CRÍTICA | À Beira do Caminho

Críticas
// 10/08/2012

À Beira do Caminho
por Virgílio Souza

Breno Silveira, diretor do megassucesso nacional 2 Filhos de Francisco, retorna aos cinemas no comando de À Beira do Caminho, num longa road movie que, em alguns aspectos de sua história, relembra um pouco um dos maiores acertos do nosso Cinema.

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À Beira do Caminho
por Virgílio Souza

“Viver é como desenhar sem borracha”. “Para quem não tem nada, metade é o dobro”. “Quando a saudade não cabe no peito, ela transborda pelos olhos”. “Não há mal que perdure, nem há dor que não se cure”. “Espere o melhor, prepare-se para o pior e aceite o que vier”. As frases de para-choque acima permeiam as ações de À Beira do Caminho como se formassem segmentos flexíveis, etapas da trajetória de sua figura central, o caminhoneiro João (João Miguel), atormentado pelo seu passado e forçado em direção à redenção pela presença do jovem órfão Duda (Vinicius Nascimento), que procura o pai após a morte da mãe.

Escrito por Patrícia Andrade a partir do argumento de Léa Penteado, o roteiro se prende mais aos ditos populares citados – um tanto melancólicos, mas otimistas – do que às canções de Roberto Carlos que o inspiraram, mas que, no limite, servem somente como trilha para o longa em momentos mais ou menos inspirados – e é curioso notar que as faixas ganham muito mais imponência na voz de Vanessa da Mata.

Tão popular quanto esses provérbios é o personagem principal, que, ocupando quase a totalidade do tempo de projeção, se apresenta como uma figura perturbada, mas distante de qualquer traço de coitadismo, ainda que o sofrimento esteja visível em seus olhos, que parecem úmidos a todo instante. Construído de maneira intensa pelo ótimo João Miguel, através de gestos como um constante e inconformado balançar de cabeça e a mania de praguejar com enorme frequência, o protagonista tem no caminhão seu lar e, nas rodovias, seu refúgio.

A estrada, por essa razão, deveria ser mais do que cenário, personagem. No entanto, embora seja retratada com competência de modo extremamente impessoal pela direção de arte e fotografada sempre à distância (repare nos planos abertos de postos de gasolina beirando o asfalto), tem seu simbolismo diminuído frente à necessidade de responder aos vários desafios de sua dupla principal de personagens. A impressão que se tem, em determinado momento, é de que a imensidão das paisagens e tudo o que elas representam (movimento, fuga, origem e destino) não são necessários para o desenrolar da trama – o road movie, aparentemente, poderia acontecer em qualquer lugar.

Assim sendo, a direção de Breno Silveira falha ao não deixar o filme “respirar”, guiando a trama para rumos muito fixos e impedindo que determinados momentos, sobretudo os mais sensíveis, sejam absorvidos em sua plenitude. Aqui, o trabalho de montagem realizado por Vicente Kubrusly também carrega responsabilidade negativa, por forçar a alternância de cenas e interromper a contemplação e o silêncio (os dois melhores elementos da produção, frequentemente subutilizados). É o caso, por exemplo, do trecho em que vemos o caminhoneiro procurar pelo companheiro de viagem entre um grupo de garotos de rua para, em seguida, um corte seco tornar a cena menos emblemática do que sua construção inicial sugeria e merecia.

Problemas como este não impedem, porém, que a transformação de João se desenvolva de forma satisfatória (e é esse o foco, não a busca de Duda pelo pai). A transição encontra fortes reflexos visuais: inicialmente, o menino é enquadrado à sombra do caminhoneiro, que surge em primeiro plano; em seguida, conforme ganha espaço no caminhão e na vida de João, passa a ser filmado em condição de igualdade, com a câmera orientada de dentro para fora da boleia do veículo. A fotografia de Lula Carvalho também é correta ao se valer das cores para marcar momentos distintos do filme: João encontra e acolhe Duda sob a forte luz vermelha dos faróis do caminhão, mas se vê desolado, num momento posterior, iluminado pela luz azul, fria, de um clube noturno.

Ainda que previsível, a variação do personagem é conduzida com competência através de sua interação com o garoto, que, sem filtros (“É por causa da moça da foto?”, “A gente não pode abandonar quem a gente ama, João”) e valendo-se de uma atuação segura, move a trama colocando aqueles ao seu redor em contato com os demônios do passado. Nesse sentido, a ausência de pressa em apresentá-los surge como outro importante mérito do longa, que insere flashbacks capazes de revelar, aos poucos, a conturbada relação de João com Rosa (Dira Paes) e Helena (Ludmila Rosa) e dar o tom preciso do fardo que ele carrega.

Por outro lado, tanto o conflito central quanto o de Duda se resolvem sem o devido zelo. Apesar de tentar amarrar as pontas ligadas aos elementos que apresenta (a caixinha, os discos), o resultado é frágil e quase faz desmoronar a solidez anterior. Tratando as personagens de Ângelo Antônio, Débora Spadaro e Denise Weinberg como meros acessórios narrativos, À Beira do Caminho se afasta do aspecto humano que buscou estabelecer, se contentando mais em oferecer um final feliz falso e asséptico do que em produzir um desfecho que corresponda à frustração de um garoto inocente e obcecado e à covardia de um homem que não buscava a redenção, mas fugia dela.

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À Beira do Caminho (Brasil, 2012). Drama. Fox.
Direção: Breno Silveira
Elenco: Dirá Paes, João Miguel, Ludmila Rosa, Vinícius Nascimento

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Críticas, Drama