CRÍTICA: A Fita Branca

Críticas
// 16/02/2010

Estreou na última sexta-feira em território nacional o favorito ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, A Fita Branca, drama do diretor Michael Haneke que já faturou o Globo de Ouro na categoria. O longa, em preto e branco, é o justo contrário da metodologia hollywoodiana, fazendo do espectador um ser pensante, e não apenas um receptor.

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A Fita Branca
por Bruno Cava – colaboração

O último longa do austríaco Michael Haneke, o mesmo de Cachè (2005) e Violência gratuita (2007), que abiscoitou a Palma de Ouro no último festival de Cannes, impressiona pela marca autoral não-convencional, num filme de punch que convoca explicitamente o senso crítico do espectador.

Ambientado numa pequena e típica vila rural do norte da Alemanha, às vésperas da 1ª Guerra Mundial, o filme adota uma iconografia bucólica, acentuada pela austera fotografia em preto-e-branco, assinada por Christian Berger, pelo ritmo lânguido das seqüências e pela ausência de trilha sonora, a ponto de quase se ouvir as folhas farfalhando, de tão plácida a atmosfera. Filmando a tranqüilidade de cenários naturais cobertos de neve, especialmente cândida, pontuados por moinhos, pontes e outras construções de madeira, num primeiro momento se é induzido à visão do interior do país como espaço de pureza. Lá, se teria uma vida simples, distante da corrupção das metrópoles, estruturada de modo sólido na moral religiosa e classista, com festivais tradicionais, ciclos sempiternos e amores simples.

Nada mais alheio ao universo de perversidade e má-consciência retratado neste filme.

Logo no começo, a comunidade entra em crise, quando atentados e desaparecimentos misteriosos levam o espectador, acompanhados pelo professor primário que narra a história, a dissecar as duras verdades sobre esse povoado interiorano. É aí que, por trás do severo patriarcalismo e da draconiana moral evangélica, vai revelando-se um mar de ressentimento, vingança e violência surda, maculando a pretensa inocência dos habitantes. As três figuras de autoridade, – o barão oligarca, o médico e o pastor, – todas elas mantêm segredos obscuros dentro das famílias, desdobrando-se para manter firme a hipocrisia que sustenta a ordem social. A fita branca usada como castigo é o signo dessa dupla função de purificar e punir, tão central na educação cristã em geral. Especial destaque para a interpretação de Burghart Klaussner, que soube expressar com severidade e sem floreios o papel do opressivo pai e sacerdote protestante.

As maiores vítimas da realidade sórdida nas entrelinhas do regime de controle do “pacato” vilarejo, como aliás sempre sói ocorrer, são as crianças. Durante o filme, não se é poupado de assisti-las sendo cruel e sistematicamente repreendidas, xingadas, amarradas, açoitadas, espancadas, humilhadas, psicologicamente seviciadas e sexualmente molestadas. Nem mesmo uma criança excepcional escapa de ter os olhos quase arrancados. Uma violência superlativa contrastando com a pedagogia de castidade e purificação, ensinada na igreja, na escola e no seio da família.

Há vários filmes sobre a temática dos efeitos do abuso de menores pelo sistema. Porém, a mim, o filme evocou o contracultural If… (1968), de Lindsay Anderson, com Malcolm McDonnell. Assim como em If, que também tem um pano de fundo de rigidez moral e hierarquia social, as crianças não recalcam totalmente a opressão e se vingam – seja decapitando o animal de estimação do pastor, seja colocando armadilhas para o médico, seja incendiando o moinho e surrando o filho do barão. Por mais que a estrutura do romance criminal de mistério, do tipo quem matou?, não se resolva, fica patente que as perturbadas crianças participam de alguma forma nas vinganças. Há quem as aproxime, por sinal, aos infantes malignos de A Vila dos Amaldiçoados, horror sci-fi britânico de 1960, refilmado mais recentemente por John Carpenter, em 1995.

Na realidade, o diretor introduz o gênero do crime misterioso apenas para frustrar o espectador logo a seguir. Aliás, assim como em Caché (2005), a questão da autoria da ações misteriosas finda insolvida. E assim como no thriller de suspense Violência gratuita (2007), o diretor intencionalmente contorna os clichés do gênero, decepcionando aquele adaptado ao cinema mais convencional e hollywoodiano.

A trama, na filmografia de Haneke, pretexta o clamor por reflexão que a obra instiga a quem vai ao cinema. Em A Fita Branca, isto fica claro com o tempo distendido em seqüências-chave. Exemplo cristalino ocorre quando os filhos do pastor serão açoitados por seus pecadilhos. Nessa cena, o casal de crianças entra resignadamente no quarto do castigo e a porta se fecha, a câmera fica parada no corredor e, ao invés de os gritos começarem imediatamente, vê-se a porta reabrir, o menino sai, vai a outro cômodo para buscar a vara punitiva, retorna e fecha novamente a porta, e somente aí, sem nenhuma pressa, ouvem-se os lamentos da tortura. Ou seja, ao contrário do procedimento-padrão de Hollywood, que normalmente editaria a seqüência, o filme confere tempo para a reflexão do espectador, para que ele pare e se distancie da ação, ao invés de aceitá-la acriticamente. Um procedimento de ruptura da normalidade estética que não é novo e remonta ao efeito de distanciamento proposto por Brecht no teatro. Algumas seqüências do filme anterior, “Violência gratuita”, também vão no mesmo sentido.

Portanto, o filme conclama o espectador a ruminar o que está vendo, a não se entregar como um zumbi emotivo, a não ser um cúmplice passivo da violência, e assim a buscar as causas e razões dos acontecimentos, explorando-lhes as múltiplas camadas: éticas, políticas, psicológicas, históricas etc. Nisso, o cinema de Michael Haneke encontra par com o contemporâneo Lars von Trier.Para realizar esse intento, o filme joga com a noção de desprazer, com a produção de uma sensação desconfortável não somente por causa da brutalidade das imagens, mas por nossa atitude perante a mesma.

Existe a tentação de ver em A Fita Branca (mais) um estudo sobre o surgimento do nazismo da Alemanha, mas a verdade é que ele poderia ter sido ambientado em muitos países e tempos históricos. Sem dúvida, é uma análise reducionista e cômoda, contornando todo o trabalho estético ao redor das estratégias narrativas e do jogo forma/conteúdo magistralmente instituído no laureado filme. A Fita Branca vai mais além, num filme maduro e sofisticado, coroando a trajetória de vigor e crítica do diretor.


Das Eisse Band
(Alemanha, Áustria, França, Itália, 2009). Drama. Imovision.
Direção: Michael Haneke
Elenco: Christian Friedel, Leonie Benesch, Ulrich Tukur

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Categorias
Críticas, Drama