CRÍTICA | A Bruxa de Blair

Críticas
// 15/09/2016
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Algo entre uma continuação e um remake com orçamento mais robusto do lendário original, Bruxa de Blair se apoia fortemente na imagética do primeiro filme para construir uma atmosfera tensa, mas afunda entre clichês, viradas forçadas e personagens ainda mais imbecis do que a média do gênero.

Os últimos anos do século 20 foram palco de uma notável revitalização do cinema de horror. A série Pânico modernizou o nicho slasher – aquele do “terror de assassino com faca” – e gerou uma infinidade de franquias-clones ao longo da década seguinte, e Sexto Sentido trouxe credibilidade e empenho narrativo ao uso do sobrenatural na tela grande. Mas talvez a influência mais mensurável sobre o gênero tenha sido exercida por um filme de orçamento consideravelmente mais modesto do que aqueles de que dispunham Wes Craven e M. Night Shyamalan. Filmado em oito dias, por míseros 35 mil dólares e grande parte dos diálogos e reações a cargo do improviso, o arrepiante A Bruxa de Blair, dos então iniciantes Daniel Myrick e Eduardo Sánchez, criou a febre de falsos documentários que até hoje, quase duas décadas depois, ainda não perdeu totalmente a força.

Embora não tenha sido o primeiro filme de terror a utilizar a técnica – honra reservada ao clássico trash Holocausto Canibal, de 1980 -, o “documentário” sobre uma lenda local de Maryland, filmado por três estudantes de cinema, aplicou com eficiência ímpar a máxima de que aquilo que o público não vê é mais assustador do que o que lhe é de fato mostrado. E tentar, sem sucesso, subverter essa cartilha é justamente um dos – vários – motivos por que a sequência-surpresa Bruxa de Blair não funciona a contento.

No novo longa, a dupla roteirista/diretor Simon Barrett e Adam Wingard (da ótima série de antologias V/H/S e o interessante slasher Você É O Próximo) conta a história de James (James Allen McCune), irmão de Heather, a jovem do primeiro filme -, que, junto com um grupo de amigos, retorna à floresta em Black Hills para tentar solucionar o mistério do desaparecimento dos estudantes retratado no original e, inacreditavelmente, procurar a própria Heather, que James acredita ainda estar na mata quase vinte anos depois.

Ao chegarem na área florestal, começa a acontecer o esperado: barulhos estranhos fora das barracas à noite, desorientação do próprio grupo e seus aparelhos de GPS, e a aparição de misteriosas estruturas de madeira ao redor do acampamento. Os misteriosos moradores locais Lane e Talia (Wes Robinson e Valorie Curry, respectivamente), que insistem em acompanhar o grupo completado por Lisa, Ashley e Peter (Callie Hernandez, Corbin Reid e Brandon Scott, idem) também não ajuda em termos de estimular a tranquilidade. E é ainda nessa primeira metade do filme que outro problema fica evidente: toda a construção da atmosfera sinistra de Black Hills é baseada praticamente na refilmagem de situações do original, o que pode até se provar eficiente junto à parcela do público que não esteja familiarizada com o filme de 1999, mas não deixa de denotar uma estranha falta de confiança no próprio taco por parte de Barrett e Wingard.

O longa sabiamente evita fazer qualquer referência ao tenebroso – no mal sentido – Bruxa de Blair 2 – O Livro das Sombras, de 2000, e a dupla criativa parece ter consciência de que tentar superar o original no seu próprio jogo dificilmente daria certo, de forma que optam por aproveitar o orçamento mais robusto, embora ainda modesto, de US$ 5 milhões, em uma experiência mais elaborada visualmente. Infelizmente, essa elaboração é apresentada na forma de clichês, alguns universais no gênero e alguns bem específicos, como pelo menos uma inspiração explícita em [Rec], de 2007, na aparência de uma certa entidade mítica. Como lado positivo, o filme tem um senso de humor autoconsciente que dá um tempero interessante ao caldo, bem como intrigantes referências metafísicas e temporais que, caso melhor exploradas, poderiam poupar o resultado final da palavra que melhor o define: dispensável.


Blair Witch (EUA, 2016). Horror/suspense. Lionsgate.
Direção: Adam Wingard
Elenco:
James Allen McCune, Callie Hernandez, Corbin Reid, Wes Robinson


4-pipocas

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Categorias
Críticas, Terror