CRÍTICA: 15 Anos e Meio

Comédia
// 01/07/2010

15 Anos e Meio é uma “dramédia” extremamente americanizada. Situações, temas, músicas e personagens muito típicas desfilam pelo roteiro, dando aquela sensação de mesmice, de “isso é o clichê de sempre falado em francês”. O que há de diferente no filme de François Desagnat e Thomas Sorriaux é o reconhecimento dessas semelhanças.

Leia mais em

15 Anos e Meio
por Pedro de Biase

O alemão Albert Eistein sabe como é ser “engolido” por uma nação que não é a sua. Seja como o criador da bomba atômica ou como um senhor descabelado com a língua de fora, sua figura é associada aos Estados Unidos – a famosa fotografia foi tirada na Universidade de Princeton. Sua presença em 15 Anos e Meio é importante por causa desse detalhe.

O protagonista é Philippe Le Tallec (Daniel Auteil), cientista francês que viveu nos EUA para construir uma grande carreira. Porém, deixou sua filha, Eglantine (Juliette Lamboley), aos cuidados da mãe na França, e tem de voltar 15 anos depois para cuidar da adolescente. A falta de contato gera desentendimentos, especialmente no tocante à vida amorosa (e sexual) de Eglantine. Einstein (François Berléand), espécie de amigo imaginário do pai iniciante, lhe dá dicas de como lidar com a difícil situação.

Na manhã após o reencontro, Philippe faz ovos fritos e bacon, um verdadeiro desjejum norte-americano, mas ela diz preferir algo francês. Logo em seguida, pede para o pai comprar Coca-Cola para ela. Fica claro que o filme reconhece as influências norte-americanas e julga que não se pode escapar delas. Propõe, inclusive, uma aliança: o tom de dramédia teen é bem característico, alguns devaneios de Philippe envolvem hip hop e fitas de ação à la Rambo e há até uma cena vinda diretamente de um filme policial dos anos 80.

Pode-se discordar que isso é saudável e que cada país deve respeitar as características de seu próprio Cinema. Há uma quantidade notável de semelhanças, além das já citadas: o choque do pai ao ouvir falar sobre sexo na adolescência, a colegial fútil que namora o garoto mais cobiçado da escola, a descoberta do primeiro amor, as trapalhadas, as intrigas, a trilha sonora teen e por aí vai.

O que torna eficiente essa colaboração internacional é o que a comédia ganha. A sinceridade de Eglantine e Philippe é tocante, pois eles não servem apenas para fazer rir. Ao contrário do que costuma ocorrer, os personagens não existem em função dos elementos cômicos.

Esse esforço é reforçado pela costumeira boa atuação de Auteil e pela surpreendente Lamboley. Os sentimentos de Eglantine sempre soam reais, e o humor ganha por se tornar consequência de uma personagem bem escrita. Quando o drama precisa surgir, é uma necessidade genuína e coerente. Também há momentos como o da metralhadora e o “discurso” de Philippe na rave, bem-vindas farpas às futilidades do Cinema dos EUA.

A mistura nem sempre dá certo, e certas situações e personagens descambam para uma função puramente cômica. É muito desonesto, ou preguiçoso, ou ambos, deixar que os vícios de outro país encaminhem uma produção francesa tão consciente de suas influências. Pior, a péssima solução para as experiências de Le Tallec parece dizer que essas influências não são só generalizadas, mas também imprescindíveis para a França. Isso desequilibra a difícil balança proposta pelo roteiro de Desagnat e Sorriaux.

O final acerta pela coerência e pela noção que tem dos personagens. Se bem que, se alguém se interessar, será muito fácil fazer uma continuação. E se existe algo mais americanizado que comédias bobas, esse algo são continuações desnecessárias.


15 Ans et Demi (França. 2009). Comédia. Pandora Filmes.
Direção: François Desagnat e Thomas Sorriaux
Elenco: Daniel Auteuil, Juliete Lamboley

Comentários via Facebook
Categorias
Comédia, Críticas