CRÍTICA | A Forma da Água

Críticas
// 31/01/2018
a forma da agua

Líder em indicações ao Oscar 2018, A Forma da Água une referências díspares que vão dos musicais da primeira fase do cinema sonorizado ao obscuro e ingênuo horror d’O Monstro da Lagoa Negra, de 1954, passando pelas comédias românticas estreladas por Audrey Hepburn, para contar uma história clássica de amor improvável e empatia no pano de fundo do princípio da Guerra Fria. Uma era que, na superfície, parece mais inocente que a nossa, mas tem alicerces embebidos em ressentimentos, preconceitos e relações arbitrárias de superioridade e autoridade que se mostram ainda assustadoramente atuais.

A direção de Guillermo Del Toro, madura e segura em sua pessoalidade, foca com precisão de raio laser os idiossincráticos personagens principais, vividos por um ótimo elenco para o qual foram especificamente escritos. Del Toro aproveita a elasticidade criativa e artística resultante de uma trajetória que, até aqui, ziguezagueou entre pérolas autorais como A Espinha do Diabo e O Labirinto do Fauno e produções comerciais divertidas, porém rasas – Hellboy, Blade –, para imbuir sua fábula adulta com doses proporcionais de poesia, beleza, pieguice e cinismo. A mistura chega a pesar no estômago, mas, engrossada por toques de tensão spielbergiana e ambientação sonora e visual impecáveis, exerce um peculiar fascínio que já rendeu ao diretor o Globo de Ouro e abriu caminho para estatuetas nas principais categorias do Oscar.

Na disputa de três dessas categorias, o filme tem representantes de peso na protagonista Sally Hawkins e nos coadjuvantes Octavia Spencer e Richard Jenkins, que interpretam, respectivamente, Elisa, Zelda e Giles: uma mulher muda, uma negra e um sexagenário gay que se deparam com a existência de uma estranha criatura (Doug Jones), alvo de desígnios sórdidos em uma instalação militar sob o comando do Coronel Strickland, vivido por Michael Shannon, que não recebeu indicações embora apresente desempenho igualmente sólido. Shannon sempre se mostra à vontade no papel de sujeitos estranhos e/ou nojentões, e seu personagem aqui se revela um nojentão de primeira linha, à medida em que assume o próprio apodrecimento em sentido metafórico e literal.

Originalmente, a intenção era filmar A Forma da Água inteiramente em preto e branco, mas a oferta de um orçamento maior levou o diretor mexicano ao uso de cores. E Del Toro não se fez de rogado. A fotografia do também indicado Dan Laustsen (que também colaborou com o diretor em A Colina Escarlate) é carregada de tons verdes e azulados quase o tempo todo. Hawkins, ao mesmo tempo meiga e enigmática como Elisa, transita entre o azul metálico estéril e asséptico da base militar, onde trabalha com Zelda – pragmática, justa, leal e impagável como as personagens nas quais Octavia Spencer vem se especializando em filmes como Histórias Cruzadas e Estrelas Além do Tempo – e o verde acolhedor do edifício velho, com ares de faz-de-conta, onde ela e Giles – também um discreto deleite nas mãos do competentíssimo veterano Richard Jenkins – moram.

A densidade azul e esmeralda é entremeada por alguns respiros amarelos, especialmente quando a narrativa se direciona para o sonho americano desprovido de profundidade da vida cotidiana de Strickland. Há, ainda, um toque visual modernoso na forma de comunicação da protagonista muda, que aparece em legendas integradas à narrativa, mais ou menos como acontece em alguns momentos de John Wick: Um Novo Dia Para Matar, cuja cinematografia também ficou a cargo de Laustsen.

Esse apuro visual não chega a sustentar por si só os eventuais momentos em que a narrativa, que passa de duas horas, tropeça no próprio ritmo e se esforça para resolver um número considerável de subtramas, incluindo ainda, como não poderia deixar de ser num filme ambientado na Guerra Fria, a participação dos russos na coisa toda. A atenção preciosista que o longa dá a cada um desses elementos acaba se tornando algo maçante, ainda que nunca forçado, por mais que o caráter dramático possa alcançar níveis acentuados demais para o gosto de alguns. Até aí, no entanto, nenhuma novidade: pretensões artísticas à parte, os favoritos do Oscar quase sempre são aqueles que mais arrancam lágrimas multiplex afora.


The Shape of Water (EUA 2017). Fantasia / Drama. Fox Searchlight Pictures.
Direção: Guillermo Del Toro
Elenco: Sally Hawkins, Michael Shannon, Octavia Spencer, Richard Jenkins, Doug Jones, Michael Stuhlbarg.

8-pipocas

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Categorias
Críticas, Drama, Fantasia