CRÍTICA | A Bela e a Fera

Críticas
// 17/03/2017
a bela e a fera

Todo mundo conhece a história do início ao fim. Gerações sabem cantar as músicas de cor. Qualquer pessoa sabe o que acontece ao cair da última pétala. Já era de se esperar, então, que uma gigantesca nuvem de expectativa pairasse sobre a versão live action de A Bela e a Fera, que chegou ontem aos cinemas brasileiros. E a obra não decepciona. O filme com atores passa longe dos erros cometidos pelo lamentável Alice no País das Maravilhas (2010) e o decepcionante Malévola (2014), que fizeram mudanças drásticas na essência das histórias, e se mantém extremamente fiel ao material original. Não há a menor vergonha de apresentar em 2017 cenas quase idênticas às vistas em 1991. Pelo contrário, é esse seu maior compromisso, tal como foi com a boa versão de Cinderela (2015) e o excelente Mogli (2016).

As poucas alterações feitas complementam o enredo de forma satisfatória. O passado da dupla protagonista é mais explorado e os coadjuvantes ganham mais tempo de tela para que suas narrativas sejam desenvolvidas. Emma Watson dá vida a uma Bela ainda mais independente que a feita de tinta. Inteligente, curiosa e aventureira, pensa por si própria e, mais que assistente de seu pai inventor, Maurice (Kevin Kline), ela própria é também uma inventora. Insatisfeita com a vida pacata que leva, encontra nos livros uma válvula de escape, uma forma de conhecer o mundo mesmo sem sair de casa – um escândalo para sua cidadezinha, já que para seus cidadãos uma mulher saber ler e escrever não faz o menor sentido e é algo que deve ser combatido. Tão educada quanto direta, mas nem sempre paciente, ela recusa firmemente as investidas de Gaston (Luke Evans), o machista de mente vazia com quem não quer se casar de jeito nenhum. Excelente exemplo para as crianças.

O estreladíssimo elenco está afiado. Ian McKellen é engraçadíssimo como Horloge e Emma Thompson empresta toda sua simpatia a Madame Samovar. Audra McDonald usa e abusa de sua poderosa voz para interpretar Madame Garderobe e Stanley Tucci e Gugu Mbatha-Raw estão bastante confortáveis como Maestro Cadenza e Plumette, mas o grande destaque entre os serviçais do castelo é o hilário Luimiére de Ewan McGregor, que rouba a cena. E se o seu xodó é a xicrinha Zip, não se preocupe: o novato Nathan Mack tem o carisma necessário para dar voz a ele.

Josh Gad é perfeito no papel de LeFou. Mais que um puxa saco, ele atua como a consciência que deveria existir na cabeça vazia de Gaston, por quem é apaixonado. O primeiro personagem aberta e oficialmente gay da Disney tem papel fundamental na trama, mas o fato de sua sexualidade ser usada única e exclusivamente como alívio cômico serve apenas para perpetuar o estereótipo do homossexual afeminado cuja única função na sociedade é ser motivo de piada. A intenção pode até ter sido boa, mas o resultado acabou sendo homofóbico, mesmo sem querer. De qualquer forma, ainda que tenha sido um tropeço, foi um passo importante para diversidade.

Apenas Dan Stevens, a Fera, destoa do resto do elenco. Bom ator, ele entrega um trabalho competente, mas, ao contrário dos demais, não vai muito além disso. Convence, mas não chega a cativar. O afeto que se sente pelo personagem é mais fruto da nostalgia que de sua representação.

A computação gráfica é excelente e não poderia ser diferente. Afinal, a própria Fera e todos os seus serviçais – um candelabro, um relógio, um bule, um guarda-roupa e por aí vai – são criados digitalmente. Vale ressaltar aqui mais uma vez a fantástica atuação do elenco, que consegue, com facilidade, fazer o público se importar e criar laços com objetos que, de outra forma, seriam apenas antiguidades. Palmas também para a direção de arte, figurino, cabelo e maquiagem, que retratam a França do século XVIII da forma mais realista possível em um filme tão repleto de elementos fantasiosos.

Surpresas estão presentes mesmo para quem já assistiu à animação incontáveis vezes. As novas músicas são uma incrível adição à trilha sonora que você já conhece. Não se surpreenda se as emocionantes “Evermore” e “How Does a Moment Last Forever” forem indicadas ao Oscar de melhor canção original do ano que vem. Alan Menken, o compositor – tanto desta versão quanto da animada – sabe o que faz e faz muito bem. Não à toa, é responsável pelas músicas de clássicos como A Pequena Sereia (1989), Aladdin (1992) e Pocahontas (1995). É difícil se segurar, especialmente quando pratos, copos e talheres dançam a empolgante “Be Our Guest”. Cada número musical ajuda, com maestria, a desenvolver um dos romances mais conhecidos e celebrados da cultura pop.

O remake cumpre o que promete: atualiza a história onde pode fazê-lo sem danificar sua essência. Com roteiro bem construído e reverente à história que todos conhecemos, A Bela e a Fera prova porque é – e continuará sendo, agora em duas versões – um dos maiores clássicos.


Beauty and the Beast (EUA, 2017). Disney Pictures. Fantasia.
Direção: Bill Condon
Elenco: Emma Watson, Luke Evans, Josh Gad, Ewan McGregor, Dan Steves

8-pipocas

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Categorias
Críticas, Fantasia, Romance