CRÍTICA: A Árvore da Vida

Críticas
// 11/08/2011

Estreia deste fim-de-semana, A Árvore da Vida chega ao Brasil após vencer um dos mais importantes prêmios do cinema mundial, o Palma de Ouro concedido pelo Festival de Cannes. O diretor desta produção venceu o prêmio de direção por Cinzas no Paraíso no mesmo festival no longínquo 1979.

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A Árvore da Vida
por Henrique Marino

Terrence Malick, o diretor e roteirista, criou 5 longas-metragens autorais ao longo dos últimos 38 anos. Da diferença desses números se constata o zelo com que ele trata sua filmografia, sugerindo que cada filme é cuidadosamente pensado e criado. Mas nunca antes, talvez exceto em Além da Linha Vermelha, isso foi verdade.

Com A Árvore da Vida, Malick faz, entre a arte, o que é chamado obra-prima. Se antes possuía preocupação em narrar suas histórias, agora ele se liberta e deixa fluir uma característica já marcante de seu cinema: a poesia manifesta através de belas e reveladoras imagens e, principalmente, de nexos – na montagem dos planos ou do roteiro – que funcionam como figuras de linguagem, compondo artisticamente a narrativa.

Deste modo, fica evidente que a fotografia e a montagem têm papel primordial no filme. A primeira, assinada pelo fotógrafo Emmanuel Lubezki (O Novo Mundo, Filhos da Esperança), traz imagens bastante luminosas e coloridas, sem abandonar a suavidade que tonaliza a trama; trata-se de uma fotografia que oferece, de fato, um deleite visual pela sua qualidade e beleza. Por outro lado, a câmera inquieta contracena ao se movimentar em busca de gestos e olhares sugestivos; assim ela se revela bastante intimista, de maneira que lança o auditório dentro do turbilhão de sentimentos inauditos das personagens – sendo esta a função mais importante dessa fotografia.

Já a montagem pega toda essa fotografia exuberante e inteligente e a recorta em planos bem curtos. Isso dá um ritmo intenso ao filme, o que balanceia o desenrolar lento da narrativa. Aliás, o principal pôster da produção já revela essa visão fragmentada de Malick. Ademais, é preciso salientar o uso poético da montagem. Em diversos momentos, planos, que não estão ligados no tempo ou espaço entre si, são misturados para reforçar sentimentos ou ideias, para revelar as perspectivas ocultas das personagens. Este uso artístico da montagem gera possibilidades abertas de interpretação ou de identificação, colocando o espectador numa posição ativa em relação ao filme.

Outro aspecto que merece lembrança nessa crítica são os efeitos visuais. Os digitais, responsáveis por criar algumas cenas cósmicas e também dinossauros e criaturas microscópicas, são bons e não decepcionam. Contudo são os efeitos fotográficos que impressionam. Malick, pouco fã da tecnologia digital, chamou Douglas Trumbull (conhecido por seus trabalhos em 2001 – Uma Odisseia No Espaço, Contatos Imediatos de Terceiro Grau e Blade Runner) para lidar com essa exigência. E o resultado foi impressionante. Efeitos cromáticos e químicos, experiências com líquidos e fumaça e mais toda sorte de efeitos óticos servem inventivamente para ilustrar o Big Bang e a explosão de vida na Terra.

Mas, afinal, toda essa técnica primorosa auxilia a contar que história? E o doteiro? De que se trata A Árvore da Vida? A liberdade com que Terrence Malick desenvolveu seu filme não permite que essas perguntas sejam respondidas facilmente. Talvez o tema seja a perda da inocência – como gostam de dizer – ou a infância ou a família ou a religião ou a vida, ou tudo isso. Sim, A Árvore da Vida abrange todos esses assuntos, não com um discurso racional, realista e crítico, mas com símbolos, sentimentos e espiritualidade. A obra é aberta e não obriga a leitura de uma mensagem única.

Após um prólogo que diz ser o mundo dividido entre Graça e Natureza e que apresenta uma situação impactante aos personagens já envelhecidos, o filme se desenrola desde o início dos tempos, mostrando o desenvolvimento do Universo e da Vida, até chegar ao nascimento do filho de um casal de classe média estadunidense. Deste ponto em diante, acompanhamos o crescimento do primogênito, descobrimos a personalidade complexa do pai e a personalidade dócil da mãe, somos guiados para dentro das memórias dessa família. Ao som de uma trilha sonora que exala religiosidade, o roteiro conta tudo isso com paciência, sem uma linha narrativa, sem linearidade e sem finalidade; o que pode dar uma sensação de lentidão na marcha do filme, já que conclusões não são ofertadas. O final se apresenta enigmático e pode frustrar o espectador que espera um clímax dramático – que, de certo modo, já é dado no início. Desta maneira, a película exige que o espectador esteja atento, que participe e que simplesmente sinta, antes de querer entender, a história.

A respeito do elenco, é preciso parabenizar alguns atores. Brad Pitt, por encarnar um personagem tão difícil; por transmitir o egoísmo, a dureza e os conflitos internos de um homem frustrado, sem transformá-lo num vilão, e sim mostrando um pai que ama sua família. Jessica Chastain, pela delicadeza que deu vida à personagem da mãe, pela sensibilidade capaz de pungir o auditório. E Hunter McCracken, que interpreta o primogênito ainda na infância, porque soube mostrar as contradições por que passa seu personagem. Em contrapartida, Sean Penn, não faz um grande trabalho como o de costume, mas não por sua culpa; seu papel mesmo não possui muito destaque e só se exige dele uma interpretação bastante artificial. Aliás, das atuações em geral, vale comentar que delas se exige um pouco de artificialidade, considerando que às vezes Malick é bastante idealista; mas isso não é regra, pois, na maioria das vezes, a exigência é a sutileza mesmo.

A Árvore da Vida não é comercial nem de fácil aceitação, mas isso não tira os méritos dessa obra de arte, merecedora da Palma de Ouro e, provavelmente, de algumas indicações ao Oscar. A beleza deste filme perdurará na memória do cinema.

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The Tree of Life (EUA, 2011). Drama. Imagem Filmes.
Direção: Terrence Malick
Elenco: Brad Pitt, Sean Penn, Jessica Chastain
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Categorias
Críticas, Drama