do espectador nos Estados Unidos escravocrata.

Certamente é um belo filme. E é um filme muito bem feito. Cinematograficamente, o longa tem centelhas de inovação, mas não acende a chama da magia da sétima arte. 12 anos de escravidão não faz um caminho muito inovador. Infelizmente, a trajetória do cinema não deve ser alterada pela saga de Solomon — mas vale a mensagem.

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12 Years of Slave (EUA, 2013). Drama.
Direção: Steve McQueen
Elenco: Chiwetel Ejiofor, Michael Fassbender, Lupita Nyong’o, Benedict Cumberbatch

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Críticas, Drama