CRÍTICA: A Lenda dos Guardiões

Animações
// 07/10/2010

Nesta sexta estreia com poucas semanas de atraso o longa A Lenda dos Guardiões, primeira animação do aclamado pelo público jovem Zack Snyder. Novamente se aventurando no mercado das adaptações, o diretor parece estar eternamente preocupado com o visual e menos com o tipo de material que se propõe a levar para as telas. No entanto, o risco compensa com verdadeiros encantamentos graças à equipe de animação e o fabuloso 3D empregado.

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A Lenda dos Guardiões
por Arthur Melo

Quando 300, adaptação do graphic novel de Frank Miller, chegou aos cinemas, os olhares mais populares foram atraídos pelos mesmos elementos: as batalhas colossais, o slow motion figurão e os pixels embelezados que davam à imagem um tratamento que buscava refletir o ar épico que a trama exigia para se vender. Em Watchmen, releitura para os cinemas da obra de Alan Moore, a marcha lenta da câmera ainda estava lá, as batalhas cederam o spot para ganchos marciais e a composição visual se limitou ao necessário para incorporar a HQ que lhe originou, sem mais delongas artificiais; a história, no caso, cuidaria do entretenimento. É inegável que as produções tocadas por Zack Snyder sabem se portar muito bem, considerando a comparação sempre temida entre a trama original e o roteiro, resultando bons frutos. Mas é inquestionável, também, que há muito o que fora maquiado.

Snyder é, hoje, um dos mais promissores diretores de ação. Seus filmes têm rendido bons lucros e uma posição muito cômoda para o seu currículo na preferência dos fãs e na aceitação da crítica especializada – negar isso seria esconder o óbvio. Entretanto, mais óbvio do que seus resultados são os meios utilizados para se chegar até eles, o que só denuncia o seu elo mais fraco: o desenvolvimento. Em A Lenda dos Guardiões, também uma adaptação – agora do livro “The Guardians of Ga’Hoole”, de Kathryn Lasky – as evidências saltam aos olhos (um trocadilho infame, se lembrado do 3D).

Soren e Kludd são dois irmãos corujas que caem do alto de seu ninho quando tentar aprender a voar desacompanhados dos pais. Em meio a uma tentativa de fuga de um animal predador em solo, as aves são capturadas por soldados do perverso grupo dos Puros, que desejam governar o reino das corujas a todo o custo, nem que tenham que sacrificar a vida ou a liberdade de tantas corujinhas. Mas Soren, que terá de lidar com a inveja e traição de seu irmão, poderá contar com a ajuda de amigos para chegar até a Grande Árvore e pedir ajuda aos lendários Guardiões.

A bem da verdade, A Lenda dos Guardiões não possui deslizes na sua história. Seria algo a se comemorar caso isso fosse o saldo positivo após pesos e medidas, o que não se aplica aqui. A trama está longe de ser ousada, instigante ou até mesmo atraente, brotando o questionamento sobre o que, em uma narrativa insossa, chamou a atenção para merecer uma passagem nos cinemas. Zack “Visonário” Snyder e seus deslumbres respondem muito bem a isto. O diretor afirma já em sua primeira animação sua extrema capacidade em imaginar planos admiráveis, intensos e nutritivos aos olhos. Guardiões é, a todo o momento, um prato cheio para Snyder esticar as pernas e avançar, graças à munição ilimitada da animação computadorizada, alguns passos que não tinham sido pretendidos em seus live-actions anteriores. Pela primeira vez, o slow motion, claríssimo vício de linguagem da direção, casou com perfeição com a proposta do filme. E ganha uma potência ainda maior com o impecável trabalho na elaboração do 3D que é um deleite em preciosos momentos.

Embasado por uma técnica invejável, a película não se retém aos mimos visuais. É interessante atentar para a edição de som que projeta no ambiente intensos ruídos nas cenas mais energéticas. A exemplo disto estão as magníficas passagens em que Soren e Gylfie planam no ar ou as rasgadas de asas na violenta sequência aérea do clímax, facilmente comparável a uma caçada entre aeronaves brutais, mas elegantes.

A Lenda dos Guardiões é uma das raras oportunidades em que o visual compensa a falta de um melhor “fundo” narrativo. “Fundo”, claro, uma vez que é o caso da inversão de papéis em que, originalmente, a história deveria vigorar em primeiro plano, amparada pelo conceito estético; trabalhando juntos. É o custo a se pagar por um roteiro que só existe para não desmerecer os objetivos principais desta animação: se gabar de ótimos manejos do teclado e mouse.

The Legend of The Guardians (EUA, 2010). Animação. Fantasia. Warner Bros. Pictures.
Direção: Zack Snyder
Elenco: Hugo Weaving, Emilie de Ravin, Ryan Kwanten, Helen Mirren
Trailer

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