CRÍTICA: À Deriva

Críticas
// 07/08/2009

á deriva

Elogiado no Festival de Cannes 2009, o mais novo filme do diretor brasileiro Heitor Dhalia (O Cheiro do Ralo), À Deriva, conta a história de uma adolescente e a descoberta de um segredo familiar que a deixa completamente sem rumo. Confira na crítica abaixo os pontos positivos e negativos do mais novo filme nacional. Para conferir a crítica clique em

Á Deriva
por Breno Ribeiro

A adolescência é um tema que já foi diversamente usado não só pelo cinema, mas pelas artes de uma forma geral. Mesmo já soando como um lugar-comum, ainda há uma infinidade de ângulos pelos quais se pode ver o prisma deste tema. É o que tenta realizar o diretor e roteirista brasileiro Heitor Dhalia em seu novo filme, À Deriva.

O longa, aplaudido no Festival de Cannes deste ano, conta a história de Filipa, uma adolescente de 14 anos que descobre que seu pai está tendo um caso extraconjugal, ao passo que o casamento de seus pais começa a ruir e ela intensifica suas experiências interpessoais em meio a dúvidas e questionamentos interiores.

O roteiro, claramente dividido em dois grandes movimentos separados pela descoberta de Filipa, consegue construir bem a personalidade da adolescente através de cenas e diálogos característicos da idade da personagem que, a princípio, aparentam surgir à margem da trama principal. Sendo mais concentrado no que concerne à psique de sua personagem principal, o longa possui alguns deslizes pelo caminho, como por exemplo, as motivações que levam Filipa a situação na qual era descobriria a traição do pai e algumas discussões dos pais dela, construídos maniqueistamente para preservar um segredo revelado ao fim.

Ainda, a escolha de Laura Neiva para o papel de Filipa mostra-se acertada não só pelo seu talento em conseguir transmitir boa parte dos sentimentos e transformações da personagem como também pelo fato de a atriz ser tão jovem quanto Filipa, o que ajuda a tornar o longa mais crível e próximo ao público. Por outro lado, o sotaque (já esperado, claro) de Vincent Cassell faz com que certas cenas soem cansativas e arrastadas, por melhor que seja a atuação do ator, principalmente aquelas em que seu personagem, o escritor Matias, possui falas longas e expositivas, como por exemplo quando ele narra sua mais nova história para um grupo de amigos. Já Débora Bloch surge bem e natural como a mãe problemática e infeliz da família.

Enquanto isso, a direção de Heitor Dhalia é surpreendentemente bem-sucedida ao realizar planos e cenas com posicionamentos não-usuais de suas câmeras, como aquelas em que o aparelho se encontra escondido entre arbustos e galhos de árvores sobre uma colina para enfocar os personagens na praia. Ainda, a seqüência final, iniciada pelo travelling que acompanha Filipa em sua corrida final até a praia e seu posterior envolvimento com um personagem, funciona perfeitamente bem, causando a tensão necessária que guiará os personagens ao final da projeção.

Mais do que um filme sobre adolescência e suas conseqüências na vida das pessoas, À Deriva é um ótimo longa sobre uma família e as mudanças que um segredo descoberto pode causar em uma mente ainda em desenvolvimento. Assim, a condição expressa no título se mostra ao longo da narrativa inerente a todos os membros da família de Filipa e não somente a esta. Infelizmente, talvez, a falta de uma conclusão mais firme para filme não agrade a todos os telespectadores que podem vir a se sentir tão à deriva quanto os personagens que presenciaram por quase duas horas.

nota_8

À Deriva (2009, Brasil). Drama. Universal Pictures.
Diretor: Heithor Dhalia
Elenco: Vicent Cassel, Débora Bloch, Laura Neiva, Cauã Reymond, Gregório Duvivier, Camila Belle.

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Categorias
Críticas, Drama, Nacional