CRÍTICA | A Chegada

Críticas
// 25/11/2016

Por mais que o índice de porcarias na produção cinematográfica voltada para o gênero seja inegavelmente alto, devemos reconhecer que a ficção científica também possui notáveis disposição (por parte da fatia criativa da equação, ou seja, roteiristas, diretores, atores e produtores) e receptividade (por parte do público) a novidades em um contexto tão supersaturado de remakes, reboots e sequências quanto o atual.

Baseado no conto Story of Your Life, do autor Ted Chiang, A Chegada é um exemplo de narrativa calcada em princípios científicos que possui identidade e linguagem próprias – em mais de um sentido -, ainda que também apresente evidentes referências e influências de novos e velhos clássicos da vertente cinematográfica, de Contato (1997), baseado no livro de Carl Sagan, ao Interestelar de Christopher Nolan em 2014, dois filmes que, curiosa e coincidentemente ou não, contam com Matthew McConaughey no elenco.

O longa, dirigido pelo franco-canadense Denis Villeneuve, do perturbador O Homem Duplicado, de 2013, e responsável pelo vindouro Blade Runner 2049, traz a enésima representação/especulação cinematográfica de como seria – ou será – o contato inicial da humanidade com uma raça oriunda de outro planeta.

Aqui, a já tradicional sequência em que um militar ríspido e misterioso, porém boa praça (interpretado pelo irrepreensível Forest Whitaker), recruta especialistas (no caso, a linguista PhD Louise Banks, na atuação de Amy Adams, e o físico Ian Donnelly, na pele de Jeremy Renner, ambos ótimos) para participarem da interação com os recém-chegados alienígenas é contada com frieza acadêmica, ainda que entremeada com impactantes flashes da vida pessoal da doutora.

A partir daí, é delineado um quebra-cabeça a ser desvendado por personagens e espectadores quase que simultaneamente, por meio de inventivos recursos narrativos e estéticos. Até pelos temas abordados, a correspondência com Interestelar é inevitável, embora A Chegada seja uma obra menos ambiciosa e, provavelmente por esse mesmo motivo, mais pungente emocionalmente. Após a envolvente primeira hora de exibição, contudo, o filme mergulha em um tedioso segundo ato no qual se perde temporariamente nos próprios mistérios. Grande parte do enredo se baseia nas tentativas de Louise e Ian de decifrarem a linguagem alienígena, uma tarefa compreensivelmente difícil de ser apresentada de forma excitante no cinema, mas que é efetivamente cumprida conforme a narrativa avança.

Como de praxe no cinema atual, a trama reserva uma virada que os mais atentos perceberão à distância, mas que serve perfeitamente à narrativa e ainda é mais bem construída do que 90% das “surpresas” que tantos blockbusters pós-M. Night Shyamalan se veem obrigados a apresentar. Trata-se de um filme instigante e denso, que não se apressa em esclarecer as coisas, mas, quando finalmente o faz, é de forma coerente e respeitosa ao intelecto do público. O que, por si só, já o torna mais ou menos uma raridade.

 


Arrival (EUA, 2016). Ficção científica. 21 Laps Entertainment.
Direção: Denis Villeneuve
Elenco: Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker

7-pipocas

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