CRÍTICA 2: Thor

Ação
// 30/04/2011

Assim como fizemos na época do lançamento de Watchmen, Thor recebe hoje a sua segunda crítica, feita desta vez por alguém que acompanhou os quadrinhos do herói e que pode perfeitamente analisar os pontos-chave da passagem das HQs para o cinema da história do deus nórdico: Rafael Rodrigues, que já há bastante tempo vem publicando seus artigos sobre os quadrinhos no cinema aqui no site.

O texto, que você lê clicando em “Ver Completo”, mistura o ato crítico com apontamentos necessários para compreender o que foi feito com a trama original, bem como traz comentários acerca do intuito da produção destes filmes e seus perfis. Além disso, como objetivo principal, expõe o ponto de vista de um fã de quadrinhos e, por assim o ser, é posto de maneira mais pessoal e menos distanciada, ainda que preservando o discernimento e os olhos atentos para as possíveis falhas de Thor.

Thor
por Rafael Rodrigues

Quando a Marvel Comics começou, super-heróis não eram mais novidade. Afinal, o público já conhecia muitos dos personagens que são populares até hoje. Mesmo assim, a editora cresceu e se tornou uma das maiores do mundo (se não atualmente a maior). Por quê? Porque trouxe um novo fôlego às histórias de super herói, que estavam desgastadas por personagens que traziam as mesmas personalidades, as mesmas aventuras, sem muitos conflitos pessoais e, principalmente, cada vez mais longe do público em termos de identificação. Porque foi corajosa em criar super heróis mais humanos, que tinham personalidades imperfeitas. A Marvel simplesmente ousou fazer aquilo que até então não havia sido feito. Nada de mais, mas ninguém havia pensado nisso.

Então, muito tempo depois do surgimento da editora e amargando décadas de filmes medíocres nas mãos de outras produtoras, a Marvel decidiu conquistar na raça seu espaço no cinema criando seu próprio estúdio, e assim uma nova revolução surgiu. Nada que possa ser considerado genial – na verdade, até bem simples e óbvio – mas fundamental: fazer filmes com seus super heróis usando, no cinema, aquilo que deu certo nos quadrinhos (guardando-se suas devidas proporções). A Marvel Studios começou, assim como a Marvel Comics, em uma época em que filmes baseados em quadrinhos não eram novidade. No entanto, assim como sua contraparte bidimensional, trouxe novo fôlego a este tipo de produção, gerando filmes que não são complexos, cultos, nem geniais; mas são um ótimo entretenimento que não agridem a inteligência de seu público, além de serem fiéis à essência do material fonte.

Depois do sucesso dos dois Homem de Ferro e da promessa de juntar seus heróis no primeiro filme baseado em uma superequipe de quadrinhos (que é levado à sério, desconsidero tentativas como Liga da Justiça da América, dos anos 90), era com grande expectativa que os fãs aguardavam a estreia de Thor. E qual foi o resultado?

Como já ouvi de um amigo que escreve para um site de quadrinhos, a Marvel Studios tem se especializado em fazer ótimos filmes medianos, ou seja, filmes que na realidade não são nada de mais, mas parecem entregar muito mais. Com isso, todos ganharam, pois o público mais exigente – leia-se “chatos” – não se decepciona, o público menos exigente consegue entender o filme e o estúdio lucra, garantindo a continuidade dos trabalhos e dos filmes. Thor, apesar da história completamente diferente, estaria no mesmo nível dos filmes do Homem de Ferro (em termos de simplicidade/qualidade da história, cenas de ação, alívios cômicos, entre outros) se não fosse um fator determinante: Kenneth Brannagh.

Conhecido por suas adaptações Shakespearianas, Brannagh tem um background e um peso dramático muito superior ao de um Jon Favreau (Homem de Ferro I e II) ou de um Louis Laterrier (O Incrível Hulk), o que se percebe durante o filme. Não é algo que particularmente tenha percebido de forma consciente, mas muitas cenas tiveram aquele quê de “hm, essa cena não é nenhuma novidade, mas tem alguma coisa aí que faz ela ser melhor”. É claro que o que vemos em Thor é um Brannagh muito mais “pop”, mas ainda assim superior aos seus colegas de outros filmes da Marvel.

A história é bastante fiel às HQs, embora com algumas diferenças (como Jane Foster de cientista ao invés de enfermeira como nos quadrinhos) e, claro, uma brusca resumida no contexto do personagem. Então não esperem os deuses da mitologia nórdica tal e qual; o Thor que vocês verão na tela é uma versão repaginada do mito e muito mais adaptada aos dias de hoje, muito mais voltada para a teoria dos deuses astronautas do que para a magia e o sobrenatural. Os fãs de quadrinhos podem ficar tranquilos, pois este é o Thor que vocês conhecem, sem dúvida.

Uma das maiores dúvidas dos fãs era como fazer a história de Thor funcionar no cinema, misturando o pano de fundo mitológico com os dias atuais sem que ficasse ridículo, estranho ou destoante demais. Mas as decisões tomadas pela produção e pelo diretor foram eficientes e conseguiram a uniformidade necessária para fazer com que entendamos estes dois universos profundamente singulares como complementares, não excludentes, como se fossem dois lados diferentes de uma mesma moeda. Muitos poderão torcer o nariz para o excesso de piadinhas durante o tempo em que Thor está na Terra (no começo eu também o fiz), mas um olhar mais atento nos faz perceber a intenção do diretor; essa foi uma das formas que ele encontrou para dar um senso de veracidade para o mundo dos deuses. Em outras palavras, a Terra é para Thor uma paródia, uma caricatura do “mundo real”, que na perspectiva dele é Asgard.

O roteiro é bastante simples e não tem rodeios – na verdade, para quem conhece os quadrinhos, é até bastante previsível. Não haveria como ser diferente, creio. Com algumas coisas que parecem bastante apressadas e algumas soluções bastante simplistas, a impressão que temos é de estarmos lendo uma das HQs mensais da Marvel (conflito, cena de ação, cena de romance, conflito, alívio cômico – sem se aprofundar muito em nada disso). Mas este tipo de coisa não me incomodou, visto que já era esperado (por mim, pelo menos). O elenco foi bastante coeso e homogêneo, diferente do primeiro Homem de Ferro em que, mesmo com outros atores famosos, Robert Downey Jr. carregou muito do filme nas costas. As cenas de ação e as lutas são empolgantes, embora algumas sequências sejam bastante ágeis (mas nada que torne as batalhas confusas, como nos filmes dos Transformers, onde não sabíamos onde terminava um robô e começava outro).

Existem alguns pontos negativos e algumas decisões que talvez pudessem ter sido diferentes. É engraçado ver Jane Foster passar de uma cientista focada a uma adolescentezinha apaixonada em questão de instantes, mas, num geral, Thor funciona no sentido de apresentar um novo personagem a um público que até então não o conhecia, e no sentido de ligá-lo a outros filmes, como Homem de Ferro e O Incrível Hulk. Tudo isso, é claro, para preparar terreno para o filme dos Vingadores, como a própria cena pós-créditos denuncia. Outro ponto interessante para os fãs de quadrinhos é a aparição do Gavião Arqueiro que, diferente do que imaginava, surge mais do que apenas como uma sombra com um arco apontado para Thor.

É bem possível que Thor seja considerado o melhor filme da Marvel até então – eu vejo mais como uma evolução não só do Universo Marvel no cinema, mas também da própria dinâmica dos filmes, que, por mais engessados que sejam (essa é uma desvantagem de todos os longas levarem aos Vingadores, que não podem ir muito longe em seguir seus próprios caminhos), conseguem parecer histórias bastante originais. Acho, no entanto, que os fãs de quadrinhos irão aproveitar muito mais o filme do que espectadores ocasionais que só conhecem os heróis Marvel por seus filmes.

Como apreciador dos quadrinhos, o filme coube dentro das expectativas, afinal de contas, não esperava por uma história ao nível de Cavaleiro das Trevas, e sim Homem de Ferro. Neste caso, não há decepção. Agora, se houver expectativas por um épico nórdico ao estilo O Anel dos Nibelungos ou O Senhor dos Anéis, o baque será maior. Ainda assim, Thor consegue cruzar a ponte entre o realismo e o fantástico de forma competente e deixando um gosto de quero mais. Ainda bem.

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Thor (EUA, 2011). Ação. Paramount Pictures
Direção: Kenneth Branagah
Elenco: Chris Hemsworth, Natalie Portman, Anthony Hopkins, Rene Russo
Trailer
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Ação, Críticas, HQ's