CRÍTICA: 5x Favela

Críticas
// 29/08/2010

Estreou nesta sexta-feira o longa nacional 5x Favela. Uma trama coletiva construída por cinco curtas de diferentes diretores, supervisionados por Cacá Diegues, mas com um título que remete à quantidade, unicamente, e não à qualidade exatamente.

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5x Favela
por Bruno Cava – Colaborador

5x Favela – Agora por Nós Mesmos compõe-se de cinco curtas-metragens dirigidos por jovens iniciantes que moram em favelas do Rio de Janeiro. Não se deve classificá-lo como longa, da mesma forma que cinco contos reunidos não constituem um romance. Os cinco trabalhos foram a culminação de oficinas de direção e roteiro, empreendidas por coletivos como CUFA ou Nós do Morro, sob a orientação de Cacá Diegues. Este é mais um produto da Globo Filmes, o que assegurou a folgada distribuição no circuito.

O título remete ao Cinco Vezes Favela original, datado de 1962. Igualmente justaposição de cinco curtas, fora realizado no âmbito dos Centro Populares de Cultura (CPC), da UNE, por cineastas que engendravam as bases do cinemanovismo. Eram histórias breves falando da favela, da marginalidade, do samba, da miséria. Aquele filme pretendia representar a cultura popular de um ponto de vista mais engajado, em oposição ao que era considerado “de qualidade” e das chanchadas supostamente menos politizadas.

Agora, em 5x Favela – Agora por Nós Mesmos, propôs-se fazer dos próprios pobres os sujeitos da arte, e não meramente o seu objeto. Idéia comum aos discursos pela transversalidade, pela produção autônoma das comunidades, pela abolição de instância de fora que determina de cima pra baixo o que fazer e como fazer nas comunidades. A palavra chave é protagonismo. Não sejam filmados: filmem-se!

Antes mesmo de assistir, impressiona o trator publicitário acionado pela Globo Filmes para promovê-lo. Críticas exclamativas e recepções esfuziantes pipocaram na internet, em festivais (como Paulínia) e veículos da grande imprensa (em especial nos jornalões associados). Comentaristas e acadêmicos correram para incensar um filme “revolucionário”, “divisor de águas”, “veio para mudar a história do cinema nacional”. Tão paparicados, os realizadores correm o sério risco de deslumbrar-se.

Ora, menos. Trata-se sim de curtas competentes (todos os cinco), com enredos que se esmeram em contornar clichês e representar as comunidades de modo afirmativo, otimista e sobretudo alegre. “Esmerar” é o verbo, pois nítida a pretensão de falar alguma coisa diferente sobre a favela — assunto tão pisado e repisado nos últimos 20 anos pelo cinema nacional. E expressam sim sensibilidades (nem todos) que cativam, como no encontro romântico do menino e da menina que habitam territórios inimigos, em Deixa Voar. No melhor episódio, é fácil simpatizar com a imagem da menina que beija e sorri inocentemente, sobre a ponte entre dois labirintos de vida e morte.

Apesar disso, é preciso ter a coragem de contestar 5x Favela – Agora por Nós Mesmos. Apesar das intenções, da competência técnica, da transversalidade da produção. Embora não se possa enquadrá-lo como longa-metragem, subsiste uma amarrração entre os cinco episódios. Camuflado, porém perceptível o esqueleto autoral. Quer devido à influência de Cacá Diegues, quer à adoção acrítica da poética telenovelesca, o fato é que os cinco curtas se parecem no plano da narrativa.

Se o acontecimento do cinema reside no como se constroem os sentidos, então os trabalhos não diferem muito entre si. Sem incorrer em formalismo, é caso de reconhecer que o cinema se concretiza na singularidade de um certo olhar, de uma certa mobilização do material fílmico. Quer dizer, a narrativa depende menos da representação (plano da história) que do conteúdo singular imprimido pelo artista. Um fazer sem o qual os sentidos afetivos, éticos, estéticos etc, — que a história maneja, — não poderiam ganhar vida. Eis o estilo, num sentido forte e concreto.

No cinema brasileiro, há vários conteúdos já tradicionais de articulação ao redor da favela — que jamais se configura uma poética, e menos ainda uma estética, mas sim uma temática, um motivo inspirador. Portanto, nesse tema, abundam conteúdos que fazem aderir à favela o estado natural hobbesiano, a luta de todos contra todos, a barbárie sem mediações, — fundamento do medo, da estranheza, do preconceito. Ou então instauram na favela o purgatório da beleza e do caos, como num espaço tropical, indeterminado entre o inferno e o paraíso. Ou, na arte de uma esquerda mais ideológica, como denúncia da desigualdade social e seus mecanismos de opressão de classe, num cinema missionário ao qual se opõe 5x Favela.

Neste, a favela comparece como espaço cênico do espontâneo, do vibrante, do autêntico. Como manancial de vida na sua pureza humana. De fato, todos os episódios são movidos por um anseio de pureza, o que se dá mais na narrativa do que nos enredos. Não pela profusão de crianças (aliás cena comum nas favelas), mas pelo sentimento de renovação — tão pertinente no contexto de mudanças profundas e duradouras da sociedade brasileira da última década. Candidez que se repete ao ser narradas aventuras em que riscos e oportunidades são resolvidos a favor da boa consciência e da natureza autêntica, ou pelo menos do arrependimento. Não à toa, a classe-média aplauda de pé, pois tal conteúdo satisfaz sua má consciência e apazigua os seus temores. Se por um lado aproxima mundos, por outro o faz nivelando-os no grau monotônico da linguagem televisiva, e destarte o filme reforça a essência do pobre como pureza, e não como potência.

Vale refletir se essa classe-média freqüentadora dos multiplexes não aplaudirá o filme somente como (mais um) produto bonitinho e pitoresco de “pessoas puras”, como mais uma peça de sua identidade descolada e “livre de preconceitos”. Porque esta é a mesma classe-média que se escandaliza diante de cotas raciais nas universidades, da massificação do bolsa-família e de programas de assentamento e urbanização das favelas na Zona Sul (Rio). Nisso, na relação com o bom-tom, o filme é bastante inofensivo, — e talvez não poderia ser diferente na conta da Globo Filmes (e de Cacá Diegues).

Um momento imoral (e realista) poderia ter ocorrido com o estudante pobre que trafica drogas aos colegas brancos para comprar livros e ser o primeiro da turma — não fosse a punição desferida pelo roteiro a seu irmãozinho, após contornar o chavão da repressão policial. Por sinal, penalização suficiente apenas para restabelecer o bom-tom, mas sem estragar o final de telenovela “global”.

Em suma, falta a 5x Favela – Agora por Nós Mesmos o que falta a qualquer realizador na infância de sua arte e ação. Como explica Carlos Reichenbach, pensar o cinema demanda ver todos os filmes do mundo e dominar formas e expressões, para então repensar, retrabalhar, recriar a sua realidade. Isto não prescinde de uma narrativa capaz de conferir vitalidade às histórias e produzir novos e impactantes sentidos, em genuína política do cinema (e não no cinema). Sentidos que escaparão dos grandes lugares-comuns, quer dizer, das representações surradas da televisão, do videoclipe, dos filmes-de-favela. Quem sabe, assim, uma produção transversal e de “protagonismo” não possa lançar-se ao mundo como obra de arte potente e transformadora – e não quase como curiosidade antropológica, em mostras internacionais não-competitivas disfarçadas de hors concours.

5x Favela – Agora por Nós Mesmos é um bom filme com uma boa proposta, mas está muito longe da panacéia que querem nos vender.

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5x Favela – Agora por Nós Mesmos (Brasil, 2010). Drama. Globo Filmes.
Direção: Carlos Diegues, Joaquim Pedro de Andrade, Marcos Farias, Leon Hirszman, Miguel Borges
Elenco: Thiago Martins, Henrique Montes, Waldir Fiori, Sérgio Augusto, Carlos Estevão, Paulo Cesar Saraceni, Gregório Duvivier, Ruy Guerra, Flávio Migliaccio, Dandara Ohana Guerra

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Críticas, Drama, Nacional