CRÍTICA: A Era do Gelo 3

Animações
// 26/06/2009

Em tempos de colapsos criativos em Hollywood, as animações parecem se destacar cada vez mais. A Era do Gelo 3, que estréia nesta sexta-feira em projeção 3D por todo o país e na próxima em projeção convencional, confirma a constante? Leia a crítica na íntegra clicando em

A Era do Gelo 3
Por Henrique Chirichella

A partir do momento em que as animações apresentam-se como personificação não só do nosso mundo, mas também de nossos anseios, frustrações, satisfações, o espectador se sujeita ao moralismo metafórico, algo que, neste caso, não deve ser interpretado de maneira pejorativa. De fato, as produções animadas possuem uma importante e valiosa preocupação na concepção e transmissão de valores comportamentais. Há, porém, uma vertente de filmes que atenuam – e não extinguem – a condição. E, por adotar tal postura, o grande mérito de A Era do Gelo 3 acaba sendo a sua despretenção assumida acompanhada de uma comicidade divertida.

O aspecto cômico, constante da produção, irá surgir diretamente de mais uma jornada  do bando formado pelos mamutes Manny e Ellie, o tigre Diego, a preguiça Sid e os gambás Eddie e Crash. Enquanto no primeiro filme tínhamos a busca dos animais pelos humanos e no segundo a fuga de uma inundação, neste a peripécia se concentra na procura por Sid que, após se apossar de três ovos de dinossauro com o intuito de ter uma família, acaba sendo raptado e levado para um universo subterrâneo habitado por criaturas jurássicas que deveriam se encontrar, supostamente, extintas. Obviamente, o humor é consequência dos fatores proporcionados pela aventura, pelas atitudes dos personagens e, na maioria das vezes, por elementos externos.

Aliás, o humor, em si, possui diversas vertentes. É instigante averiguar que, independente deste ser ingênuo, irreverente, pastelão, inteligente e até adulto, a produção tenta agradar a todos os tipos de espectadores. E esta junção de variadas esquetes cômicas de divergentes funções promove diversas sequências hilariantes e divertidas. A comicidade corporal – mais ingênua, por exemplo – é utilizada em abundância, assim como a troca de diálogos e situações de exclusivo entendimento por parte do público juvenil e adulto. As deliciosas homenagens e referências ao cinema – como Apocalypse Now de Francis Ford Coppola – e à cultura pop – The Flintstones e a clássica canção “You will never find another Love Like Mine” de Lou Rawls –  também marcam presença, mesmo que em menor quantidade. A apropriação destas variantes humorísticas em conjunto resulta em um equilíbrio, o que contribui para a não repetitividade.

Todavia, apesar do roteiro se revelar eficaz graças às diversas abordagens cômicas, a trama apresenta algumas ressalvas perante o seu desenrolar. Fãs da preguiça Sid poderão não se contentar tão facilmente já que o tempo em tela do personagem é radicalmente reduzido em comparação aos outros filmes da série. A tentativa de desenvolvimento psicológico de novos personagens não se mostra eficiente, o que justifica a falta de interesse por parte do público em alguns deles como, por exemplo, a doninha Buck. Os gambás Eddie e Crash, os personagens mais escrachados e exagerados,  ganham mais diálogos e sequências porém, não transmitem o carisma e diversão do melhor personagem da animação, o próprio Sid. O esquilo Scratch, por sua vez, protagoniza momentos mais curtos e menos inspirados que nos anteriores.

Se há apenas alguns empecilhos no roteiro, a técnica compensa, apresentando um perfeccionismo sem igual. O diretor brasileiro Carlos Saldanha – que iniciou como co-diretor do primeiro longa e passou a dirigir o segundo – e a sua equipe da Blue Sky Productions impressionam no rico detalhismo que enfeita a produção. Algo que me agrada bastante na franquia é a estilização característica acompanhada da incrível ambientação e do minucioso trabalho de composição dos personagens. A experiência se torna ainda mais gratificante em 3D, projeção que será exibida em boa parte do país. A interação entre os personagens e a profundidade de campo e os efeitos de textura proporcionada pela tecnologia é divertidíssima, compensando o valor mais caro que o ingresso convencional. Graças a sua competência, o brasileiro Carlos Saldanha já é referência para a indústria cinematográfica hollywoodiana, o que deve incentivar o público brasileiro na ida aos cinemas.

Atualmente, nota-se uma dificuldade dos blockbusters live-action para se firmar perante o público e a crítica. O exagero, a pretensão, a repetição e a megalomania acabam por transformar algo que deveria ser um entretenimento saudável em um divertimento caracterizado pela monotonia e pelo “lugar comum”. As animações, por sua vez, surgem para inovar e propor novos conceitos, resultando em experiências muito mais válidas e agradáveis. Justamente, devido a sua despretensão, aos valores sociais e comportamentais contidos mas presentes, e à fácil comunicação com o público infantil  e adulto, A Era do Gelo 3 comprova e reforça o carisma dos longas-metragens anteriores, posicionando-se em um mesmo patamar. Diante o colapso criativo, produções de tais conjunturas se destacam e confirmam que, realmente, adentramos na Era das Animações. É um prazer.

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Ice Age: Dawn of the Dinosaurs (EUA 2009) Animação. Fox
Direção: Carlos Saldanha
Elenco: John Leguizamo, Denis Leary, Queen Latifah, Ray Romano

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