CRÍTICA: 400 Contra 1

Ação
// 05/08/2010

É recorrente a reclamação por parte do público brasileiro que filmes repletos de pobreza e violência sejam produzidos; correndo na contramão, outra parcela do público simpatiza com o estilo e consome-o. 400 Contra 1 não foge à regra do gosto dos dois grupos: quem gosta, apesar da mediocridade da obra, vai consumir de bom grado, enquanto quem não gosta vai fazer cara feia. Pouco vale dizer essas coisas, são meras especulações em relação ao público. Então vamos aos fatos.

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400 Contra 1
por Henrique Marino

400 Contra 1 – Uma História do Crime Organizado se propõe a contar descompromissadamente a pré-história do Comando Vermelho, ou seja, o que fomentou a criação da facção criminosa que, durante a década de 1990, foi uma das mais poderosas do país. O descompromisso se faz fremente a partir do momento em que, em vez de priorizar o contexto histórico – a Ditadura Militar – como meio para a formação da facção, o foco da narrativa se fecha nas personagens e em suas ações. O contexto histórico funciona como um mero pano de fundo que permeia a trama sem cimentá-la. Deste modo, o filme passa longe de soar didático e funciona como estetização da violência e do crime, sem qualquer compromisso histórico.

Caco Souza, diretor estreante no grande cinema de ficção, optou por uma direção pop. Apesar do naturalismo e realismo presentes no enredo e na fotografia, fica clara que a escolha foi trazer um filme que se equilibrasse entre esse pólo sério e outro informal que banqueteasse o espectador com entretenimento; isto é, o filme segue a tendência de obras como Cidade de Deus e Tropa de Elite. A escolha funciona, de fato, como um bom entretenimento, mas não atinge a elevação daqueles enquanto obra artística.

Apesar de bem balancear tensão e diversão, o longa peca na montagem. Os cortes temporais são tantos que a intriga acaba por se perder. O uso constante do artifício não linear da trama confunde e chateia lá pela quinta vez em que uma vinheta aparece para avisar o ano em que a ação ocorre. Os saltos temporais, assim, parecem destituídos de nexo e atrapalham o suspense, o que compromete a captura da atenção do espectador. Este filme é a prova de que a falta de moderação na complexidade da edição pode comprometer a qualidade de um filme.

A história é contada pelo ponto de vista do pivô da fundação do Comando Vermelho, Wiliam da Silva Lima (interpretado por Daniel de Oliveira), que escreveu o livro homônimo que deu origem ao longa. Essa informação implica e explica porque a estetização dos elementos da narrativa seja feita com esmero. Personagens têm mortes heróicas e trágicas e são engrandecidos, mesmo impregnados pela carga negativa que a criminalidade carrega no nosso contexto social; se a glamourização do Comando Vermelho é acertada ou errada, fica a cargo da moral do espectador. Ademais, apesar da humanização das personagens, pouca profundidade há nelas; nenhuma ali tem algo a acrescentar a não ser a ação que exercem na formação do roteiro.

De forma geral, 400 Contra 1 – Uma História do Crime Organizado é mais um filme nacional voltado para a pobreza e, sobretudo, a violência, mas é exceção por não apresentar caráter de denúncia ou referência histórica. É, então, uma tentativa de fazer entretenimento por meio desses elementos, tal qual Tarantino faria; no entanto, o resultado não é tão elogiável como uma obra deste.

400 Contra 1 – A História do Comando Vermelho (Brasil, 2010). Ação. PlayArte.
Direção: Caco Souza
Elenco: Daniel de Oliveira e Daniela Escobar

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Ação, Críticas, Nacional