CRÍTICA | A Entrevista

Comédia
// 04/02/2015

Segundo trabalho de Evan Goldberg e Seth Rogen como diretores, A Entrevista chega aos cinemas brasileiros após enfrentar um furacão de polêmicas, ameças terroristas, cancelamentos e reagendamentos – e o que sobra disso tudo é apenas uma comédia divertidinha que, no fundo, não tem muito a dizer e fatalmente não merecia tamanha atenção.

A Entrevista
por Eduardo Monteiro

Em 2006, uma legião de brasileiros patriotas raivosos lançou uma campanha por e-mail em forma de corrente com o objetivo de boicotar o filme Turistas, baseando-se em suposições sobre a forma pouco lisonjeira como o Brasil e seu povo eram representados pelo terror – o que, inevitavelmente, atraiu muito mais atenção do que aquela bobagem merecia ou receberia. Cinco anos mais tarde, autoridades incompetentes da Justiça Federal baniram A Serbian Film – Terror Sem Limites do circuito nacional sob alegação de conteúdo impróprio – o que, também, gerou curiosidade e interesse que o filme provavelmente jamais conseguiria despertar por conta própria. Eis que, em pleno 2014, as pessoas aparentemente ainda não haviam aprendido o efeito contrário que uma proibição pode produzir: vítima de ameaças de atentados nos cinemas americanos que o exibissem, A Entrevista foi primeiramente adiado, radicalmente cancelado logo em seguida, disponibilizado em mídias digitais pouco depois e, por fim, reagendado em todo o mundo pela Sony, tudo em questão de pouquíssimos dias.

Não consigo imaginar com precisão a dimensão do impacto comercial sofrido pelo filme (aparentemente, não foi pequeno), mas é inegável que toda a confusão lhe serviu como publicidade gratuita – ligeiramente mais merecida do que os lançamentos citados no parágrafo anterior. Escrita por Dan Sterling a partir de uma ideia concebida por ele próprio ao lado dos diretores Evan Goldberg e Seth Rogen, a comédia gira em torno do apresentador Dave Skylark (James Franco) e seu produtor Aaron Rapaport (Seth Rogen), que trabalham juntos em um tabloide televisionado sobre celebridades e afins. Ambiciosos e interessados em entrevistas cada vez mais bombásticas e exclusivas, os amigos decidem tentar marcar um bate-papo com ninguém menos que o Líder Supremo da Coreia do Norte, Kim Jong-Un (Randall Park). Fã confesso do Skylark Tonight e de outros produtos da cultura norte-americana, o ditador topa conceder a entrevista como estratégia para fomentar sua própria propaganda, ao mesmo tempo em que a CIA tenta usar a proximidade entre Skylark e Jong-Un para arquitetar um atentado contra a vida do governante, evitando assim alegados ataques nucleares iminentes aos EUA.
Pontuado por breves participações de celebridades, A Entrevista atinge seu auge cômico logo no início da projeção com as divertidíssimas pontas de Eminem e Rob Lowe – e embora possua sua dose de humor, toda a etapa que envolve de fato a trama da Coreia do Norte jamais chega ao patamar destes inspirados primeiros momentos. Apelando frequentemente para o nonsense e o exagero, a estadia da dupla na nação asiática é ditada por subtramas razoavelmente batidas: em contato direto e íntimo com Kim por longas horas, Skylark opta por abortar o plano após se ver convencido de que há um bom coração dentro do peito do ditador e que o país encontra-se em boas condições – constatações absurdas que só tornam-se críveis porque James Franco, em uma composição surpreendentemente eficaz para esses propósitos, transforma o protagonista em um sujeito ingênuo, estúpido, excêntrico e arrogante, participando ativamente do estopim de praticamente todos os conflitos da trama. Já Seth Rogen, cuja carreira resume-se a papeis que não passam de ligeiras variações de si mesmo (algo que o próprio reconheceu e brincou a respeito no divertido É O Fim), pende desta vez para uma figura mais centrada, funcionando como um necessário contraponto à expansividade do protagonista.
Feliz nas alfinetadas endereçadas à mídia em geral (Skylark é veemente ao afirmar que “dar ao público o que ele quer” é a regra número um do jornalismo), A Entrevista peca, por outro lado, por exibir uma visão turva, inconstante e por vezes distorcida das questões políticas que opta por abraçar e tenta discutir. Se por um lado o filme acerta ao ironizar o intervencionismo violento e arbitrário norte-americano (“Quantas vezes os EUA vão cometer o mesmo erro?”, alguém pergunta em determinado momento, e é impulsivamente respondido pelo personagem de Franco com um “Quantas vezes for necessário!”), por outro os roteiristas concebem um terceiro ato cuja dose elevada de violência gráfica, vinda de todos os lados, parece legitimar de alguma forma o uso da força quando esta exibe resultados benéficos para os “mocinhos” (e para a humanidade, no contexto fictício superficial estabelecido pelo roteiro). Ora (não leia o restante do parágrafo caso se incomode com spoilers sobre o desfecho), o assassinato de Jong-Un é um ato condenável como plano da CIA, mas aceitável quando os personagens precisam escapar da enrascada em que eles próprios se meteram, numa espécie escapista de legítima defesa? E caso a personagem Sook (Diana Bang) não despontasse como uma conveniente aliada interna e íntegra, quais resultados seriam esperados de toda a confusão inconsequente armada por Skylark e Aaron em terras coreanas?
Fazendo uso hilário da canção “Firework” de Katy Perry, que funciona tanto como ironia fina sobre a glamourização da violência quanto para outros propósitos próprios da trama, A Entrevista chega aos cinemas tentando botar um ponto final em toda a controvérsia a que fora exposto nos últimos meses – e considerando a natureza do terrorismo sofrido pela produção, bem como os autores das ameaças (hackers norte-coreanos, segundo consta), fica comprovado que, por mais ingênuas ou superficiais que muitas das críticas formuladas pelos roteiristas possam ser, várias delas estão ao menos bem endereçadas.
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