CRÍTICA: A Dama de Ferro

Biografia
// 16/02/2012

“Monstra”. É como tem sido chamada Meryl Streep por sua atuação em A Dama de Ferro, que desembarca no Brasil amanhã. E, a julgar pelo filme, o trabalho da atriz se sobressai ainda mais se comparado àquilo que o longa tem a oferecer além dela mesma.

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A Dama de Ferro
por Gabriel Giraud 

Atuação não é imitação. No entanto, em alguns contextos essas duas concepções se confundem. Se considerarmos uma escola de atuação na qual o personagem é uma entidade livre de elementos físicos, uma atriz branca poderia interpretar a filha de uma atriz negra, ou um homem poderia interpretar uma mulher, e por aí vai. O que importa seria somente a instância psíquica que leva a movimentos e ações (verbais ou não).

No Cinema, essas concepções brookianas (dica do Pipoca Combo: pesquise sobre o teatro de Peter Brook, diretor que montou Hamlet, peça que se passa na Dinamarca, com atores não-caucasianos) não funcionam por dois motivos. O primeiro é de que o Cinema é muito mais visual do que o Teatro – é a arte da “grande cabeça falante” na tela, comparados aos pequenos corpos no palco, o que leva o espectador a buscar identidades visuais entre personagem e ator. O segundo é que o Cinema fala para as grandes massas mais do que o Teatro. Isso implica a manutenção do velho star system, além das técnicas visuais que induzem o grande público a procurar o filme, como efeitos especiais, maquiagem, locações e cenografia. A abstração no Cinema é menor, e ela fala melhor para os que não possuem uma formação erudita tão elevada a ponto de compreenderem conceitos que separam ator e personagem. É claro que ressalvas devem ser feitas quanto ao tipo de produção – filmes de autor versus ”macmusicais”, por exemplo.

Dois parágrafos decorridos para apenas agora adentrar a crítica de A Dama de Ferro. Contudo, esses parágrafos servem como importante base para se discutir um dos pontos principais do filme: a atuação de Meryl Streep como Margaret Thatcher. Para tal discussão, há de se levar em conta o que os ingleses disseram sobre o filme. Pesquisando, chega-se à conclusão de que os ingleses são muito suscetíveis a atores americanos “imitando” o sotaque inglês e que o filme não retrata a história tal qual ela se passou, mas sim, a vida de uma mulher.

A personagem fílmica é certamente muito bem escrita, bem atuada e bem produzida. Independente se a atuação compreende imitar bem a voz de Thatcher ou um sotaque britânico, é notável o trabalho de voz da própria personagem dentro de seu arco. A mudança do tom da Thatcher Ministra da Educação para a Thatcher Primeira-ministra é o ápice da transformação de política a líder – que forma o arco secundário do filme.

A linha principal do roteiro é a de uma velha dama que quer se livrar de seus fantasmas e poder seguir lúcida pelo resto de sua vida. Como elementos que compõem esses fantasmas, há a própria assombração de Denis (Jim Broadbent), o sr. Thatcher e, de acordo com o longa, o grande amor da vida de Margaret, além das lembranças presentes em caixas e vídeos. É um roteiro simples: uma mulher idosa vê como única solução para se livrar da iminente loucura uma limpeza dos armários do seu marido. O interessante é como a personagem dessa simpática senhora, numa narrativa bem linear, é intercalado de modo surpreendente com a Dama de Ferro. Há um instigante retrato psicológico da líder do governo (com pitadas de cinema de fluxo) entranhado num outro filme que poderia ser considerado até banal.

Querer ver esse filme, no entanto, implica se interessar e criar uma expectativa histórica em relação ao roteiro e, principalmente, às razões que levaram Thatcher tomar as decisões que tomou. Isso não acontece. Não há explicações factuais ou retomadas baseadas em pesquisas profundas. Infelizmente, o espectador deve continuar com sede mesmo depois de ter ido ao pote. E quem reina soberana não é nenhuma rainha, nem Thatcher, nem a História – é a própria Meryl.

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The Iron Lady (EUA, Reino Unido, 2011). Drama. Paris Filmes.
Direção: Phyllida Lloyd
Elenco: Meryl Streep, Jim Broadbent, Olivia Colman, Alexandra Roach
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Biografia, Críticas, Drama