CRÍTICA: 127 Horas

Biografia
// 17/02/2011

Neste fim de semana estreia no Brasil o último dos indicados ao Oscar de melhor filme. Assim, neste ano, ninguém poderá reclamar que estes filmes só estreiam depois da premiação – que ocorrerá dia 27 de fevereiro. 127 Horas não é favorito aos principais prêmios, embora tenha seis merecidas indicações, mas um dos menores prêmios, quem sabe?, ele possa arrematar.

127 Horas
por Henrique Marino

Danny Boyle volta ao palco das premiações após seu sucesso Quem Quer Ser Um Milionário, o qual venceu oito das dez indicações ao Oscar, sendo “melhor direção” uma delas. Mas Danny é mais que isso. Na década de 1990, escreveu seu nome na história do cinema com seu longa-metragem, hoje bastante lembrado e adorado, Trainspotting. No decorrer de sua carreira, o diretor encontrou e refinou seu estilo. 127 Horas é o resultado desse trabalho para o cinema – que tem pouco menos de 20 anos.

Em 2003, enquanto Sr. Boyle colhia os frutos das estreias pelo mundo de “Extermínio” e enquanto você vivia a sua luta diária e rotineira pela vida, indo à escola, faculdade, emprego ou ao médico ou dentista, Aron Ralston também travava sua luta pela vida; no entanto, a dele foi um pouco mais dramática. Com o braço preso entre uma rocha e um paredão, impossibilitado de dali sair, dentro de uma fenda no meio do Canyon, sem ter avisado ninguém que estaria por ali, o nosso heróico aventureiro Aron teve uma das experiências de vida mais comentadas da última década. Foram 127 horas de batalha em que, no final, Aron Ralston apenas conseguiu sobreviver amputando seu próprio braço. Quem de nós teria feito o mesmo? Talvez a vontade de viver esteja incutida em todos nós, e numa situação extremada de morte ela venha à toa; talvez não, e aí vale a divagação: personagens míticos são mais reais do que imaginamos ou personagens reais são mais míticos do que pressupomos ou ambos.

Baseado na autobiografia de Aron (Between a Rock and a Hard Place, sem tradução), o roteiro tinha um grande problema para ser lidado: como contar em duas horas a história de um cara que ficou cinco dias preso num ambiente claustrofóbico. Para tanto, Danny Boyle, pela primeira vez, se meteu a roteirista junto a Simon Beaufoy, quem roteirizou a adaptação de Quem Quer Ser Um Milionário – e venceu Oscar por isso. Ambos resolveram o problema de duas maneiras: ritmo e onirismo.

O ritmo é marcado por contrastes – em todos os aspectos formais do filme (música, fotografia, edição, disposição da narrativa); especialmente os dois últimos, edição e narrativa, são responsáveis por manter o espectador preso ao filme; com eles, Danny Boyle contrapõe tomadas animadas e rápidas à tomadas angustiantes e lentas, ou então contrapõe o que há de cômico no filme com o que há de terror – sim, há alguns elementos de comédia e de terror juntos numa história dessas. O onirismo fica por conta dos desejos, lembranças e sonhos de Aron; lembraças da ex-namorada e família, desejos de sexo e de fome, sonhos de consertar erros passados, de reviver momentos, de sair dali e de satisfazer seus anseios, sonhos de vida.

Deste modo, 127 Horas é brilhantemente concatenado em todos os seus detalhes. Direção e edição funcionam para este roteiro comovente e inspirador. Mas não só esses dois departamentos, como também, já citados, a fotografia e a trilha sonora. A fotografia feita pelo também premiado por Quem Quer Ser Um Milionário Anthony Dod Mantle conserva os contrastes: são cores fortes, diagonais gritantes, luminosidades contrastantes (a notar pela diferença da luz sutil da fenda com a luz dura do sol) ou, então, nos enquadramentos: closes fechados e íntimos em contraposição a planos abertos que dimensionam a pequeneza do homem em relação à natureza. Na trilha sonora, o compositor indiano A.R. Rahman (também premiado por Quem Quer Ser Um Milionário), faz outro trabalho incrível; ele também trabalha o contraste: sua trilha por vezes é agitada e alegre, outras tempestivas, aflitivas, melancólicas, ou ora dão o tom de suspense necessário.

Embora a trilha sonora tenha sido indicada ao Oscar, é com a indicação à “melhor música” que 127 Horas e A.R. Rahman têm suas melhores chances de vitória. Composta por Rahman e escrita por Dido, a música, “If I Rise”, é daquelas que agrada a Academia: calma e enternecedora, carregada de um clima etéreo dado pela voz de sua cantora, lembra “May It Be” e “Into the West”, ambas da trilogia do Senhor dos Anéis, ambas indicadas ao Oscar, sendo a última vitoriosa do ano de 2004.

No entanto, nada disso teria funcionado se o protagonista não fosse bem interpretado. Toda essa técnica primorosa teria se perdido no filme se James Franco não tivesse cumprido devidamente o seu trabalho; e ele o cumpre – dignamente. James encarna o personagem com paixão. Ele conquista o público com o seu humor, sua raiva, sua coragem e sua angústia. Não vemos em tela James Franco, aquele ator de Homem-Aranha, mas a experiência física e psicológica de Aron Ralston expressa pela sua ótima atuação.

127 Horas, portanto, vem como um dos melhores filmes de 2010 (2011 para nós brasileiros). Suas indicações ao Oscar são pouco comparadas a sua primazia na sétima arte, e faz, junto a outras grandes películas, com que essa edição da premiação seja uma das mais ricas da última década. A intensidade com que essa história poderosa é contada pelo estilo único de Danny Boyle e sua equipe especialmente elencada vale como experiência cinematográfica, e também para reflexão individual sobre o que é vida e como nós vivemos a nossa.

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127 Hours (EUA, 2010). Drama. Fox Filmes.
Direção: Danny Boyle
Elenco: James Franco
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Biografia, Críticas, Drama